09 de Janeiro de 2008

A escassez seletiva: selecionar é interpretar

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença

É mais fácil estabelecer onde termina a interpretação de um texto da Bíblia do que determinar quando ela começa. Isto ocorre porque a interpretação termina perto de nós, na nossa própria mente, e começa muito longe de nós, na mente de um autor que já morreu há mil anos ou antes mesmo do nascimento dele.

Alguns asseveram que o registro de como os cristãos interpretaram a Bíblia ao longo da história – isto é, a tradição – pode trazer luz definitiva ao significado da Escritura. Outros afirmam que apenas a evidência interna, isto é, aquilo que o texto diz sobre si mesmo dentro do seu próprio contexto, pode guiar uma interpretação apropriada e isenta. O apego à tradição marca a diposição geral dos católicos e a valorização da evidência interna a postura dos protestantes, mas nem uns nem outros hesitam em avançar em campo alheio quando se trata de reforçar a sua opinião.

Recentemente muitos protestantes, numa manobra em grande parte silenciosa, passaram a reconhecer na prática a validade de um outro indicador na busca pela interpretação mais autorizada da Bíblia. É o que se poderia chamar de contexto expandido, e diz respeito ao que ciências como a história e a arqueologia têm a dizer sobre a sociedade e a cultura em que determinado texto foi produzido. Apesar desta novidade mais ou menos retórica, a posição protestante tradicional permanece sendo de que a evidência interna deve ser privilegiada, podendo ser por vezes iluminada pela evidência externa. Converse com um protestante e ele demonstrará o argumento dele (ou confrontará o seu) “a partir da Bíblia”. Oficialmente ele não reconhecerá outra autoridade ou, pelo menos, autoridade maior.

Essa obsessão protestante com ater-se “ao que diz a Bíblia”, estabelecendo como limites da interpretação a forma e o conteúdo de cada texto, pode ser meritória tanto quanto indolente; pode ser tanto elucidadora quanto enganosa. Entre outras coisas, esse método faz com que percamos de vista o quanto um texto nos revela pelo que não diz.

O que quero ter em mente é que a interpretação de um texto não começa quando um autor deita a pena sobre o papel para redigir. A interpretação começa antes, quando a partir de uma faixa de conteúdo disponível – o leque composto por tudo que poderia ser dito sobre determinado assunto ou ser relatado sobre determinado evento – o autor seleciona quais elementos em particular virão a compor o seu texto. Da mesma forma que o pontinho preto no centro da folha de papel é definido pelo espaço negativo que o rodeia, a interpretação de um texto é guiada (quer percebamos isso ou não) pelo espaço “em branco” deixado no registro: tudo que o autor poderia ter acrescentado à página e escolheu não fazer.

A seleção do material, empreendida pelo autor antes de começar a escrever, é inseparável da interpretação que ele quer imprimir à obra. Ou, dito de outra forma, toda seleção é tendenciosa.

Para usar o exemplo mais próximo, a Bacia das Almas – repositório final de idéias condenadas à reformulação eterna – é composta por uma seleção de textos escritos por mim e por outros autores. Deve estar claro que não deposito aqui tudo que escrevi nem (muito menos!) tudo que outros autores escreveram. A partir de uma vertiginosa gama de material disponível, armazenado nestas páginas está apenas o que selecionei para armazenar aqui, e esta seleção particular imprime (impõe talvez seja palavra melhor) a sua própria interpretação – mesmo quando cito determinado trecho ou determinado autor apenas para que o leitor discorde do que ele está dizendo.

A seleção do que será registrado favorece invariavelmente o programa ideológico de quem está escrevendo. A verdade de cada um, em meio à abundância de todos, é determinada pela escassez seletiva de quem está com a palavra.

Todo escritor é um selecionador, e os autores bíblicos trabalharam debaixo das mesmas limitações. A partir de uma faixa de conteúdo disponível cuja verdadeira extensão jamais chegaremos a conhecer, eles triaram de forma mais ou menos inconsciente o material que achavam poderia favorecer ou melhor expor a sua visão de mundo – e registraram apenas isso, em detrimento de todo o resto. Nenhuma passagem deixa esse método e seu propósito tão claro quanto os versos finais do evangelho de João. Sabe-se que João, a partir do que pode ter sido o mesmo leque de tradições disponíveis, optou por registrar conteúdo inteiramente distinto daquele selecionado pelos outros evangelistas – pelo que seu livro sua seleção imprime uma interpretação peculiar ao que deve ter consistido essencialmente a mesma história.

João reconhece abertamente, na sua conclusão, que seu livro consiste de uma seleção efetuada sobre material mais amplo. “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez”, explica ele. “Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.”

A seleção efetuada por João favorece, naturalmente, o seu programa ideológico. “Jesus operou em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro”, admite ele parágrafos antes; “estes, porém, foram escritos para que…” – e segue descrevendo o seu programa.

Desconsiderando-se a hipérbole de João (”nem no mundo inteiro caberiam os livros que contassem as coisas que Jesus fez”), talvez nenhum outro escritor do Novo Testamento tenha tido de lidar com mais conteúdo disponível do que o autor do livro de Atos dos Apóstolos. Uma enorme quantidade de testemunhos, anedotas e tradições sobre os primeiros passos da igreja deve ter circulado nas comunidades cristãs ao longo de suas primeiras décadas. Desse vasto leque de material o autor de Atos registrou uma seleção que (1) deveria guiar a interpretação que ele procurava despertar e (2) favorecia inevitavelmente o seu programa ideológico.

Para o autor de Atos, todos esses fatores (seleção, interpretação e programa) giravam ao redor de um único elemento dessas histórias: o Cristo ressurreto.

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Sobre o costume de agrupar livros



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