01 de Outubro de 2008

A plenitude dos tempos

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Quando chegou o dia de Pentecostes/Qüinquagésimo estavam todos reunidos de comum acordo.

De repente veio do céu um ruído, como o de um vento forte e impetuoso, e encheu toda a casa onde eles estavam reunidos. Apareceram então línguas como que de fogo, que se ramificavam e pousaram sobre cada um deles. Todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, de acordo com o que o Espírito Santo concedia que falassem.

Havia residindo em Jerusalém, naquela ocasião, homens judeus religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. Por causa daquele ruído juntou-se uma multidão; estavam todos confusos, porque cada um os ouvia falar em seu próprio idioma. Todos estavam espantados e admirados.

– Vejam – eles começaram a dizer uns aos outros, – não são da Galiléia todos esses que estão falando? Como então cada um de nós pode ouvi-los em seu próprio idioma, da terra em que nasceu? Porque todos nós, da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia, os ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas.

Todos estavam boquiabertos e perplexos.

– O que será isso? – perguntavam uns aos outros.

Atos 2:1-12

Porque a resposta da narrativa (isto é, da mão divina) à iniciativa organizatória de Pedro é imediata, fulminante e inequívoca. O que acontece em seguida é o único momento verdadeiramente sobrenatural de toda a narrativa do Novo Testamento; talvez da Bíblia inteira.

Jesus fizera levantar os mortos, mas o mesmo havia realizado Eliseu; dera visão aos cegos, mas antes dele o Rio havia levado as chagas de Naamã; o Filho do Homem subira ao céu, mas tinha sido precedido por Elias. Até este momento o poder divino reservara para si recatos, apegara-se ao rigor de seu método. O Espírito descera, cegante, mas sempre sobre um escolhido ou outro; guiara, mas pela mão do profeta; falara, mas à distância segura do Outro. O próprio Jesus, que venceria com uma palavra a própria morte, não havia sido capaz de superar por completo o obstáculo de ser ele mesmo: a incontornável dificuldade de não ser a pessoa com quem estava falando.

Porém agora, enquanto os seguidores do Cristo desaparecido aguardam reunidos um momento que não sabem se reconhecerão, o espírito de Cristo derrama-se por completo e sem recatos sobre todos e sobre cada um. As línguas de fogo descem sem distinção: todos os reunidos contemplam sem véu a nudez divina e sua glória, e todos imediatamente transbordam dela.

A Encarnação do Filho, em sua atordoante exuberância, aparentemente não bastara para um Deus suficientemente ambicioso. A divindade provera para si, através do precedente de Jesus, uma segunda e definitiva encarnação, efetuada pelo derramamento profuso da consciência universal de Cristo sobre os que eram tocados por ele. Deus revelava finalmente seu plano: um Filho singular não lhe bastava; seu projeto era ter uma multidão de Filhos, uma comunidade vertiginosa e viva de conspiradores forjados segundo o molde revolucionário da mente de Cristo.

E, quando acontece, acontece sobre todos sem exceção, homens e mulheres, velhos e adolescentes. O texto enfatiza continuamente esta unanimidade pelo uso acumulado das expressões “todo”, “todos” e “cada um”. Nisto, na verdade, está a singularidade da coisa toda: nesta perfeitamente cavalheiresca abrangência de generosidade, sem precedentes e sem sucessores na história de todos os cultos. Em todas as tradições, o sobrenatural é de algum modo seletivo; o que acontece no dia de Pentecostes, em seu generoso abraço, é sobre-sobrenatural.

Que o evento está colocado no relato de modo a contrastar com a recente votação orquestrada por Pedro não deve haver nenhuma dúvida. Pois a iniciativa de Pedro é, no fim das contas, elitista e institucional; o derramamento do espírito é universal e democrático (para não dizer socialista ou, ainda melhor, anárquico).

A votação de Pedro, de iniciativa humana, é delimitadora, fazendo apenas confirmar e legitimar as categorias pré-estabelecidas; o derramar do Pentecostes, de iniciativa de Cristo, é igualitário, dissolvendo em sua embaraçosa unanimidade todos os rótulos e categorias.

A votação de Pedro é sensata, ordenada e ordeira, mas nada realmente produz; o derramamento do espírito é loucura e vento e ruído e caos e, nisto, todos se entendem e todos serão transformados.

De um universo de muitos, a eleição de Pedro peneira dois e premia finalmente um. O espírito escolhe todos e sobre todos reparte a sua honra.

A votação de Pedro é manobra de exclusão, enquanto o sopro do espírito é abraço todo-inclusivo; mesmo os “de fora” são inequivocamente tocados pelo milagre (“ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas”), e num instante estarão incluídos nele.

Impossível não ver, em toda essa subversão, a marca distintiva do homem de Nazaré. Pode ser possível perder Jesus de vista no livro de Atos, mas este definitivamente não é o momento. Jesus dissera que teria de partir para que seu espírito viesse; garantira que não deixaria os discípulos orfãos; assegurara que todas as nações veriam a sua glória. Eram promessas grandes e tremendas, mas seu plano se mostrara ainda mais arrojado.

Pois o que testemunhamos neste dia de Pentecostes é nada menos, senhoras e senhores, do que a volta de Cristo.

Jesus dissera que na sua vinda seria visto num instante do oriente ao ocidente, e aqui estão todos – da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia – sendo tocados por ele e contemplando sem intermediários o seu esplendor.

É por isso que Jesus insistia ser necessário que ele fosse, isto é, não permanecesse neste mundo fazendo no nosso lugar o que não éramos capazes de fazer; era por isso que ele assegurava que seus discípulos fariam maravilhas maiores do que as que ele havia feito. Era esta sua promessa, era este o seu plano. Não devemos olhar para o céu aguardando a volta de Cristo, porque o Pentecostes explica-nos sem rodeios que ele voltou imediatamente.

A volta de Cristo somos nós.

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