Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2008 de Nosso Senhor
19 de Setembro de 2008

O silêncio da história

Manuscritos

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O silêncio da história sobre os motivos da serpente mostrou-se um tremendo embaraço para os que se propuseram a interpretar a narrativa da queda ao longo dos milênios. Praticamente nenhum intérprete resistiu à tentação de preencher com sua própria teoria a lacuna deixada pelo texto.

Segundo uma tradição judaica, o que motivou a serpente a precipitar a queda foi sua inveja das capacidades do ser humano, que em muitos sentidos equiparavam-se às suas. Outra interpretação sugere que a serpente foi ela mesmo enganada ou possuída por um anjo caído, Satanás (cuja queda e cujos motivos precisam portanto ser explicados em outro lugar).

A maior parte dos cristãos, seguindo uma sugestão lançada pelo próprio Jesus, passou a identificar a serpente com o próprio Satanás – a despeito do fato de a narrativa explicar, de forma um tanto desconcertante, que se tratava de um animal como qualquer outro.

Na interpretação de muitas seitas gnósticas, a serpente é o secreto e incompreendido herói da história. Sua boa intenção era salvar Adão e Eva do cativeiro de um deus menor e perverso, cujo plano era mantê-los para sempre longe da verdade, incapazes de reconhecerem a chama da sua própria divindade.

Muito menos ambiciosa e talvez menos ambígua, tudo que a narrativa tem a dizer sobre a serpente é que ela era “o mais astuto de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito”.

Deus não tem um álibi, ou aparentemente não requer um.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
18 de Setembro de 2008

Sacola educativa

Ilustração

Uma sacola da Perkons com um desenho meu, para lembrar que o menino e a menina devem andar pela rua de mãos dadas com adulto.

17 de Setembro de 2008

A invenção do futuro

Manuscritos

A experiência do exílio não produziu apenas uma nova idéia de Deus; promoveu o surgimento de uma nova idéia de futuro e do desenrolar da história.

Anteriormente Jerusalém era vista como habitação perene e invulnerável da glória divina; sua queda exigiu uma inusitada reavaliação dessa crença. De que forma conciliar a promessa da linhagem perpétua de Davi com a imagem de Jerusalém em chamas? Como harmonizar a promessa do glorioso destino de Israel com os infortúnios e embaraços do cativeiro? Como interpretar o esplendor da promessa diante do escândalo do exílio?

Pressionados ou aclarados pelas contradições dessa nova condição, os profetas começaram a visualizar e anunciar um momento de restauração futura. A presente condição podia parecer sem esperança, apregoavam eles, mas haveria um momento do futuro em que Deus recuperaria a glória da nação e restabeleceria o trono de Davi.

Nesse futuro iminente Jerusalém seria restaurada, e a nação seria guiada no caminho da sabedoria e da devoção por um líder justo e destemido da descendência de Davi. Todas as tribos retornariam à terra prometida, abandonando para sempre a rebelião e a idolatria; haveria paz e prosperidade, e as nações pagãs se dobrariam finalmente diante do Senhor, trazendo suas riquezas e deixando-as como contrito tributo aos pés de Jerusalém.

No horizonte além das chamas, prometiam os profetas, aguarda com sua espada invencível e um cetro de conciliação um formidável messias. Bastava estender os olhos para pressenti-lo, avançando do futuro em nossa direção.

“Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e procederá sabiamente, executando o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro…” (Jeremias 23:5,6)

Na mais profunda agrura do exílio, portanto, os profetas produziram a luz da esperança messiânica. Deus não se esqueceu de nós, garantia ela; um rei virá para nos salvar.

A crença na vinda do messias acabou abrindo espaço para outra, com a qual acabaria se confundindo. Pois alguns escritos dos profetas não prometiam apenas uma restauração nacional ocorrida dentro do âmbito da história; anunciavam o encerramento da própria história, acompanhado de uma radical transformação da ordem natural das coisas – uma esperança escatológica, isto é, que dizia respeito e pressupunha um definitivo fim dos tempos.

“Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; e o bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; e o leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e a desmamada meterá a sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte; porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:6-9)

“E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Isaías 2:4)

Este universo renovado é anunciado como “um novo céu e uma nova terra”, em que todos viveriam em paz perpetuamente e no âmbito dos quais a própria morte seria aniquilada para sempre (Isaías 25:7,8).

Embora estejam assentadas sobre bases distintas, tanto a promessa messiânica quanto a esperança escatológica explicavam que os justos podiam esperar uma salvação a ser experimentada ainda nesta terra. Não existia, para uma ou para outra, o conceito de uma salvação que não fosse terrena. Animais, seres humanos e o próprio messias experimentariam a paz e a prosperidade na terra (embora seja “nova” ou “renovada”, é ainda a terra) e não no céu.

Na verdade, a promessa escatológica não anunciava que os homens subiriam para uma vida eterna no céu, mas que o próprio Deus desceria à terra para reinar eternamente ao lado dos homens (Zacarias 14:4-9, Ezequiel 43:6-7).

É uma diferença importante, que os desdobramentos posteriores relegariam a um segundo plano.

16 de Setembro de 2008

Saúde

Ilustração

15 de Setembro de 2008

O dilúvio

Goiabas Roubadas

NOÉ: O dilúvio

Recolher os animais para dentro da arca foi a parte mais fácil da tarefa imposta sobre Noé. Seu maior desafio foi prover-lhes acomodações e comida para um ano.

Muitos anos mais tarde Sem, filho de Noé, relatou a Eliezer, servo de Abraão, a história das suas experiências com os animais dentro da arca. Eis o que ele disse:

– Tivemos enormes dificuldades na arca.  Os animais diurnos tinham de ser alimentados de dia, e os animais noturnos de noite. Meu pai não sabia que comida dar à pequena zikta. Um dia ele cortou uma romã ao meio e da fruta caiu um verme, que foi imediatamente devorado pela zikta. Dali em diante meu pai moía farelo e deixava até que criasse vermes, que ele usava para alimentar o animal. O leão teve febre o tempo todo, e dessa forma não incomodou os ouros, porque não gostava de comida seca. O animal urshana meu pai encontrou dormindo num canto da embarcação, e perguntou se ele precisava de alguma coisa para comer. Sua resposta foi: “Vi que o senhor estava muito ocupado e não quis incomodar”. Ao que meu pai disse: “Seja da vontade do Senhor abençoá-lo com a vida eterna”, e sua benção se tornou realidade.

As dificuldades aumentaram quando o dilúvio começou a jogar a arca de um lado para o outro. Todos dentro dela eram sacudidos como lentilhas numa panela. Os leões começaram a urrar, os bois mugiam, os lobos uivavam, e todos os animais deram vazâo à sua agonia, cada um com o som que era capaz de produzir.

Também Noé e seus filhos, achando que a morte estava próxima, romperam em lágrimas. Noé orou a Deus:

– Ó, Senhor, ajude-nos, pois não podemos suportar o mal que nos assedia. As ondas erguem-se ao nosso redor, as torrentes da destruição nos aterrorizam e morte olha-nos de frente. Ah, ouça a nossa oração, liberte-nos; incline-se na nossa direção e seja compassivo para conosco. Resgate-nos e salve-nos!

O dilúvio foi produzido pela união das águas masculinas, que estão acima do firmamento, e das águas femininas, que brotam da terra. As águas superiores precipitaram-se no espaço quando Deus removeu duas estrelas da constelação das Plêiades. Depois disso, a fim de parar o dilúvio, Deus teve de transferir duas estrelas da constelação da Ursa para a constelação das Plêiades. É por isso que a Ursa corre atrás das Plêiades; ela quer seus filhos de volta, mas eles lhe serão restaurados apenas no mundo futuro.

Durante o ano do dilúvio houve mudanças nas esferas celestiais. Enquanto o dilúvio durou o sol e a lua não produziram luz, razão pela qual Noé recebeu seu nome, “O do descanso”, pois em seu período de vida o sol e a lua descansaram. A arca era iluminada por uma pedra preciosa, cuja luz era mais intensa durante a noite do que durante o dia, possibilitando assim que Noé distinguisse o dia da noite.

O dilúvio durou um ano inteiro. Começou no décimo-sétimo dia de Chesvan, e a chuva estendeu-se por quarenta dias, até o vigésimo-sétimo dia de Kislev. Essa punição correspondeu ao crime daquela geração pecaminosa. Eles levavam vidas imorais e geraram filhos bastardos, cujo estágio embrionário dura quarenta dias.

Do dia 27 de Kislev até o primeiro de Sivan, um período de cento e cinqüenta dias, a água permaneceu com a mesma profundidade, quinze varas acima do solo. Durante esse período todos os perversos foram destruídos, cada homem recebendo a punição que merecia. Caim estava entre os que pereceram, e assim a morte de Abel foi vingada. Tão poderosa foram as águas em sua destruição que o corpo do próprio Adão não foi poupado em seu túmulo.

Em primeiro de Sivan as águas começaram a declinar, um quarto de vara por dia, e ao fim de sessenta dias, no dia dez de Av, o topo das montanhas ficou visível. Muitos dias antes, no dia dez de Tamuz, Noé havia soltado um corvo, e uma semana depois uma pomba, na primeira de suas três saídas, que foram repetidas em intervalos de uma semana.

Demorou do primeiro dia de Av até o primeiro dia de Tishrei para que a água desaparecesse por completo da face da terra. Porém o solo permaneceu tão lamacento que os ocupantes da arca tiveram de permanecer dentro dela até o dia vinte e sete de Chesvan, completando assim um ano solar, que consiste de doze luas e onze dias.

Noé havia experimentado todo tipo de dificuldade para determinar o estado da água. Quando decidiu enviar um corvo, este disse a ele:

– O Senhor, seu mestre, me odeia, e você também me odeia. Seu mestre me odeia porque, embora tenha mandado que entrassem na arca sete pares de animais puros, mandou que entrassem apenas dois pares de animais impuros, grupo ao qual pertenço. Você me odeia, porque não escolheu como mensageiro um dos pássaros dos quais há sete pares na arca, mas escolheu a mim, e da minha espécie só há um par. Ora, suponha que eu morra de calor ou de frio: o mundo não ficaria privado de uma espécie inteira de animais? Ou não será o caso que você tenha lançado um olhar lascivo sobre minha companheira, e quer agora livrar-se de mim?

Diante do que Noé respondeu:

– Infeliz! Sou obrigado a viver separado da minha própria esposa na arca. Quanto menos me ocorreria o tipo de pensamento dos quais você me acusa!

A saída do corvo não teve sucesso, porque assim que viu o cadáver de um homem ele passou a devorá-lo, e não obedeceu às ordens dadas a ele por Noé. Por essa razão foi enviada uma pomba.

Perto do entardecer a pomba voltou com uma folha de oliveira no bico, tirada do monte das Oliveiras em Jerusalém, pois a Terra Santa não havia sido devastada pelo dilúvio. Ao colhê-la, a pomba disse a Deus:

– Ah, Senhor do Mundo, prefiro que meu sustento se mostre amargo como a oliveira, desde que me seja dado pela sua mão, do que, sendo doce, eu seja entregue nas mãos dos homens.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.