Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2008 de Nosso Senhor
25 de Dezembro de 2008

O dia mais banal

Goiabas Roubadas

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Ainda que você não me conheça e minha língua não entenda,
Quero hoje te escrever, porque este velho mundo está dilacerado
E ainda que nunca te tenha visto, sinto-me muito igual a você continue lendo >

24 de Dezembro de 2008

Qualquer um

Manuscritos

Outro dia o filho que não tenho, e que já é grandinho o bastante para fazer esse tipo de pergunta, perguntou-me, olhando para o mundo, se existe esperança.

Era época de Natal e ele queria que minha resposta o enchesse de inspiração e de bons sentimentos; uma resposta que o capacitasse a abraçar o futuro com olhos brilhantes e pés otimistas. Queria, em outras palavras, uma mensagem.

– Esta, meu filho, é uma resposta que palavras não podem dar – menti o menos que pude, e invoquei não sei de onde um sorriso.

Quando ele for mais velho direi que não, que não há qualquer esperança. Andaremos lado a lado por um caminho no meio da tarde e confessarei que não enxergo esperança no mundo, nas religiões e instituições e, ainda menos, em mim mesmo. Direi que as belas mensagens otimistas que os homens trocam em ocasiões solenes são distrações que não chegam nem de perto a alterar a dura malha da realidade. As pessoas não se tornarão mais generosas, menos mesquinhas e mais iluminadas, porque vivi quarenta anos e a cada dia me distancio mais, eu mesmo, desse ideal ilusório.

Ele me olhará nos olhos e, sem dizer nada, abrirá um meio sorriso, porque verá que, embora não exista esperança, embora eu esteja convicto de que não há, cultivo ainda assim alguma.

Se tudo der certo, com o passar dos anos ele aprenderá a guardar a esperança como eu: como quem tem vergonha de permanecer criança e continuar olhando com fascinação para a chama de uma vela que qualquer um pode apagar.

23 de Dezembro de 2008

Muito mais que três magos

Ilustração

Um beijo.

Para ler o livro, clique aqui.

20 de Dezembro de 2008

Jesus é um amigo meu

Fé e Crença

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

Quando vi este vídeo pela primeira vez tive certeza de que era uma paródia contemporânea, tendo em vista certas particularidades da letra. Minha fé na capacidade do cristianismo em se parodiar inadvertidamente deveria ter sido maior: o vídeo é legítimo, da década de 70, do grupo Sonseed/Semente do Filho, da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro no Brooklyn, Nova Iorque.

Estampado em toda a internet, mas aqui com subtítulos em português, para deleite e horror (haverá alguma diferença?) do impenitente leitor da Bacia.

Visite a Bacia para ver o vídeo

19 de Dezembro de 2008

Eva recua

Manuscritos

47

Eva recua e, explicando mais do que aprendeu, responde que os homens são livres para comer de todas as árvores do Éden, mas a árvore no terrível centro do jardim está interditada: seu fruto não devem comer nem tocar, caso contrário terão de morrer. Uma vez proferida, sua resposta é menos um recuo do que um avanço: sua explicação revela que Eva levantara insconscientemente uma regra adicional entre ela mesma e o fruto proibido, este elucidativo “não devemos tocar”. Dito de outra forma, a serpente ainda não dera início ao seu ministério, e o ser humano já imprimira seu próprio conflito ao conflito inicial provido por Deus; com isso a engrenagem da narrativa avançara mais um dente inexorável ou dois. A nova prescrição, que não consta da boca divina, revela que Eva, embora talvez não tivesse se sentido livre para considerar a possibilidade de comer, já havia se inquietado com a possibilidade de tocar.

Com isso um novo vento arrepia as folhas do Éden, porque a serpente, depois de invocar num golpe certeiro a presença de Deus, extrai do homem, em outro, uma terrível confissão.

Diante desta espantosa brecha, é o momento em que a serpente deve levantar-se e assumir o seu verdadeiro papel, o de Profeta Não-autorizado de terríveis verdades divinas.

– A Palavra do Senhor veio sobre mim – o vento crescente emoldura sua primeira revelação – e uma coisa posso garantir: vocês não vão morrer.

O restante da Bíblia existe para elucidar o mistério de se ela estava mentindo.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção