Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2008 de Nosso Senhor
21 de Novembro de 2008

Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente

Manuscritos

43

Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente, mas como nesta narrativa nada é o que parece, a serpente abre a boca não para morder, mas para falar. Não cessa de me surpreender que nesta história a picada fatal seja dada pela própria vítima, e não pelo seu antagonista. Os papéis são sensivelmente invertidos: serpentes falam, seres humanos mordem.

Em todas as histórias a mordida é símbolo inequívoco de transgressão, emblema de limites ultrapassados. Quando, no final do meu sonho, sou finalmente picado pela serpente da qual pensei ter protegido meu grupo, isso representa que na ânsia de protegê-los eu mesmo ultrapassei um terrível limite. Abrigado pelas minhas boas intenções, tornei-me um pouco aquilo que estava tentando a todo custo eliminar.

Neste ponto a serpente é livre para me picar, uma picada que é quase um beijo, porque aqui tornamo-nos a mesma pessoa.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
20 de Novembro de 2008

Papai Noel 2000

Jurássicas

Encontrei esta num longínquo CD do ano 2000. Talvez meu último Papai Noel do milênio passado.

19 de Novembro de 2008

A falta que o inverno faz

Pense comigo

Era outono na Itália setentrional e nas florestas, fora um pettirosso ou outro, não havia som ou movimento que não fosse o recatado som e movimento das plantas. Meu amigo naturalista explicou que ao longo do outono os insetos se recolhem e não voltam a dar as caras até a primavera. Para um brasiliano habituado a encontrar exuberância de vida mesmo em paisagens minimalistas como o cerrado, aquilo tinha um ar um tanto surreal de O Dia em Que a Terra Parou. Nenhuma borboleta, nenhum besouro, nenhuma abelha, nenhum caracol, nenhuma formiga. Nada.

As folhas caíam e os bichos calavam, e mesmo entre os seres humanos havia todos os sinais — no bafo dos caçadores de javali, nos rolos de feno sob a chuva, nos pastores de ovelhas descendo para terras mais baixas, na raposa que atravessou ligeira a estrada e fechou-se floresta adentro — de quem está se preparando para o inverno. A terra se preparava para prender a respiração, e o próximo fôlego só viria dali a três ou quatro meses. Meu amigo disse que o corpo sente uma mudança que é quase hormonal quando, depois da castidade do inverno, chega às narinas o primeiro pólen da primavera.

Uma civilização temperada é obrigada a encaixar no seu modo de vida esse espantoso momento em que o mundo natural encerra-se em jejum. É inevitável ponderar que preparar-se para o inverno é uma disciplina, como tantas, que desconhecemos por completo numa civilização tropical. Ela não apenas envolve um empreendedorismo calvinista de que só ouvimos falar em histórias como A Cigarra e a Formiga, mas exige um regime de rigorosa humildade na relação da gente com a terra.

A natureza das regiões temperadas é tão generosa quanto a nossa, mas periodicamente recolhe a mão; durante pelo menos dois meses a natureza recusa-se a ser explorada — e nas civilizações tropicais, em que temos duas, às vezes três colheitas ao ano, não sabemos o que é isso. Não conhecemos uma natureza que se recuse a ser explorada; desconhecemos um momento em que o mundo natural feche a sua despensa e exija respeito.

Também por essa razão, nosso modo padrão é encarar a natureza como recurso inesgotável; o mundo natural é para nós uma mãe que está continuamente provendo, uma amante que não recusa algum carinho mesmo depois da mais impensável violência. Para nós a natureza não merece periódico respeito, mas contínua exploração, ao ponto da mais completa descaracterização.

Nossa natureza não morre periodicamente, pelo que não temos que orar periodicamente pela sua ressurreição.

É evidente que vivemos no engano, e que nossas florestas morrem tão irremediavelmente quanto qualquer floresta temperada (por vezes mais irremediavelmente, como acontece com a floresta amazônica, seu solo ralinho e seu delicadíssimo equilíbrio ecológico). Nossa natureza não morre periodicamente, mas morre de uma vez só, pelo golpe da nossa própria mão e sem qualquer esperança de ressurreição.

Libertos do inverno, deixamos para trás uma porção da alma européia, uma porção que é cautelosa, austera, mística e respeitadora. Deixamos para trás a porção da alma que abraça árvores, porque o sentimento de viver num mundo sem fronteiras naturais — sem responsabilidades naturais — é eloquente e euforizante e aparentemente suficiente.

18 de Novembro de 2008

Na faixa

Ilustração

Estudo para as ilustrações de um manual de educação de trânsito.

17 de Novembro de 2008

Docemente esquecê-lo

Goiabas Roubadas

O projeto de esperar a outra vida me cansou, e resolvi abraçar esta. Gostar da simples existência, amar a vida e querê-la de todo jeito, mas do jeito em que se possa gozá-la melhor. [...] E comecei a achar um banho de chuva melhor do que a missa; a reunião inútil com meus amigos na praça, melhor do que a falsa utilidade da reunião de catequese; uma cerveja a sós, escutando Chico Buarque ou Mônica Salmaso ou João Sebastião Bach, me caíam bem mais em conta para um prazer do que a palestra que me havia sido incumbida proferir no ECC (sim, eu era o menino de ouro, o protegido prodígio da Diocese, porque aos 17 anos já ministrava cursos de teologia, e palestras doutrinárias em todo tipo de reunião). Entendi, desse modo, como era maior a tal da Teologia da Libertação, maior do que a paroquialização das CEB’s e do que a cooptação do discurso “libertador” por amplos setores das igrejas. Não era possível promover “justiça social”, lutar pela “democracia popular”, conquistar “direitos sociais”, enfim, não era possível mudar o mundo, se não se mudasse o criadouro de mundos que é a religião, ou melhor, a religiosidade. De nada adianta trocar os mandatários se nunca muda a relação que constitui por dentro o poder, e que baseia-se, obviamente, na “metafísica” subjacente a tudo.

Para ser como ele é preciso esquecê-lo.

[...] Ieshua era pra mim, de verdade, um Mestre nisso. Mas o problema é que não sabia a dosagem de seu esquecimento. Sabia que lembrar-se muito dele atrapalharia tudo, porque é preciso ser como ele e não para ele. E, para ser como ele, é preciso esquecê-lo, docemente esquecê-lo. Esquecê-lo é colocá-lo além da memória, é encarná-lo. Como as pernas e os braços que a gente tem e não se lembra, desde que não haja problemas com isso. Lembrá-lo traz sempre à tona aquelas ridículas desencarnações dele, as imagens de um modelo hollyoodiano loiro, sem força na fala, sem dramaticidade nos gestos, com uma falsa simplicidade, que denota mais os riquefifes de um nobre barroco do que o sorriso largo e companheiro de um artesão do interior.

O que, talvez, ele dissera, era verdade: ele estaria conosco, mas não da forma pessoalmente espiritual como quiseram as Instituições, mas da forma sublime que ele denominou de espírito santo – prefiro escrever com minúsculas, porque é menos hierárquico: isto é, fazendo-nos esquecer dele, para nos encontrarmos com a vida e com a sua realidade fantasiosa. Dando-nos, a qualquer um que o queira, o nosso espírito de volta, isto é, a carne com a saudade e a fantasia que ela traz.

Rondinelly Gomes Medeiros,
de seu posto no sertão paraibano, entre São Mamede e Patos,
em e-mail que mandou-me semana passada

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