Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2008 de Nosso Senhor
24 de Outubro de 2008

É uma pista falsa

Manuscritos

41

É uma pista falsa, naturalmente, que Deus esteja ausente no momento da transgressão. A trama coloca Deus longe, para que saibamos que em termos dramáticos está perto – quer dizer, é do seu personagem que está sendo falado. Deus tem esse álibi formidável, não estava presente no momento em que tudo foi colocado a perder, mas num sentido muito profundo a função da narrativa é colocar de forma formidável esse álibi em dúvida.

Pela mesma razão, quando acusações forem trocadas daqui a alguns parágrafos, nenhum personagem estará geometricamente mais longe da culpa do que Deus. Para chegar-se da transgressão até Deus será preciso passar da sedução à serpente, da serpente a Eva, de Eva a Adão (aqui a culpa já começa a se dissipar) e, no estágio mais distante, de Adão até Deus.

Deus posta-se perplexo na extremidade mais isenta do drama, mas esta sua posição no palco é, literariamente falando, outra pista falsa.

Essa revelação explica em parte o enigma da serpente; fica claro que sua função mais genuína na trama é colocar uma distância maior, um estágio adicional, entre a transgressão e Deus. Esta sua função despistadora é compartilhada por Eva e, num certo sentido, por Adão.

Porque é evidente que ninguém está mais presente neste momento do que Deus. A própria narrativa não consegue gastar uma linha sem denunciá-lo. Não apenas a serpente “era o mais astuto de todos os animais do campo que o Senhor Deus havia feito”, como tudo o que a serpente tem a dizer, desde o primeiro momento, diz respeito à presença do Criador e aos possíveis furos no álibi divino. “Foi assim que Deus disse?”

E não é de estranhar que seja assim, porque esta é a história dele.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
23 de Outubro de 2008

O Natal não está chegando!

Ilustração

Mas nunca é cedo demais para desenhar ajudantes de Papai Noel.

22 de Outubro de 2008

O toque da língua

Fé e Crença, História

Não habitamos um país, habitamos um idioma.
Emil Cioran (a quem, Gustavo, eu nunca havia citado antes) em Aveux et anathèmes (1987)

 

Ao conquistar as duas faces opostas do mundo antigo, três séculos antes de Cristo, o Macedônio realizava sem o saber sua maior façanha: abolira formidavelmente a fronteira entre oriente e ocidente.

O perplexo mundo unificado passou a aguardar obedientemente sob os pés vitoriosos de Alexandre, e sob sua supervisão a cultura grega passou a ser injetada diretamente nas veias do império. Poucas gerações depois a língua grega se tornara idioma universal e indispensável, da Pérsia ao Egito e em qualquer região que se colocasse no seu caminho: o mundo se dobrava ao avanço irresistível da helenização (de hellenizein, palavra grega que quer dizer tanto “falar grego” quanto “viver como grego”).

Alexandre, que nunca esteve em Jerusalém e não se demorou na Judéia, acabou determinando dessa forma o espírito que viria a permear a porção final do Antigo Testamento e servir de pano de fundo para o seguinte.

Os judeus tinham vivido por séculos dentro de um universo cultural peculiar, isolado e muito bem amarrado, repleto de dispositivos internos contra a penetração de idéias estrangeiras. Graças a esses mecanismos de preservação a cultura judaica sobrevivera mais ou menos intacta à influência de babilônios e persas.

Porém a cultura grega tinha uma voz doce e articulada, e não demorou para que o sistema estanque do judaísmo começasse a fazer água. Com a passagem de não muitos anos havia duas facções muito distintas dentro do judaísmo, a dos ortodoxos (que rejeitavam e lutavam ativamente contra qualquer influência grega) e a dos helenizados (que afirmavam o valor do pensamento grego e sua compatibilidade com o judaísmo). Essa disputa acabaria estendendo-se cristianismo adentro.

A despeito dos esforços e do relativo sucesso dos ortodoxos, mesmo o judaísmo mais conservador acabou acolhendo em alguma medida a influência grega. O mundo conhecido se tornara helenista, e irresistivelmente helenista. A começar da capital Alexandria, mas não apenas ali, os judeus começaram a falar o grego no dia a dia, relegando o costumeiro aramaico ao segundo lugar e o hebraico a um distante terceiro.

E no pacote do idioma grego vinha encapsulada toda uma visão de mundo. Primeiro os judeus cederam e abraçaram o idioma, mas em seguida estavam adotando os costumes e o modo grego de pensar. Os velhos judeus começaram a ler os clássicos, os jovens começaram a lutar nus nos seus estádios.

Não demorou e o helenismo havia tocado o mais sacrossanto cerne da identidade judaica, sua religião e suas Escrituras. Essa influência pode ser entrevista na própria composição dos textos bíblicos, especialmente na terceira porção da Bíblia Hebraica (em hebraico Ketubim) – mas a coisa não parou aí. Não apenas as idéias gregas acabaram infiltrando-se no texto bíblico, mas (talvez mais importante) os métodos gregos de interpretação passaram a mudar o modo como a Bíblia era lida.

21 de Outubro de 2008

Papai fazendo o que gosta

Família, Jurássicas

Você tem sete anos e sua lição de casa é desenhar seu pai em duas situações: [1] fazendo o que gosta e [2] no trabalho. Como se vê, a tarefa pressupunha que é absolutamente improvável, talvez impossível, que [1] possa ser igual a [2]. A lição talvez fosse essa.

Reconheço na ilustração da esquerda nossa poltrona, nosso telefone, nosso rádio, a mesinha debaixo da qual ficava a lista telefônica e duas pás do nosso ventilador (um modelo similar, talvez idêntico, aparece no desenho da concessionário Igapó Veículos, onde meu pai trabalhava em Londrina). Um exemplar da falecida revista Visão aparece sobre um banquinho para fornecer alguma cor local.

Meu pai amava ler jornal (hoje o desenho o mostraria lendo via internet), mas nunca jamais estaria lendo, como aqui, a Folhinha, suplemento infantil da Folha [de Londrina?]. Fiz, já naquele tempo, por pura provocação.

Clique para ampliar, etc.

20 de Outubro de 2008

Acusações contra um culto invisível

Fé e Crença

Ninguém tenha seus próprios deuses, quer novos quer estranhos, além dos instituídos pelo Estado.
A ninguém se autoriza promover reuniões noturnas na cidade.

Lei das Doze Tábuas, 450 a.C, Cícero, Sobre as leis II.19

 

Então não deve ser considerado lamentável que homens de uma facção condenável, irregular e desesperada voltem sua ira contra os deuses? Que homens, arrebanhados dentre os menos qualificados da escória mais inferior, e mulheres crédulas (e pela inclinação do seu sexo, complacentes) formem uma súcia de profana conspiração?

Sua aliança consiste em reuniões noturnas marcadas por rituais solenes e folias inumanas, nas quais substituem os ritos sagrados por crimes inexpiáveis. São gente que esconde-se da luz e a evita; silenciosos em público, são tagarelas nos becos. Desprezam os templos como se fossem mausoléus, menosprezam os deuses e ridicularizam as coisas sagradas. Depreciam os nossos sacerdotes e desprezam os títulos de honra e os mantos púrpura dos altos governantes, embora eles mesmo mal tenham como cobrir a sua nudez.

Ah, mas que assombrosa insensatez e inacreditável audácia! Desdenham dos tormentos do presente, embora temam outros incertos e futuros. Embora temam morrer depois da morte, não temem morrer para o presente, e dessa forma uma esperança enganosa aplaca seus temores com o consolo de uma nova vida.

Ora, como coisas perversas propagam-se com maior facilidade, os abomináveis locais de reunião dessa ímpia assembléia estão multiplicando-se ao redor do mundo, devido à intensificação diária da imoralidade. Essa agremiação deve ser a todo custo erradicada e execrada.

Reconhecem uns aos outros através de símbolos e sinais. Amam uns aos outros antes de se conhecerem, por assim dizer. Praticam em todo lugar uma espécie de culto da luxúria, chamando-se promiscuamente de “irmão” e “irmã”. Desse modo, sob a proteção desses nomes consagrados, mera licenciosidade torna-se incesto, e assim vê-se que sua superstição vã e sem sentido orgulha-se de seus crimes.

Ouço que adoram a cabeça de um asno, a mais inferior das criaturas, consagrada por eles por não sei dizer qual tola persuasão, mas que deve provar-se religião digna e apropriada para tais condutas. Diz-se que adoram os orgãos genitais de seus pontífice e sacerdote, reverenciando nessa atitude o poder criativo de seu pai. Não sei se são verdadeiras essas acusações, mas por certo toda suspeita deve parecer aplicável com relação a ritos secretos e noturnos. Venerar um criminoso punido com extremo sofrimento por seus crimes, bem como a cruz na qual foi executado, é erigir altares que convém a miseráveis condenáveis e perversos, em que poderão adorar aquilo que merecem.

A história de como iniciam seus jovens noviços é tanto detestável quanto bem conhecida. Um bebê é colocado diante daquele que está para ser maculado por esses ritos, e é então assassinado pelo jovem discípulo. Avidamente — oh, o horror! — eles lambem o seu sangue; entusiasticamente repartem os seus membros. Através dessa vítima nasce seu elo comum; pela consciência dessa perversidade estão pactuados ao silêncio mútuo. Ritos sagrados dessa natureza são mais abomináveis do que quaisquer sacrilégios.

Sobre seus banquetes não é necessário estender-se, porque fala-se deles em todo lugar. Num dia de festa reúnem-se para um banquete, com todos as suas crianças, irmãs e mães, gente de todo sexo e de todas as idades. Ali, depois de muito festejo, quando seu ajuntamento vai se aquecendo e o fervor de sua luxúria incestuosa já foi estimulado pela bebedeira, um cachorro que foi amarrado ao candelabro é provocado e dessa forma extingue-se a luz que poderia incriminá-los. A escuridão encobre então sua sem-vergonhice, e abraços voluptuosos são trocados indiscriminadamente. Embora não sejam todos incestuosos de facto, em consciência todos o são, porque cada ato individual corresponde à vontade de todos.

Omito um grande número de acusações, porque as que mencionei já são mais do que suficientes; e todas essas, ou a maior parte delas, são verdadeiras, o que é deixado claro pela obscuridade de sua religião vil. De outro modo por que se esforçariam tanto para ocultar e encobrir aquilo que adoram, se não porque coisas honrosas sempre regozijam-se na publicidade, e crimes são mantidos em segredo?

Por que não têm altares, não têm templos, não têm images consagradas? Por que não falam jamais abertamente, jamais congregam-se livremente, se não pelo fato de que aquilo que adoram e escondem é digno de punição ou algo de que se deve envergonhar?

Além disso, de onde vem e quem é, ou onde está esse Deus único, solitário, desolado, que nenhum povo livre, nenhum reino e nem mesmo a superstição romana ouviram falar? A solitária e miserável nação dos judeus adorava um único Deus, e um Deus peculiar a ela mesma; mas adoravam-no abertamente, com templos, com altares, com vítimas e com cerimônias. E ele tinha tão pouca influência ou poder que foi escravizado, junto com sua nação particular, pelas divindades romanas.

Já os cristãos, que maravilhas, que monstruosidades inventam! Que aquele que é seu Deus, ao qual não podem nem mostrar nem contemplar, investiga diligentemente o caráter de todos, os atos de todos e, in fine, suas palavras e pensamentos secretos. Que ele percorre todos os lugares e em todo lugar está presente. Fazem dele alguém incômodo, inquieto e até mesmo despudoradamente inquisitivo, já que está presente diante de tudo que é feito e entra e sai de todos os lugares — embora, estando ocupado com o todo, não é capaz de dar atenção a particulares, nem pode ser suficiente para o todo enquanto está ocupado com particulares.

Minucius Felix (160?-300?), apologista cristão, recapitula as acusações dos pagãos em seu Octavius.

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