15 de Outubro de 2008

A primavera de McCain

Sujeito a cobrança por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Então, na primavera de 2008, as ações da Dissidência da ANA foram se tornando tremendamente ousadas e incômodas. Era um momento delicado, em que diante de coisas como o esfriamento global e a crise financeira mundial (que no Brasil nos poupavam de modo tão evidente) estava muito difícil esconder dos brasileiros a grandeza do país. Os agentes da DANA aproveitaram, no instante em que estávamos mais ocupados e distraídos, a brecha.

Começou devagar, com uma onda de arquivos powerpoint encaminhados por email, mostrando de forma singela mas inequívoca as belezas naturais do Brasil. De modo geral na ANA não nos incomoda ver promovidas ninharias como cascatas cristalinas, praias desertas e matas de araucária; o que lutamos para manter oculto não são esses arbitrários acidentes geográficos, mas aquilo que de fato nos destaca no cenário mundial: a produção artística, científica, tecnológica, metafísica e moral da maior e mais recatada das nações.

Na verdade sabemos que ver as belezas naturais do Brasil alardeadas entre os brasileiros, além de sugerir uma certa mesquinharia essencial, ajuda a perpetuar o mito de que o que o resto do mundo admira no Brasil são coisas relativamente fáceis de replicar em laboratório – tipo quatis, florestas tropicais e seios de mulata.

Mas achamos que até aquilo estava demais, pelo que nos ocupamos, nos meses seguintes, em lançar uma contraofensiva de powerpoint promovendo as belezas de cidades européias. Como nada há para se ver nas cidades européias, tivemos evidentemente de trapacear. As fotos que mostram chalés suíços contra montanhas nevadas foram tiradas em Cerilândia, na Baixada Fluminense; aquelas moderníssimas pontes “alemãs” estão a dez minutos de Ferrari de Orós; a torre Eiffel original, como se sabe, fica num vilarejo pitoresco na Chapada Diamantina – e assim por diante.

Porém aconteceu que aquela ofensiva organizada de powerpoint da Dissidência não passava de uma manobra de diversão. A DANA planejava algo muito maior, e acabei descobrindo isso da forma mais difícil.

Eu voltava do mercadinho Santa Helena em Campina Grande do Sul, trazendo gelo e carvão para o churrasco de fim de semana, quando duas pedras de carvão soaram, de dentro do saco de papelão, o toque secreto da ANA. Era Rick Warren (onde ele teria conseguido meu número? Só pode ter sido o mala do Mainardi), explicando que Obama e McCain estavam esperando num Niva preto no portão da chácara e queriam falar comigo.

– Para explicações – ele soltou, como se a linha não fosse suficientemente limpa para que ele desse mais detalhes.

Antes que eu imprecasse que tinha coisa mais importante a fazer do que tratar de assuntos já decididos como a sucessão presidencial dos Estados Unidos, Ricardo cuspiu um “amém” e “um abraço heterossexual” e desligou.

– Por que você está com a boca e a orelha sujos de carvão? – perguntou Obama logo de cara, quando pusemos o pé na varanda dos fundos. Como se ele não soubesse.

Lancei um olhar piedoso para McCain. Depois do último atentado seus médicos haviam usado suturas tailandesas ao invés de brasileiras, pelo que ele estava tendo que ser levado de um lugar para o outro em três carrinhos de mão.

– Por que você está descalço e usando meio-fraque? – quis saber McCain, falando de junto da churrasqueira e olhando-me do outro extremo da varanda.

Derrubei o gelo no barril, impaciente, e comecei a encravar as latas de cerveja.

– Não devo nenhuma explicação a vocês. Um de vocês será o próximo presidente e o outro passará a história como nota de rodapé – menti. – Now live with it.

– É esse o problema – reclamou McCain, coçando o bigode com a orelha esquerda. – Você prometeu que eu seria a nota de rodapé.

– E a mim você prometeu que eu seria a nota de rodapé – exigiu Obama, enquanto começava, sem que eu pedisse, a impalar linguiças nos espetos que encontrou dentro do tanque.

– Isso foi antes da crise financeira – expliquei. – Vocês não sabem como essas coisas são complicadas.

– Você pode tentar explicar – resmungou McCain, ajeitando-se no lugar em três lugares diferentes.

Despejei uma peça de alcatra na bacia de sal grosso e comecei a caminhar pela varanda.

– Posso dizer aquilo que vocês tem autorização para saber. Há anos a ANA vem divulgando aqui no Brasil a idéia de que o crescimento da economia brasileira nos últimos anos não é mérito nosso, mas mera consequência da política externa do Bush.

Obama não controlou uma risada audível.

– Sei que é absurdo – prossegui, – mas estava funcionando. A maioria dos brasileiros acredita que é a política americana que nos influencia, e não o contrário. Era uma história que estava dando certo, o infame Projeto Bushbag. Mas então, no que julgamos ter sido incompetência do presidente ou algum deslize do DECOE, o Brasil cresceu de modo incontrolável em 2008.

– E assim quebraram o resto do mundo – reclamou Obama, economicamente irritado mas politicamente correto.

– Falha nossa – sentenciei, usando um isqueiro para acender na churrasqueira o pão amanhecido empapado em álcool – E é aí que vocês entram.

– Como assim? – McCain ergueu uma sobrancelha e deixou cair a outra, que o bull terrier levou embora.

– Os Estados Unidos precisam voltar a ser uma potência – expliquei.

– Mas nunca fomos uma potência! – desesperou Obama.

– Eu acredito nos Estados Unidos – disse Mccain.

Foi então que percebi que um dos dois era agente duplo e vinha estado trabalhando para a DANA, e entendi que o resultado das eleições teria de ser alterado ali mesmo.

– Está vendo o desafio? – desconversei. – É por isso que, ao contrário do que tem acontecido nas últimas eleições, o melhor de vocês dois terá de vencer.

E dei um espeto de churrasco na mão de cada um.

Voltei dez minutos depois com duas caipirinhas, e nenhuma mais era necessária.



Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail