– Os autos da eternidade – ele explica, quando me coloco em pé ao lado dele. E, virando o rosto para olhar para mim: – Os livros que escreveram no Paraíso os que nos antecederam.
– Extraordinário – anuncio o óbvio, erguendo o braço para massagear a nuca. Restamos minúsculos no que poderia ser a nave brumosa de uma catedral numa gravura de Doré. Cada palmo das paredes, mesmo nos arcos mais elevados e inacessíveis, está inteiramente tomado de rolos e volumes.
– O que você está vendo é uma diminuta porção do todo – o homenzinho aponta para as quatro portas em leque que abrem para corredores. – A Biblioteca se estende por quilômetros em todas as direções.
Dou passos silenciosos na direção de uma das paredes e toco uma lombada verde com letras douradas.
– Que tipo de livros são esses?
– Todos.
Puxo o volume da prateleira e abro. A folha de rosto está escondida num idioma que não sei reconhecer; algo nórdico, a julgar pelos acentos. Talvez finlandês.
– A Biblioteca é a memória da Terra. É Yl, a árvore mística invertida, cujos ramos abrangem o universo. Aqui repousam as dez mil biografias de Krishna e as mil biografias do autor do Bhagavad Gita; aqui conversam entre si as quatro biografias do Filho do Homem, e discutem as biografias de todos os evangelistas com as biografias de seus biógrafos.
Devolvo o volume ao seu lugar e passo os dedos ao longo das lombadas daquela prateleira, como se esperasse produzir música.
– E por que está escondida?
Ele senta-se de pernas cruzadas no chão, deslizando a mão pela vara de caminhada.
– O notável é que não está escondida, meu amigo. A Biblioteca está aberta para qualquer um e nunca houve um período em que estivesse fechada. As entradas estão em diferentes pontos dos Cardeais Proibidos, isso é verdade; mas não há quem não saiba que não se trata de algo tão proibido assim.
Dou as costas para a parede.
– E onde estão os leitores?
Ele balança a cabeça.
– Em todo o lugar. A Biblioteca é grande demais para que seja coisa comum encontrar algum.
Falo sem impaciência.
– Por que Gandhi me trouxe aqui?
– Finalmente uma pergunta para a qual não sei a resposta completa.
– E vai me dar a incompleta?
Ele suspira, como se tivesse pena de prosseguir.
– Por causa de Awqdra Aksija.
Nunca ouvi o nome antes, pelo que não vejo motivo para descruzar os braços. Mas vem-me de súbito à lembrança a provocação De la Mettrie no celular, quando disse que eu estava literalmente em pé em cima das respostas que buscava. Fico pensando se ele não sabe da existência deste lugar, e fazia referência à biblioteca subterrânea.
– O livro grande de capa vermelha, duas prateleiras acima daquele que você acaba de devolver.
Encontro o livro e hesito antes de puxá-lo pelo ângulo da lombada.
– Está escrito em sânscrito – ele observa a tempo, mas retiro o volume da estante mesmo assim.
Sento-me no chão de costas para a parede, de frente para o meu interlocutor. Aperto o livro fechado e inútil contra a barriga da perna, como meu prêmio ou meu refém, as cantoneiras de metal tocando-me a sola dos pés.
– O título é Oe eo, a Narrativa das Narrativas Circulares; ou, para ser mais exato, a Narrativa Circular das Narrativas. Foi escrito por um filósofo indiano dois mil anos antes de Cristo.
– É uma história?
– Oe eo é uma história e muitas outras coisas; mas trata-se em termos gerais de uma reflexão sobre Awqdra Aksija.
– Qual é a tradução?
– Não é sânscrito; está numa língua morta há muitos milênios. O autor do Oe eo usa a tradução aproximada “O Estreitamento das Histórias”.
– E o que tem a ver comigo? Tem alguma relação com Sahid?
– Tem algo a ver com todo mundo. É na verdade um conceito muito simples. Imagine o começo de uma história, qualquer história que já tenha sido contada. Há no começo, digamos, um camponês ou um príncipe ou um pescador: tanto faz. Neste momento é tudo muito simples, e neste momento da narrativa tudo pode acontecer. A história, incrivelmente, pode tomar qualquer rumo, e é apenas neste momento que o protagonista é inteiramente livre. Mas o herói logo começa a dobrar-se às exigências da trama, pela qual ele mesmo faz escolhas e coisas alheias lhe sobrevêm: há um tesouro a ser encontrado, uma pessoa a ser resgatada, uma honra a ser restaurada. Então, a cada novo incidente da trama o herói é menos livre; fica cada vez mais definido qual é o seu drama e portanto o seu destino, até à inevitável paralisia. Este cerceamento das possibilidades, que o próprio protagonista é inteiramente incapaz de perceber, é Awqdra Aksija, o estreitamento da narrativa.
– Formidável, mas não vejo onde se aplica.
– Aplica-se a este rigoroso momento – ele assevera, deixando que as partículas de pó acima de nossas cabeças dancem um instante por si mesmas à luz de lâmpadas altíssimas, – e a cada momento. Não é só nas lendas, você deve ponderar, que os protagonistas são gradualmente esmagados pelas especificações dos acontecimentos. À medida em que nossa própria história avança, somos levados a crer que os incidentes da nossa tramam nos definem de forma inescapável. Cremos que estamos avançando história dentro rumo a uma resolução satisfatória, mas estamos na verdade caminhando rumo à estagnação e à paralisia. Nossa narrativa vai se estreitando até o estrangulamento final. Desabamos sobre o peso de nossas escolhas, que provam-se cadeias ao invés de liberdades. É, em suma, o que ocasiona a telopausa.
– Se é inevitável – pontuo – não vejo porque precisa ser discutido.
– Mas não é de forma alguma inevitável – ele sorri sem restrições, porque esta é sua grande revelação. – Há uma cura, que você certamente terá adivinhado qual é. A completa desintegração.
– A morte.
– A morte. Nos nossos dias terrenos, quando o Estreitamento estrangula nossa história ao ponto do sufocamento completo, Deus tem misericórdia de nós e nos mata. Eis porque no Paraíso, você vê, não há uma solução para o problema que não seja o recolhimento e a esterilidade. Onde ninguém pode morrer, nada pode haver que não seja estagnação. Nada de novo jamais será criado, para sempre. A bem-aventurança eterna é a forma mais paralisante de Awqdra Aksija. É no final feliz que estreitam-se todas as histórias.
– A não ser – completo – quando são redimidas pela morte.
– Sem a qual não há o novo nascimento – ele está sorrindo em beautitude plena.
– Devo acreditar que Gandhi está querendo me converter ao inferno?
– Não quero convertê-lo a coisa alguma. Devo apenas alertá-lo sobre o objeto da sua busca. Você crê que conhecer o conteúdo do bilhete que Sahid deixou para você irá ajudá-lo a fazer avançar a sua história. Você crê que esse conhecimento o deixará um homem mais livre e ajudará a definir quem realmente é; crê que ele o deixará de alguma forma mais perto da verdade. Se elucidei Awqdra Aksija foi para denunciar a completa ilusão dessas expectativas. São ilusões, meu amigo. Tudo que você vai conseguir perseguindo esse caminho é contribuir para o estreitamento da sua própria história. Estará rumando para a estagnação, não para a verdade.
– Esta – falo num sussurro, mas encontrei minha própria beautitude – é uma decisão que diz respeito apenas a mim. E é uma decisão que já fiz.
– Não, ainda não fez – ele cruza os braços e a vara de caminhada sobre as pernas cruzadas. – Ainda há tempo. O bilhete de Sahid está no exato centro do volume que você traz no seu colo.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro

