Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2008 de Nosso Senhor
30 de Agosto de 2008

Árvore / Aquarela

Ilustração

29 de Agosto de 2008

A narrativa é límpida

Manuscritos

33

A narrativa é límpida e impoluta; nem ainda a serpente será capaz de contaminá-la. Se o texto esquiva-se até o fim de usar os termos “tentação” e “pecado” é porque isso seria atribuir à proibição e seu conflito uma nuança moral que não estava originalmente lá.

Até este momento a interdição aparece na história como um conflito muito real, mas de modo algum um conflito ético.

De um lado, Deus diz “não coma esse fruto” do mesmo modo que um adulto diz a uma criança “olhe para os dois lados antes de atravessar a rua” e “não beba a garrafa que tem o rótulo da caveira”. Ou seja, equivale a dizer “se você não me der ouvidos, as consequências podem ser terríveis; nem mesmo eu posso garantir ser capaz de remediá-las”. Nada na sua postura ou no enunciado da proibição sugere que a morte seria mais do que consequência – terrível, porém de modo algum punitiva – da transgressão.

De seu lado Adão e Eva, enquanto contornam a árvore da morte, talvez sintam-se atraídos pelo seu brilho ou curiosos diante das suas promessas – mas a atração que os inflama e o conflito que os aperta nada tem de moral. Se comerem, Deus poderá acusá-los de terem feito algo estúpido, infantil ou irracional, mas não exatamente desonesto.

O conflito que impeliu até este momento a narrativa é puramente mecânico, o homem sozinho diante de um terrível interruptor. Paira sobre o protagonista o peso da responsabilidade e talvez o da calamidade iminente, mas não o dilema ético.

É a serpente que imprime à narrativa um fundamento moral.

Porém nesta esquina da história está a serpente, e é precisamente a intervenção da serpente, sua insinuante deliberação, que imprime à narrativa um fundamento moral. É a sugestão da serpente que transforma a formulação inequívoca da proibição numa questão de certo e errado.

Fique portanto muito claro: como fez com Adão e Eva, a serpente tentará tudo para nos convencer de que esse fundamento moral encontrava-se embutido no conflito original.

A admonição da própria narrativa, no entanto, é não acreditarmos em sugestão alguma da serpente. Pensar no que está acontecendo em termos de “tentação” e “pecado” é, precisamente, cair no seu engano.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
28 de Agosto de 2008

Guerra contra o tráfego [4]

Irmãos Comédia

27 de Agosto de 2008

São poucos os que ENTER

Manuscritos

Metade dos cristãos digita os seus próprios comandos e pressiona a tecla Enter de Deus, na esperança de que Deus comece a fazer magicamente o que eles querem. A outra metade digita os comandos de Deus e aperta a sua própria tecla Enter, na esperança de começarem a fazer magicamente o que Deus quer.

A boa nova, a assustadora boa nova, é que Deus quer programadores, não usuários.

Ele espera que digitemos os nossos próprios comandos e apertemos a nossa própria tecla Enter e ainda assim – com toda a responsabilidade, todo o risco e mágica nenhuma – produzamos um mundo que promova a graça (ou seja, a beleza, o cavalheirismo e a criatividade) e honre a herança do seu idealizador.

* * *

Leia também:
Além da submissão
Nós, protestantes

26 de Agosto de 2008

Contra a paz, pelas ordens da criação

Goiabas Roubadas, História

Na Alemanha nazista dos meses que antecedaram a guerra muitos cristãos criam que a igreja era uma realidade que ultrapassava fronteiras e limitações locais; para esses, fazia todo sentido ouvir e discutir os apelos pela paz que chegavam à Alemanha das igrejas de todos os cantos do globo.

Para os ultranacionalistas cristãos nazistas, no entanto, só havia sentido em falar numa igreja Nacional. A Pátria era para eles uma das inescapáveis ordens da criação, uma vocação ou propensão estabelecida no princípio por Deus e que não cabe a homem algum questionar. A igreja mantinha-se assim livre para afastar-se o quanto achasse necessário do evangelho (como de fato acabou acontecendo), desde que se mantivesse fiel à baliza das ordens da criação. Rejeitá-las (em nome, talvez, da compaixão) é que lhes parecia blasfemo.

* * *

Em 4 de abril de 1939 [...] o periódico oficial da Igreja Evangélica Alemã publicou a Declaração Godesberg, assinada pelo Dr. [Friedrich] Werner. Ela em parte dizia:

[O Nacional Socialismo dá prosseguimento] à obra de Martinho Lutero em seus aspectos ideológicos e políticos, bem como em seu aspecto religioso, na recuperação de uma verdadeira compreensão da fé cristã… A fé cristã é o oposto irreconciliável do judaísmo… Uma estrutura eclesiástica supranacional e internacional nos moldes católico-romano ou protestante representa uma degeneração política da fé cristã. Um desenvolvimento proveitoso da genuína fé cristã é possível apenas dentro das dadas ordens da criação.

Eberhard Bethge, em sua biografia de Bonhoeffer (grifo meu)

Leia também:
A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação
A solução final de Lutero
Lutero alerta os alemães