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A proibição extrai seu poder impulsionador de dois fatores dramáticos opostos. Em primeiro lugar, a transgressão deve ter conseqüências impensáveis; seus efeitos devem ser abrangentes e devastadores, primeiro para o transgressor e seu círculo, mas também para o restante do universo (qualquer que seja na história o tamanho do universo; cada narrativa tem o seu). O fogo deve permanecer para sempre de uso exclusivo dos deuses, caso contrário os mortais serão beneficiados (ou amaldiçoados) com a consciência e a civilização; a caixa de Pandora não deve ser aberta, caso contrário os males da humanidade escaparão do seu confinamento e contaminarão irremediavelmente a terra; Adão não deve comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois no dia em que o fizer acabará conhecendo a morte. O enunciado da proibição deixa claro que ela existe por uma razão fundamental, que absolutamente não pode ser tomada levianamente; ignorar a advertência é estar pronto a alterar a tessitura mais fundamental das coisas.
Apesar de ter conseqüências inconcebíveis, a transgressão em si, o ato direto da violação, deve permanecer todo o tempo no terreno das coisas concebíveis. A violação deve ser de tal natureza que possa ser executada por qualquer agente suficientemente motivado, enganado ou distraído: um titã tem acesso tanto a homens quanto a deuses, pelo que pode levar o fogo proibido de um a outro; Pandora é uma mulher curiosa, pelo que pode a qualquer momento decidir a caixa que está em seu poder; a árvore é atraente, e qualquer um pode tentar convencer Adão a estender a mão para tocá-la.
Conseqüências inconcebíveis, violação concebível. Dito de outra forma, a proibição une os domínios do último e do penúltimo, do finito e do infinito, do natural e do sobrenatural.
A vertigem, naturalmente, é que uma coisa de resultados tão terríveis e momentosos não seja inerentemente proibida no mecanismo do cosmos; o assombroso é que a violação esteja ao alcance de qualquer um ou pelo menos de alguém.
O messias judeu Sabbatai Sevi (que mais tarde apostataria para o islamismo) percebeu e passou a celebrar, à sua maneira, a extensão deste mistério. Em junho de 1665 Sabbatai Sevi reuniu os seus discípulos em Jerusalém e convidou-os a instituirem um sacramento de trangressão, no qual violariam solenemente um dos mandamentos da Torá. Naquela tarde Sevi e seus discípulos fizeram o que voltariam a fazer juntos inúmeras vezes: comeram o heleb, a gordura do fígado – uma das 36 transgressões para as quais a Torá prescreve a eliminação do transgressor.
A benção que o messias pronunciou antes da ceia, a benção que não tem como não ser a mais antiga de todas:
– Bendito seja Deus, que permite o proibido.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção


