04 de Julho de 2008

A chave, obviamente

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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A chave, obviamente, está em que antes de conhecer o peso do embaraço o homem conhece o peso da glória. Emoldurar as láureas do homem é o propósito secreto das enumerações de Gênesis 1. Não é para si mesmos nem para Deus, é para o homem que são levantados do nada peixes do mar, aves do céu, animais domésticos, seres rastejantes, ervas do campo e árvores frutíferas. A riqueza da terra existe para deixar claro além de qualquer dúvida o quanto o homem é rico.

De todos os emblemas da exuberância e da majestade conferida aos primeiros seres humanos, o maior e menos compreendido estará no fato de viverem nus – inteiramente, constantemente, sossegadamente nus. “Os dois estavam nus, o homem e sua mulher” observa o narrador logo antes de acenar com a infâmia da transgressão, “e não se envergonhavam”.

As tradições, especialmente a tradição cristã, apontam na nudez de Adão e Eva antes da queda um embaraço e uma prefiguração do pecado. Na interpretação tradicional é só depois de comerem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que os dois são capazes de reconhecer o terrível “mal” de estarem nus, e procuram então corrigi-lo devidamente1.

A narrativa, no entanto, não endossa nossa moralidade genital, outorgando à nudez um matiz particular de bem-aventurança. Deus viu que era tudo muito bom, e estava olhando para mais do que normalmente temos chance de olhar. A nudez do primeiro homem e da primeira mulher é inseparável da irrestrita honra de que desfrutavam num mundo que não havia sido ainda transtornado pelo conflito.

Não é o caso, portanto, que a queda torne a nudez uma coisa da qual seja necessário envergonhar-se, nem – muito menos – que a transgressão revele que a nudez seja algo inerentemente vergonhoso. O fato de andarem nus livremente, na presença uns dos outros e de Deus, é símbolo de toda a majestade humana (e portanto divina) que, em decorrência da queda, passará a ser um problema. Vendo-se nus, os olhos de Adão e Eva se abrirão para sua incapacidade de gerenciar sua própria abundância.

É, no fim das contas, para este ponto que a narrativa quer nos levar. A queda quer dizer que a exuberância e a glória terão de ser em alguma medida ocultadas, até o momento de uma reviravolta oportuna.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

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NOTAS
  1. Intimamente associada a esta interpretação está a noção de que o pecado original do primeiro casal correspondeu à sua iniciação sexual. Antes da Queda, explica essa embaraçosa e influente tradição, o primeiro casal desfrutava de abstinência completa e beatífica, o que bastaria por si mesmo para demonstrar que o sexo é o pecado por excelência. Inteiramente transtornado pela contundência do “Frutificai, multiplicai-vos, e enchei a terra” de Gênesis 1, até mesmo Agostinho, o mais seminal dos inimigos cristãos da sexualidade, viu-se obrigado a admitir a possibilidade de Adão e Eva terem mantido relações sexuais e lícitas antes da Queda. Apenas, enfatiza ele, deveriam ter sido relações puramente mecânicas, inteiramente desprovidas de prazer. Teria sido pecaminoso extrair prazer de operação tão indigna. []


Inquisição


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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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