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A narrativa é límpida e impoluta; nem ainda a serpente será capaz de contaminá-la. Se o texto esquiva-se até o fim de usar os termos “tentação” e “pecado” é porque isso seria atribuir à proibição e seu conflito uma nuança moral que não estava originalmente lá.
Até este momento a interdição aparece na história como um conflito muito real, mas de modo algum um conflito ético.
De um lado, Deus diz “não coma esse fruto” do mesmo modo que um adulto diz a uma criança “olhe para os dois lados antes de atravessar a rua” e “não beba a garrafa que tem o rótulo da caveira”. Ou seja, equivale a dizer “se você não me der ouvidos, as consequências podem ser terríveis; nem mesmo eu posso garantir ser capaz de remediá-las”. Nada na sua postura ou no enunciado da proibição sugere que a morte seria mais do que consequência – terrível, porém de modo algum punitiva – da transgressão.
De seu lado Adão e Eva, enquanto contornam a árvore da morte, talvez sintam-se atraídos pelo seu brilho ou curiosos diante das suas promessas – mas a atração que os inflama e o conflito que os aperta nada tem de moral. Se comerem, Deus poderá acusá-los de terem feito algo estúpido, infantil ou irracional, mas não exatamente desonesto.
O conflito que impeliu até este momento a narrativa é puramente mecânico, o homem sozinho diante de um terrível interruptor. Paira sobre o protagonista o peso da responsabilidade e talvez o da calamidade iminente, mas não o dilema ético.
É a serpente que imprime à narrativa um fundamento moral.
Porém nesta esquina da história está a serpente, e é precisamente a intervenção da serpente, sua insinuante deliberação, que imprime à narrativa um fundamento moral. É a sugestão da serpente que transforma a formulação inequívoca da proibição numa questão de certo e errado.
Fique portanto muito claro: como fez com Adão e Eva, a serpente tentará tudo para nos convencer de que esse fundamento moral encontrava-se embutido no conflito original.
A admonição da própria narrativa, no entanto, é não acreditarmos em sugestão alguma da serpente. Pensar no que está acontecendo em termos de “tentação” e “pecado” é, precisamente, cair no seu engano.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


