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A primeira blasfêmia, portanto, está em Deus achar necessário criar o universo antes de criar o homem.
A quem acompanha a narrativa podem ocorrer pelo menos duas soluções para o problema do céu e da terra, nenhuma das quais diz coisa muito generosa sobre a auto-imagem divina. Por um lado, o planejamento e a execução do universo parecem indicar que Deus não se considerava, ele mesmo, suficiente para o homem – o que é, naturalmente, desconcertante ao ponto do inconcebível. Sendo a divindade quem é, não bastaria para o homem Deus, somente Deus, assim seco e sem gelo? Os céus declaram a glória de Deus, opina o salmista; para quem observa a mesma cena por outro ângulo, céu e terra são uma esmagadora declaração de divina insuficiência. Então Deus precisa do universo para nutrir o homem?
Por outro lado – e eis o segundo problema – com a exuberância do céu e da terra Deus proporciona um pano de fundo contra o qual ele mesmo pode acabar passando despercebido para o ser humano. Não há como ignorar a façanha: o universo que Deus produz é, incrivelmente, suficiente sem Deus. Se ama de fato o homem e quer intimidade com ele, por que deitar sua obra mais cara num mundo tão extraordinariamente bem amarrado (com seus astros e estrelas e animais selvagens e animais domésticos e aves do céu e peixes do mar e árvores frutíferas e ervas do campo, “cada um segundo as suas espécies”) que prescinde horrivelmente de Deus?
Aqui estão, logo nas primeiras páginas da história, dois enigmas que são um: Deus não se considera suficiente mas cria um universo suficiente. O que ele está tentando provar? O que está tentando esconder?
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


