É só quando me abaixo para entrar que percebo que as paredes, o teto e o piso do corredor estão inteiramente cobertos de figuras em baixo-relevo, imagens esculpidas diretamente na pedra e pintadas com técnica exuberante em impossíveis combinações de azuis, verdes e dourados. São quatro superfícies mas um só mural; as figuras individuais, coerentes por si mesmas, formam para quem olha desta extremidade uma única e filigranada rosa mística.
Ele entra logo atrás de mim, como se estivesse ansioso avaliar a minha reação, mas ao contrário de mim não precisa arquear a coluna para caminhar ali dentro.
Ele volta a cantarolar, mas não estou prestando atenção. Minhas mãos e pés descalços avançam devagar tateando uma multidão de peregrinos, animais míticos, monges, deuses de muitos braços e santos de todas as épocas, figuras que caminham em procissões helicoidais, cada rosto voltado para a extremidade oposta do corredor, onde, percebo agora, as paredes, o piso e o teto se dissolvem em cilindro, delineando uma porta que é um círculo perfeito.
No meio do corredor sento um momento para observar, as pernas dobradas e os punhos sobre os joelhos, e ele observa minha parada com satisfação.
– Aqui está Shiva – ele aponta. – E ali Ganesha, com cabeça de elefante. Aquele deve ser São Francisco de Assis.
– E Jesus. Um centauro, um menino de madeira e um gladiador. Aqui Maomé?
– Confúcio – ele corrige. Maomé está ali em cima.
E meia dúzia de Budas, em diversos estágios de magreza, todos gravados com artifício e pintados com uma obsessão de iluminura. O estilo dos relevos é econômico e familiar, mas não consigo fixá-lo a nenhum período da história da arte. Poderiam tanto ser pinturas do paleolítico quanto imagens numa história em quadrinhos. E não consigo, em especial, reconhecer mais do que uma mínima parte da multidão de entidades, animais, deuses e santos que caminham caverna adentro ao meu redor, por todos os lados. Há corvos eretos e homens com cabeça de chacal e mulheres aladas e demônios com feições humanas na barriga e nos joelhos; há homens com cabeça de cavalo e santos cravados de flechas e vitorianos barbudos e muçulmanas de rosto coberto e sacis e monges trajando laranja e sereias e sadhus; há sufis e vagões de ciganos e carros alegóricos e esqueletos-vivos e vikings e guerreiros masai e gigantes que carregam uma casa na cabeça; há heróis e cardeais e profetas e leprosos e crianças peludas e crucificados e prostitutas e iluminados e anjos e pássaros e cavaleiros e freiras e extraterrestres e papas e pastorinhas e uma mulher riscando o chão com uma varinha e cães.
– Que lugar é este? – arrisco, imóvel no exato centro do redemoinho.
– Não é ainda o lugar, isto; é um corredor. Uma passagem. Creio que seja esse o seu grande significado.
– E estão todos caminhando do retângulo da existência comum – refaço o trajeto dos peregrinos com a mão – ao círculo da eternidade.
– Simbolicamente, sim.
Estendo o braço e acaricio com a ponta dos dedos o rosto dourado de uma Madona.
– Você não está aqui – observo, achando alguma graça, enquanto refaço a varredura das figuras na parede. – Gandhi não está aqui.
– Evidente que não. Nem você.
– Não vejo nenhuma figura mais recente do que o século dezenove. Quem construiu esse lugar, afinal de contas?
– Gente, é claro. Deve parecer evidente que a principal atividade no paraíso não foi sempre o sexo livre e a freqüência a shopping centers.
Absolutamente não me agradam os shopping centers, mas nada tenho contra o sexo livre. Preferiria não vê-los tomados como equivalentes num mesmo argumento, mas decido ignorar por completo a provocação.
– Você nunca parou para se perguntar – ele prossegue, o queixo e as mãos apoiados enfaticamente na vara de caminhada – onde foram parar os antigos deuses e mestres, os grandes reis e heróis da Antiguidade? Onde estão Alexandre e Minos e Platão e Moisés e Enéas e Aristóteles e Davi e Hércules e Beowulf e Confúcio e o Filho do Homem e Sócrates e todos os Budas? Esta é a eternidade, não é? Esses velhos deuses deveriam estar entre nós, dando palestras e entrevistas, mas tudo que se vê na Capital Q e nas cidades do interior é gente nova, fihos do século vinte. Onde foram parar os antigos?
– Esta tem de ser uma pergunta retórica – respondo com algum mau humor, – porque todo mundo sabe para onde foram.
– Para onde?
– Ao esgotamento dos sentidos. Foram abatidos pela telopausa, o fastio da eternidade. Os que não partiram voluntariamente para o inferno recolheram-se para os recessos interiores do paraíso. Retiraram-se para os Cardeais Proibidos, onde vivem em completos isolamento e imobilidade. A não ser que você acredite nos Parques Temáticos, onde sobrevivem em inofensiva versão Disney.
– Sua resposta está essencialmente correta, meu amigo, mas não me satisfaz.
Levanto-me depressa e bato com força a cabeça no teto.
– Talvez – massageio a testa com a mão – por dizer respeito a uma pergunta que não me interessa.
– Ah, mas deveria. O passado nos afeta o tempo todo, mas sua influência sobre o presente é apenas maior quando ousamos ignorá-lo.
Cito, antes que ele resolva fazê-lo, o Paradoxo de Rousseau na Estremadura:
– A eternidade que é afetada pelo passado é uma eternidade falsa.
Ele empertiga a coluna.
– É mais ou menos isso. O Paraíso não é o que costumava ser, e os que escolhem ficar não podem se dar ao luxo de ignorá-lo.
A eternidade não é o que costumava ser. Essa conversa sobre os antigos deveria ter despertado imediatamente a minha memória por associação, mas é só quando ouço a articulação da frase que recordo ter ouvido antes a mesma argumentação. Os genealogistas estudam os antigos registros mas são todos obcecados pelo presente; a ocasião em que ouvi essa mesma sentença foi numa conversa fragmentária com a única pessoa obcecada pelo passado que conheci no paraíso: Sahid. Entre outras coisas, o homem que precedeu Gandhi no cargo que ele acaba de declinar.
– Meu amigo Sahid costumava pensar assim – coloco finalmente as cartas sobre a mesa, por entender que é o que ele está pedindo. – Antes de partir para o inferno.
– Conheci Sahid muito bem – ele não afasta dos meus os olhos inteiramente solenes. – E é naturalmente por pensar assim que ele partiu para o inferno.
– Eu soube que você tem uma mensagem dele para mim.
– Tenho sim uma mensagem para você – ele ergue do chão a vara de caminhada, sacudindo-a no ar como um juiz o seu martelo, – mas não é apenas dele.
E, passando por trás de mim no corredor estreito, avança em passos ligeiros até a abertura circular diante de nós, desaparecendo agilmente por ela. Cubro com alguma dificuldade a distância até a abertura, que mal dá passagem a um homem do meu tamanho; passo primeiro uma perna depois um braço e a cabeça, e mesmo antes de atravessar estou transtornado.
O homenzinho está de costas para mim, em pé e com os braços estendidos para cima. Atrás dele, vasta e com altíssimas paredes subterrâneas e corredores arcados que se perdem em todas as direções, iluminada por holofotes e lâmpadas de teto e persistindo em silêncio e riqueza perenes, uma biblioteca.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda


