Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2008 de Nosso Senhor
28 de Novembro de 2008

A hora é agora

Manuscritos

44

A hora é agora, e revelações terão de ser feitas – mesmo que seja mediante a serpente, o grande Interlocutor Transversal. A primeira coisa que ele faz é, naturalmente, trazer Deus para perto, invocando-o à sua maneira com a fórmula “Foi assim que Deus disse?”. Esta é a primeira vez que o nome de Deus será proferido em voz alta em toda a história da criação, em toda a história da Bíblia, e não é por acaso – nada é por acaso – que a primeira a pronunciá-lo seja, de todos os personagens que já estão em cena e da multidão que está para entrar, a boca da serpente.

A serpente não apenas quer envolver Deus no imbróglio; embora não saibamos ainda porquê a serpente faz o que faz, ela precisa deixar claro que está aqui por causa de Deus. Sem Deus, é sua advertência implícita, esta constrangedora conversa não seria necessária. Ao mencionar o Nome, ela intima – em termos inclusive judiciais – que Deus seja testemunha e cúmplice do que está para acontecer.

Mas não basta trazer Deus para perto, é preciso amarrá-lo à Queda. Sensatamente, a serpente não começa colocando em dúvida o que Deus disse, o que seria pouco sutil e provavelmente contraproducente. Sem colocar palavras na boca divina e sem dar motivo para que duvidemos da honestidade de suas próprias intenções, ela pergunta candidamente o que Deus não disse. “Foi assim que Deus disse, que vocês não podem comer de árvore alguma do jardim?” Porque, tipo, posso ter ouvido errado.

Ampliando dessa forma o universo da proibição, de uma para todas as árvores do jardim, o Interlocutor Transversal exige que a atenção do leitor (e de Eva) retorne inexoravelmente da praia da legitimidade para o grão de areia da transgressão.

Está feito: em duas frases a serpente amarrou Deus e transgressão. Tendo em vista o que a história realmente representa, ela não poderia ter sido menos sutil.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
27 de Novembro de 2008

Lápis de Carpinteiro

Jurássicas

Esta é antiga, da minha primavera com o Corel Painter. Era a ilustração de abertura do meu primeiro portfolio na internet, o falecido sáite Lápis de Carpinteiro – ainda em período pré-Brabo, em algum momento constrangedor da década de 1990. Devido a algum irrecuperável e esquecido pau no computador perdi a ilustração original; resta-me somente esta passável redução.

Como a internet não sabe lidar direito com a morte digital, ainda há referências ao sáite Lápis de Carpinteiro em alguns portais de busca, apontando para o hoje 404 Not Found endereço http://mais.sul.com.br/prpurim/index.html. Uma delas traz a descrição oficial: “Ilustrações exclusivas, clipart grátis, cartoons e design gráfico. Galeria online, encomendas e desenhos grátis para você. Paulo Roberto Purim, ilustrador”.

Desenhos grátis. Onde eu estava com a cabeça.

 

26 de Novembro de 2008

A verdadeira mensagem

Manuscritos

Então, no exato centro do redemoinho, Pedro levanta-se e faz algo belo e terrível e inteiramente prenhe de consequências: começa a falar.

Não sabemos porque é necessário que apenas um tome a palavra e ensaie um discurso quando todos já estavam “falando das grandezas de Deus”, mas a postura de Pedro (“pondo-se de pé e levantando a voz”, diante de uma multidão atenta e com as defesas baixas) passou a representar o modelo canônico de como Cristo deve ser efetivamente apresentado. O próprio Jesus não havia dito que mediante a concessão do Espírito os discípulos aprenderiam o ofício de “serem testemunhas”? Pelo que vemos aqui, “ser testemunha” nada mais é do que produzir um discurso – ou, como viria a ser chamado, um sermão – habilmente adequado à situação do momento. Todos que há um minuto falavam sinfonicamente, até mesmo os onze, são obrigados a calar para que a Voz seja ouvida em apenas um.

Um só pregador, uma só congregação, um só público de gente de fora carecendo de salvação: o Primeiro Momento do Espírito é também o arquétipo da Primeira Igreja.

Será essa uma interpretação justa deste momento e do que ele representa? De certa forma não temos a esta altura, depois de milênios dessa mesma leitura, como saber.

É claro que mesmo Jesus já havia discursado, e muitas vezes. Mas Jesus, dito grosseiramente, falava com mais parábolas e com menos esperança de angariar seguidores. Deve ser evidente também que o sermão de Pedro é mais misericordiosamente breve e mais contundente do que qualquer sermão dos nossos dias, mas talvez o que recebemos no livro de Atos seja uma versão estilizada, devidamente condensada – não apenas do que Pedro disse, mas do que aconteceu naquela ocasião.

Como o texto que chegou até nós exibe um grau indefinido de estilização, talvez o discurso centralizado de Pedro seja uma necessidade meramente narrativa; talvez seu conteúdo tenha sido transmitido cooperativamente, através de todos e a cada um. Mais importante será entender que, de certo modo, não faz diferença.

Como em todo o texto bíblico, de Gênesis a Apocalipse, a verdadeira mensagem e propósito deste momento não é nos ensinar como as coisas devem ser feitas, mas fornecer-nos um vislumbre do que representa que tenham acontecido como aconteceram. O livro de Atos é registro de terrível transformação, não de confortável permanência. Não é um Manual mas um Testemunho – e o livro inteiro é permeado pela tensão entre os que recusam-se a aprender a diferença e os que abraçam o impensável e o imponderável.

Importante aqui é que aparentemente Jesus havia sido calado pela cruz, definitivamente vencido pela vergonha da sua derrota, e não restava qualquer vestígio de vida na sua mensagem. O maluco havia sido silenciado e seus seguidores haviam demonstrado que não representavam ameaça; isto é, não estavam à altura dele.

Então há de repente um maluco – não, um bando de malucos – falando alto sobre a excelência da mensagem dele e sobre a grandeza encapsulada na sua vida e na sua morte. O discurso de Pedro é importante não porque nos ensine que devemos discursar, mas porque é a primeira vez desde a morte de Jesus em que alguém se levanta e fala em nome de Jesus.

É algo tremendamente ousado de se fazer e, veja, logo Pedro.

25 de Novembro de 2008

Magnificatus

Ilustração, Manuscritos

 

Não há gatos na Bíblia
Porque gatos são do mal

Há gatos na vida real
Porque somos do mal e precisamos de companhia

Há gatos no céu
Porque desta vida tudo se leva

* * *

 

24 de Novembro de 2008

A maldição da embriaguez

Goiabas Roubadas

NOÉ: A maldição da embriaguez

Noé perdeu a alcunha de “piedoso” quando começou a ocupar-se da sua vinha. Ele tornou-se um “homem da terra”, e essa primeira tentativa de produzir vinho gerou, ao mesmo tempo, o primeiro a beber em excesso, o primeiro a amaldiçoar seus familiares e o primeiro a instituir a escravidão.

Aconteceu assim: Noé encontrou a vinha que Adão trouxera consigo do Paraíso, por ocasião da sua expulsão. Noé experimentou as uvas, achou-as saborosas e resolveu plantar a vinha e cuidar dela.

No mesmo dia em que ele plantou a vinha ela deu fruto, e no mesmo dia ele colocou-a na prensa de lagar, extraiu o suco, bebeu, ficou bêbado e foi desonrado. Seu assistente no cultivo da vinha foi Satanás, que acontecia de estar passando por ali no exato momento em que ele plantava a muda que havia encontrado. Satanás lhe perguntou:

– O que você está plantando aqui?

– Um vinhedo.

– E quais são as qualidades do fruto que ele produz?

– Seu fruto é doce, quer no seco ou no úmido. Produz vinho, que alegra o coração do homem.

– Que me diz de sermos parceiros nessa empreitada de cultivar um vinhedo?

– Fechado!

Satanás então matou um cordeiro e em seguida, sucessivamente, um leão, um porco e um macaco. O sangue de cada um que ia sendo morto ele fez fluir sob a vinha. Dessa forma ele transmitiu a Noé as qualidades do vinho: antes de bebê-lo o homem é inocente como um cordeiro; se bebe moderadamente, sente-se forte como um leão; se bebe mais do que pode aguentar, fica parecendo um porco; e se bebe ao ponto da intoxicação, passa a comportar-se como um macaco, dançando, cantando e dizendo obscenidades, sem saber o que está fazendo.

Isso não deteve Noé, mas também não o deteve o exemplo de Adão, cuja queda foi ocasionada também devido ao vinho: o fruto proibido tinha sido a uva, com a qual ele se embebedara.

Em sua embriaquez Noé dirigiu-se para a tenda da sua esposa. Seu filho Cão viu-o ali, contou aos irmãos o que havia encontrado e disse:

– O primeiro homem teve apenas dois filhos, e um matou o outro; esse Noé tem três filhos, e deseja além desses gerar um quarto.

Não satisfeito com essas palavras desrespeitosas dirigidas contra o pai, a esse pecado de irreverência Cão acrescentou o ultraje ainda maior de tentar executar no pai uma operação cujo fim era impedir a procriação.

Quando despertou do seu vinho e ficou sóbrio, Noé proferiu uma maldição contra Cão na pessoa de seu filho mais novo, Canaã. O próprio Cão ele não tinha como prejudicar, visto que Deus conferira uma benção sobre Noé e seus três filhos quando haviam saído da arca. Por essa razão ele colocou a maldição sobre o último filho de seu filho, de modo a impedi-lo a gerar um filho mais novo do que os três que já tinha.

Os descendentes de Canaã têm olhos vermelhos, porque Cão viu a nudez de seu pai; têm lábios mal-formados, porque Cão usou os lábios para contar aos irmãos sobre a condição imprópria do pai; tem cabelo enrolado, porque Cão torceu o pescoço a fim de ver a nudez do pai; e andam nus, porque Cão não cobriu a nudez do pai. Dessa forma Noé foi vingado, pois é do caráter de Deus distribuir justiça medida por medida.

“Amem um aos outros”

Canaã teve de sofrer vicariamente pelo pecado do pai. Porém uma parte da punição lhe foi infligida por sua própria culpa, porque foi Canaã que chamou a atenção de Cão para a condição revoltante de Noé. Cão era, ao que parece, apenas o pai honesto desse filho terrível. No testamento com as últimas vontades de Canaã para seus filhos estava escrito: “Não digam a verdade; não fiquem longe do roubo; vivam dissolutamente; odeiem seu mestre com ódio mortal; amem uns aos outros”.

Da mesma forma que Cão teve de enfrentar punição pela sua irreverência, Sem e Jafé foram recompensados pelo modo filial e respeitoso com o qual tomaram um manto, colocaram-no sobre os ombros e, andando de costas e com os rostos virados para o outro lado, cobriram a nudez do pai. Nus foram os descendentes de Cão, egípcios e etíopes, levados em cativeiro e ao exílio pelo rei da Assíria, enquanto os assírios, descendentes de Sem, não tiveram sua nudez exposta nem mesmo quando o anjo do Senhor queimou-os em seu acampamento: suas roupas permaneceram intocadas sobre seus cadáveres. E, num tempo que ainda virá, quando Gogue sofrer sua derrota, Deus proverá vestes funerárias e local de sepultamento para ele e sua multidão de descendentes, posteridade de Jafé.

Embora tanto Sem quanto Jafé tenham se mostrado pestrativos e respeitosos, foi Sem a merecer a maior recompensa de louvor. Foi ele o primeiro a dispor-se a cobrir o pai; Jafé uniu-se a ele quando a boa ação já havia sido iniciada. Por essa razão os descendentes de Sem receberam, como recompensa especial, o talit, peça de roupa usada por eles, enquanto os descendentes de Jafé têm apenas a toga. Uma distinção adicional concedida a Sem foi a menção de seu nome em conexão com a benção de Noé. “Bendito seja o Senhor, Deus de Sem”, ele disse, embora como regra geral o nome de Deus não fosse associado ao nome de uma pessoa viva, mas apenas ao de alguém que já houvesse partido desta vida.

A relação entre Sem e Jafé foi expressa na oração que seu pai proferiu sobre eles: Deus concederia uma terra de belezas a Jafé, e seus filhos seriam convertidos que residiriam nas academias de Sem. Ao mesmo tempo Noé deixou claro por suas palavras que a Shekiná habitaria apenas o primeiro templo, erigido por Salomão, descendente de Sem, e não no segundo templo, cujo construtor seria Ciro, descendente de Jafé.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.