02 de Maio de 2008

A proibição extrai seu poder

Subscrito atenciosamente por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

16

A proibição extrai seu poder impulsionador de dois fatores dramáticos opostos. Em primeiro lugar, a transgressão deve ter conseqüências impensáveis; seus efeitos devem ser abrangentes e devastadores, primeiro para o transgressor e seu círculo, mas também para o restante do universo (qualquer que seja na história o tamanho do universo; cada narrativa tem o seu). O fogo deve permanecer para sempre de uso exclusivo dos deuses, caso contrário os mortais serão beneficiados (ou amaldiçoados) com a consciência e a civilização; a caixa de Pandora não deve ser aberta, caso contrário os males da humanidade escaparão do seu confinamento e contaminarão irremediavelmente a terra; Adão não deve comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois no dia em que o fizer acabará conhecendo a morte. O enunciado da proibição deixa claro que ela existe por uma razão fundamental, que absolutamente não pode ser tomada levianamente; ignorar a advertência é estar pronto a alterar a tessitura mais fundamental das coisas.

Apesar de ter conseqüências inconcebíveis, a transgressão em si, o ato direto da violação, deve permanecer todo o tempo no terreno das coisas concebíveis. A violação deve ser de tal natureza que possa ser executada por qualquer agente suficientemente motivado, enganado ou distraído: um titã tem acesso tanto a homens quanto a deuses, pelo que pode levar o fogo proibido de um a outro; Pandora é uma mulher curiosa, pelo que pode a qualquer momento decidir a caixa que está em seu poder; a árvore é atraente, e qualquer um pode tentar convencer Adão a estender a mão para tocá-la.

Conseqüências inconcebíveis, violação concebível. Dito de outra forma, a proibição une os domínios do último e do penúltimo, do finito e do infinito, do natural e do sobrenatural.

A vertigem, naturalmente, é que uma coisa de resultados tão terríveis e momentosos não seja inerentemente proibida no mecanismo do cosmos; o assombroso é que a violação esteja ao alcance de qualquer um ou pelo menos de alguém.

O messias judeu Sabbatai Sevi (que mais tarde apostataria para o islamismo) percebeu e passou a celebrar, à sua maneira, a extensão deste mistério. Em junho de 1665 Sabbatai Sevi reuniu os seus discípulos em Jerusalém e convidou-os a instituirem um sacramento de trangressão, no qual violariam solenemente um dos mandamentos da Torá. Naquela tarde Sevi e seus discípulos fizeram o que voltariam a fazer juntos inúmeras vezes: comeram o heleb, a gordura do fígado – uma das 36 transgressões para as quais a Torá prescreve a eliminação do transgressor.

A benção que o messias pronunciou antes da ceia, a benção que não tem como não ser a mais antiga de todas:

– Bendito seja Deus, que permite o proibido.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

Post to Twitter



Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail