05 de Março de 2008

A fraternidade das letras

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Em Bauru, quando chegamos à cidade em 1979, não havia uma livraria de verdade e a biblioteca pública, que não era pequena, tinha menos livros interessantes do que a minha, que era. Enquanto me demorava a fazer amigos, eu passava o tempo sentindo falta da Biblioteca Pública de Londrina e da Livraria Ghignone de Curitiba, ambas vastas e inacessíveis.

O último – e único – reduto para ratos de livro como eu eram as três ou quatro estantezinhas de livros da papelaria Tilibra, que era a maior da região mas dedicava a melhor parte das suas instalações a produtos de giro mais certo. Meu problema era que, mesmo diante de oferta literária tão módica, eu não sabia que livros escolher, e não tinha dinheiro para testá-los todos.

Aquele, pode ser necessário lembrar, era o minúsculo e inconcebível mundo pré-internet; não havia uma grande e unânime ferramenta para guiar-nos pela mão e refinar-nos as preferências individuais. Praticamente não havia, fora a iniciativa das editoras, quem me recomendasse um livro ou um autor; não havia, que eu soubesse, autores com o gosto não-convencional que eu ainda não sabia que tinha, muito menos um público que os apreciasse. E, caso houvesse, eu não tinha como saber.

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The Orange Tree, Philip Glass

O primeiro milagre foi efetuado pela Editora Francisco Alves na forma da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, que começou a ser publicada especialmente para mim em algum momento da década de 1980. Através da coleção MDHEDF conheci gente e histórias que nunca me abandonaram – volumes como A ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, A última esperança sobre a terra (Eu sou a lenda), de Richard Matheson e O enigma do trem perdido, uma antologia de contos de terror de Arthur Conan Doyle. Retirei-os solenemente da estante da Tilibra, um a um, levei-os para casa e rendi-me de imediato diante do seu charme.

Porém a coleção me reservava coisa ainda melhor, obras que alçariam minha expectativa literária a um patamar inimaginado – e falo de A assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson, e O país de outubro, de Ray Bradbury. Aqui estavam não apenas histórias que me fascinavam, mas literatura de primeira ordem, com que eu me deparava talvez pela primeira vez. A originalidade de tom, de estilo e de ênfase desses autores, nessas que são suas melhores obras, me assombrariam dali em diante.

Acontece que meu dinheiro era menor do que a oferta da coleção, que lançava dois ou três livros por ano. Eu não trabalhava, comia o que meu pai colocava na mesa, estudava de manhã e passava a tarde na máquina de escrever compondo exercícios literários que nunca cheguei a concluir. Quando a coleção MDHEDF ofereceu um livro que me decepcionou, Terror na Oktoberfest, de Frank de Felitta, percebi que a alegria não tinha como continuar, não na forma da festa contínua que eu vinha experimentando. Eu tinha de ser mais seletivo: resolvi só comprar um livro que me fosse recomendado por mais de uma fonte independente.

E a recomendação não demorou a vir: uma resenha de apenas uma coluna na revista VEJA mencionava um novo volume da coleção Mestres do Horror e da Fantasia (que eu percebesse, aquela era a primeira vez em que a revista mencionava a coleção) e um autor que eu não conhecia: H. P. Lovecraft. A nota prometia uma ampla e coerente mitologia original e uma nova estirpe de terror, epitomizada pelo “impronunciável, o inominável” – aquilo que não pode ser adequadamente descrito, ou que se fosse adequadamente descrito levaria à loucura. A obra era A casa das bruxas, e eu não tinha como ter recomendação mais eficaz.

Pronto. Nos quatro contos de puro horror que compunham A casa das bruxas (e nos seis de Um sussurro nas trevas, publicado na mesma coleção) encontrei uma imaginação poderosa colocada a serviço de um pessimismo irresistível, um narrador cuja firmeza de voz permanece me influenciando através das décadas. Lovecraft é um ensaísta erudito que conta histórias de monstro; para um diletante do gênero, eu havia encontrado a mais preciosa das pérolas. Eu estava fisgado; não podia conceber autor melhor do que Lovecraft.

Mas a imprensa interviu novamente, a imprensa que era o paliativo que tomávamos quando a cura da internet ainda não havia sido inventada. Uma matéria de uma página da Folha Ilustrada (o caderno interessante da Folha de São Paulo) quis me vender um outro autor infalível, um desconhecido argentino com nome de brasileiro: Jorge Luis Borges. Lembrei que havia, incrivelmente, um volume desse Borges aguardando numa das estantes da Tilibra, um livrinho surrado que ninguém parecia querer comprar e que chamava-se, simplesmente, Ficções.

Comprei o livrinho com base na indicação e esqueci automaticamente tudo que sabia. O universo, decidi, precisava ser inteiramente revisado. A história começava aqui. Eu me deparara com o escritor mais inventivo, mais obsessivo, mais original, menos original, mais generoso e mais convolutamente conciso do século XX. Nas cento e tantas páginas de Ficções havia mundos e universos e reviravoltas que não cabiam nem de longe em todos os volumes de todos os outros autores que eu havia lido ou chegaria a ler. Meu pai do céu, a vastidão do cara. Borges revisava a literatura da humanidade, denunciava os seus mecanismos e ao mesmo tempo a reinventava. Quando fechei o livro sabia que teria de renunciar a qualquer esperança de alcançar alguma glória na vocação literária; percebi ao mesmo tempo que não tinha como livrar-me dessa vocação. Borges, o imbatível, seduzira-me ao seu ofício e condenara-me ao terrível destino de não ser Borges.

Durmo hoje em dia abraçado aos três ou quatro volumes de suas Obras Completas, mas minha lua-de-mel com Borges está longe de terminar. Ensinou-me o argentino cego, dentre tantas contundências que eu gostaria de ter escrito, que “os livros são uma extensão da memória e da imaginação”. A primeira parte da sentença é convencional o bastante e eu teria como prever, mas não a segunda. Meu Deus, os livros como um extensão da imaginação. Como não percebi isso antes? Eu mesmo deveria ter percebido isso assim que abri a primeira página de Monteiro Lobato, de La Fontaine ou de H. G. Wells. Os livros, em sua distilação silenciosa, segregam o soro secreto que alonga o universo, faz desdobrar a consciência, catalisa as ebulições da invenção, estende os limites da própria criatividade. O cérebro é uma máquina maravilhosa, mas os livros aumentam magicamente a sua memória RAM.

Os bons autores indicam bons autores.

E foi lendo Borges, o Citador, que foi-me concedida outra epifania, que pretende explicar estas linhas. Os livros são uma extensão da memória e da imaginação, mas os bons livros tem um mérito adicional: os bons autores indicam outros bons autores, e essa cumplicidade das letras faz com que um tesouro acabe nos conduzindo ele mesmo ao próprio Palácio dos Tesouros. Por indicação de Borges alcancei em segurança as margens de literaturas virgens e visitei a cabana de desconcertantes pensadores e fertilíssimos contadores de histórias, autores que sem a intervenção redentora dele eu jamais chegaria a conhecer.

A lista é necessariamente incompleta, mas Borges levou-me a William James, a Emanuel Swedenborg, a Kafka, a Bernard Shaw, a Dante Alighieri, a Plotino, a William Beckford, a Edward Gibbon, a Miguel de Cervantes, a Farid ud-Din Attar, a Averróis, a Schopenhauer, a Berkeley, a G. K. Chesterton – gente sem os quais, desta margem do mar, a vida e a literatura me parecem empreendimento inconcebível e estéril.

Borges, o Mapeador, propõs e demonstrou a hipótese de que a literatura é uma rede sem fim de citações, um vasto e intrincado hipertexto sustentado por uma confraria de cúmplices que vivem separados por capas, séculos e contracapas. Nesta fraternidade valem menos abstrações como “autoria” ou “idéia original” do que o tráfego offline de fertilidades. Os autores são muitos, mas a Biblioteca é uma. A literatura é uma espécie de amizade, um presente que não cessa de presentear.

Basta estar pronto para ouvir. Lovecraft, para dar um exemplo que não seja a vertigem que é Borges, apresentou-me a Edgar Allan Poe, a Arthur Machen, a Algernon Blackwood, a Fritz Leiber – e, por vias tortas mas certeiras, – ao absolutamente notável Thomas Ligotti.

Uma história é uma genealogia.

Em “Formas de uma lenda“, Borges usa sua mágica para demonstrar que uma idéia é na verdade uma herança; uma história é na verdade uma genealogia. Porém o Mapeador e Citador é generoso, e não sonega as coordenadas a partir das quais vislumbrou sua constatação. “Tudo isso e muito mais”, explica ele, “achará o leitor no primeiro volume de Origenes de la novela de Menéndez y Pelayo”.

Apontado este destino, que venho contemplando há anos, comprei há duas semanas, de um sebo na internet, os três volumes de Origenes de la novela de Marcelino Menéndez Pelayo. Mal abri o primeiro volume, mas estou inteiramente desconcertado. Que posso dizer? Que Menéndez Pelayo é uma pré-encarnação de Borges? Que sua lucidez só se compara à sua erudição? Que sua erudição só se compara à sua generosidade? Não posso dizer nada.

Se Borges levou-me a Menéndez Pelayo, bastaram cinco ou seis páginas do seu texto principal para Menéndez Pelayo levar-me a Luciano de Samósata, e uma página desse autor do segundo século bastou para deixar-me sem fôlego. Nessas cinco páginas Menéndez Pelayo insistiu ainda que eu desse uma olhada em The History of Fiction, de John Colin Dunlop, que apenas folheei virtualmente e vejo que quer levar-me a outros destinos igualmente sedutores.

Estou fisgado, inteiramente e voluntariamente vencido, e a doçura é que a rede que me prende não tem fim. Borges estava certo: o Paraíso é um labirinto e uma biblioteca.



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