Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2008 de Nosso Senhor
31 de Outubro de 2008

Não se trata

Pormenor

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Não se trata, é preciso enfatizar, de dar um passo voluntário ou definitivo para longe do grupo. O processo de individuação não equivale a uma busca bem-sucedida por isolamento ou, até mesmo, por singularidade. A coisa toda diz respeito apenas tangencialmente ao grupo; tem tudo a ver com o indivíduo.

E, já na origem da palavra, indivíduo não quer dizer “isolado”, mas indiviso, uno – alguém que não está dividido.

Carl Jung, que concedeu-nos o vocabulário e a mitologia da individuação, explicava que no caminho da vida acabamos perdendo contato com partes importantes, verdadeiramente fundamentais, de nós mesmos. Emergimos da infância e da adolescência perplexos e desmemoriados como náufragos – seres fraturados, incapazes de conciliar as porções individuais de nós mesmos, sobre as quais não nos resta muitas vezes a consciência de que estão lá.

Perdemos nessa jornada secreta (da qual pouco lembramos a não ser em sonhos) nossa unidade essencial, nossa integridade, nossa indivisibilidade – aquilo que nos torna in-divíduos. Somos o herói sem memória dos filmes e contos de fada, que precisa juntar as peças do seu quebra-cabeças a fim de recuperar a integridade.

O objetivo da vida (o objetivo do herói) é a individuação: o processo de conhecer, expressar e harmonizar os diferentes componentes da psiquê.

Não se trata meramente de alcançar o autoconhecimento mas de, diante desse conhecimento, tornar-se um.

30 de Outubro de 2008

O maravilhoso mundo do conhecimento

Pormenor

29 de Outubro de 2008

Superfície

Manuscritos

– Quantas vezes vou ter de repetir – disse a voz, mas o Homem Imenso já resvalava para o interior do sono ao sabor dos laivos turquesa da consciência e sabia que não lembraria as instruções.

No mundo dos sonhos lutou contra a correnteza o quanto pôde, mas não avançou mais do que um dia ou dois no contratempo. Viu uma tarde incandescente e vermelha e uma menina azul, de vestido, que servia chá de faz-de-conta em xícaras de brinquedo a um homem imenso e nu, mas ignorou que o homem era ele mesmo.

Quando tentou voltar à superfície impediu-o a vigilância tremente da cauda de um dragão. Agarrou-se o quanto pode, mas no fim da noite, que era também o fim das suas forças, despencou para a superfície de uma esfera transparente que era um lago congelado, sobre o qual deslizou sem inércia, e um planeta de cuja órbita não saberia escapar.

Um minuto antes de acordar entendeu, por um instante, que a cauda do dragão era um seu cílio, e o lago congelado uma sua lágrima.

28 de Outubro de 2008

Nenhuma novidade

Ilustração

27 de Outubro de 2008

O horror ou o absurdo de existir

Goiabas Roubadas

O êxtase do estado dionisíaco, com sua destruição das cadeias e limites costumeiros da existência, contém, naturalmente, durante todo o período em que dura, um elemento letárgico no qual permanece submerso tudo que a pessoa já experimentou pessoalmente no passado. Devido a esse vórtice de esquecimento, o mundo da realidade cotidiana e o mundo da realidade dionisíaca separam-se um do outro.

Porém tão logo a realidade cotidiana retorna à consciência, a pessoa a percebe como algo repulsivo. O resultado desse estado é a condição ascética, na qual a pessoa nega o poder da vontade. Neste sentido o homem dionisíaco tem similaridades com Hamlet: ambos tiveram um vislumbre da natureza essencial das coisas. Ambos passaram a compreender e têm agora aversão a agir, pois sua ação não será capaz de mudar coisa alguma na natureza eterna das coisas. Percebem como rídiculo ou humilhante o fato de que espera-se deles que coloquem em ordem um mundo que está fora dos eixos. O conhecimento neutraliza a ação, pois a ação requer um estado de consciência em que estejamos cobertos pelo véu da ilusão. É isso o que Hamlet tem a nos ensinar, não aquela sabedoria inteiramente mercenária sobre o sonhador que é incapaz de sair do lugar devido a um excesso de reflexão – devido a um excesso de possibilidades, por assim dizer.

De modo algum; é o verdadeiro conhecimento, o vislumbre da cruel verdade, que vence cada motivo que poderia impeli-los a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionisíaco. Agora nenhum consolo tem mais efeito. Ele passa a ansiar por algo além do mundo, algo além dos próprios deuses, na direção da morte. A existência é negada, juntamente com seu fulgurante reflexo sobre os deuses e sobre uma vida futura de imortalidade. Na consciência de ter vislumbrado uma vez a verdade, o homem vê em todo lugar apenas o horror ou o absurdo de existir; ele agora compreende o simbolismo do destino de Ofélia; ele agora reconhece a sabedoria de Silenus, o deus da floresta. E causa-lhe aversão.

Neste ponto, quando a vontade está sob o mais grave perigo, entra a arte, na qualidade de mágica salvadora e curativa. Somente a arte é capaz de transformar esses pensamentos de repulsa diante do horror ou do absurdo da existência em conceitos imaginários que permitem que a vida continue.

Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia (1872)