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A chave, obviamente, está em que antes de conhecer o peso do embaraço o homem conhece o peso da glória. Emoldurar as láureas do homem é o propósito secreto das enumerações de Gênesis 1. Não é para si mesmos nem para Deus, é para o homem que são levantados do nada peixes do mar, aves do céu, animais domésticos, seres rastejantes, ervas do campo e árvores frutíferas. A riqueza da terra existe para deixar claro além de qualquer dúvida o quanto o homem é rico.
De todos os emblemas da exuberância e da majestade conferida aos primeiros seres humanos, o maior e menos compreendido estará no fato de viverem nus – inteiramente, constantemente, sossegadamente nus. “Os dois estavam nus, o homem e sua mulher” observa o narrador logo antes de acenar com a infâmia da transgressão, “e não se envergonhavam”.
As tradições, especialmente a tradição cristã, apontam na nudez de Adão e Eva antes da queda um embaraço e uma prefiguração do pecado. Na interpretação tradicional é só depois de comerem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que os dois são capazes de reconhecer o terrível “mal” de estarem nus, e procuram então corrigi-lo devidamente1.
A narrativa, no entanto, não endossa nossa moralidade genital, outorgando à nudez um matiz particular de bem-aventurança. Deus viu que era tudo muito bom, e estava olhando para mais do que normalmente temos chance de olhar. A nudez do primeiro homem e da primeira mulher é inseparável da irrestrita honra de que desfrutavam num mundo que não havia sido ainda transtornado pelo conflito.
Não é o caso, portanto, que a queda torne a nudez uma coisa da qual seja necessário envergonhar-se, nem – muito menos – que a transgressão revele que a nudez seja algo inerentemente vergonhoso. O fato de andarem nus livremente, na presença uns dos outros e de Deus, é símbolo de toda a majestade humana (e portanto divina) que, em decorrência da queda, passará a ser um problema. Vendo-se nus, os olhos de Adão e Eva se abrirão para sua incapacidade de gerenciar sua própria abundância.
É, no fim das contas, para este ponto que a narrativa quer nos levar. A queda quer dizer que a exuberância e a glória terão de ser em alguma medida ocultadas, até o momento de uma reviravolta oportuna.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Intimamente associada a esta interpretação está a noção de que o pecado original do primeiro casal correspondeu à sua iniciação sexual. Antes da Queda, explica essa embaraçosa e influente tradição, o primeiro casal desfrutava de abstinência completa e beatífica, o que bastaria por si mesmo para demonstrar que o sexo é o pecado por excelência. Inteiramente transtornado pela contundência do “Frutificai, multiplicai-vos, e enchei a terra” de Gênesis 1, até mesmo Agostinho, o mais seminal dos inimigos cristãos da sexualidade, viu-se obrigado a admitir a possibilidade de Adão e Eva terem mantido relações sexuais e lícitas antes da Queda. Apenas, enfatiza ele, deveriam ter sido relações puramente mecânicas, inteiramente desprovidas de prazer. Teria sido pecaminoso extrair prazer de operação tão indigna. [↩]


