Manuscritos estocados em Julho do Anno 2008 de Nosso Senhor
31 de Julho de 2008

A chegada dos magos

Ilustração

30 de Julho de 2008

Fulcro

Manuscritos

Ele espera que eu não faça nada, mas seu poder não se compara ao meu, porque é meu.

Abro o volume imediatamente e ele se reparte com facilidade no meio. No fulcro entre duas páginas que não saberei ler, dobrada uma única vez sobre si mesma, ergue-se debilmente uma folha timbrada dos blocos de notas do Conselho – idêntica em tudo às que aguardam solenemente sobre minha mesa na sala vazia do Bureau (onde estará o Cirurgião que não atende o celular), mas ostentando num dos lados meu próprio nome escrito nas maiúsculas de Sahid.

Aqui está, então, ao alcance da mão, o bilhete que Sahid deixou sobre a sua mesa, e não a minha, antes de ir para o inferno; que Cortiano encontrou e entregou à polícia antes que ele mesmo pudesse ler; que os brutamontes do Ermitão interceptaram na Avenida Radial e cujo conteúdo pode de alguma forma ter levado Cyril Crepsi à estremadura voluntária; que por alguma mão secreta acabou chegando ao Mahatma e sua biblioteca subterrânea e seu Oe eo circular. A mensagem que, sendo endereçada a mim, todos no vasto mundo leram antes de mim.

Ao homenzinho que está assistindo só consigo dizer:

– Preciso saber por que querem me matar.

– Você deseja uma reviravolta para redimir a sua história – ele responde, – mas só um escândalo pode fazer isso. A morte é escândalo suficiente; você não precisa do bilhete de Sahid para isso.

Mas o bilhete já está aberto entre meus dedos.

– Está em sânscrito – anuncio, olhando com algum rancor para o homenzinho.

– Só a porção central – ele corrige. – Estes sinais ao redor não sei o que querem dizer.

De fato, nas bordas do papel Sahid desenhou uma malha fechada de pontos e arcos de círculo que assemelham-se mais a um código ou faixa ornamental do que a escrita. No centro, acima da assinatura, três ou quatro palavras na caligrafia pontuada de descendentes da escrita devanagari.

– Eu não sabia que Sahid escrevia em sânscrito – observo.

– Ele não sabe. Escrevi e ele copiou. Sahid acha que não muita gente conhece sânscrito e isso poderia proteger o conteúdo do bilhete, mas ele pode estar errado tanto em uma coisa quanto em outra.

– Você pode traduzir para mim – estendo o bilhete na direção do homenzinho.

– Ciro, você é meu irmão – ele fala sem olhar para o papel. E em seguida, ficando em pé num único gesto ao redor da vara de caminhada: – Ciro, Sahid é seu irmão.

Não chego sequer a duvidar, porque a revelação explica tudo, muito mais do que posso compreender neste momento. Sahid, a personalidade notável, presidente do Bureau até alguns dias – até partir para o inferno, por razões que ninguém conhece – é meu irmão, o irmão de cuja existência eu havia por algum motivo aberto mão. Isto explica em parte por que querem me matar; explica toda a atenção que tenho recebido de gente que deveria me ignorar; explica porque sou o alvo e a esperança de tanta gente, mesmo sendo o “macaco” da definição de De la Mettrie. Acabei herdando uma série de complicações e expectativas que diziam respeito não a mim, mas a meu duplo secreto. E, antes de partir para onde ninguém volta, no último momento possível, ocorreu a Sahid me alertar. Deveria ter me ocorrido antes o quanto somos parecidos.

– Pronto – o homenzinho começa a dar as costas, na direção da abertura por onde entramos na biblioteca, – você tem a sua reviravolta. Tem a sua nova busca, e sua história se estreitou radicalmente.

– Não entendo – estou tremendo, mas agora sou eu a colocar-me de pé, deixando o livro aberto no chão. – Não entendo como você pode achar a ignorância uma coisa boa; como pode achar que eu não saber que Sahid é meu irmão me levaria mais para perto da verdade.

Ele se volta para responder.

– Você poderia chegar a entender se não tivesse lido o bilhete. Agora não pode mais.

Desvio o rosto um instante, procurando rápido um canal para minha indignação.

– E o que você esperava? Que eu vivesse na ignorância e abraçasse a sua causa?

– Eu esperava que você abraçasse a sua causa. Mas você deve ir, é tarde demais.

Não consegui ainda juntar as palavras para jogar contra ele e vem-me à mente outra necessidade, muitas vezes mais premente. Posso só ter este momento para fazer a pergunta.

– Você conhece Sahid. Vocês eram amigos, foram parceiros. O que pode me dizer dele?

Ele suspira.

– Temos poucas regras nos ashrams do paraíso, mas esta é uma delas: nunca falamos de uma pessoa que não esteja presente no momento da conversa.

Ando passos perplexos em alguma direção.

– É uma regra estúpida, é uma regra arbitrária. Você sabe muito bem que pode me facilitar a vida contando sobre Sahid.

– A regra do silêncio pode parecer arbitrária, mas foi concebida para que você possa se concentrar no seu interlocutor, ou seja, concentrar-se no aqui, no agora e em você. Mas está muito evidente que o Cirurgião não quer dar ouvidos a si mesmo.

E oferece-me as costas. Neste momento, antes que eu conjure uma solução para chamá-lo de volta, Glenn Miller aparece correndo por um dos corredores internos da biblioteca. É um homem com pressa, e traz um celular na mão.

– Mia Dladla acabou de ligar procurando você – ele fala antes de recuperar o fôlego.

Mordo o lábio inferior, instintivamente. Mia Dladla, a policial e a conspiradora, querendo mais uma vez estreitar minha história pelo celular.

– Ela mandou dizer que a sua encomenda está pronta – ele completa.

– O que quer que essa gente peça de você, não faça – o homenzinho está se afastando silenciosamente sobre os pés descalços.

– Você disse que estava comigo? – preciso saber.

– Não. Disse que não, mas não sei se ela acreditou.

– Eu não teria acreditado. Isso quer dizer que ela pode rastrear a ligação.

Bapu, a polícia pode chegar a qualquer momento.

O homenzinho está de costas para a nossa conversa, diante da saída, mas ouve com atenção. Ele responde sem se virar.

– Leve seu amigo até a estação. Deixe que ele siga o seu caminho.

Glenn já adiantou-se dois passos corredor adentro.

– Vem comigo, Ciro, vou levá-lo de coche até a estação de Tochidepa’. Dali você pode tomar o trem até Dunedin, e dali para onde quiser. Temos um dos nossos aguardando na estação.

Guardei o bilhete no bolso da camisa e já estou correndo ao lado de Glenn pela biblioteca.

– Cassandre está com ele – Glenn faz questão de confessar.

Viro o rosto para lançar um olhar de reprovação contra o homenzinho, mas ele já sumiu pela abertura.

28 de Julho de 2008

A geração do dilúvio

Goiabas Roubadas

NOÉ: A geração do dilúvio

Enquanto os descendentes de Caim assemelhavam-se a seu ancestral em sua depravação e pecaminosidade, os descendentes de Sete levavam uma vida piedosa e ordeira, sendo que a diferença entre as duas linhagens refletia-se em seus locais de residência. A família de Sete fixara-se nas montanhas próximas ao Paraíso, enquanto a família de Caim residia no campo de Damasco, o lugar onde Abel foi assassinado por Caim.

Infelizmente, na época de Matusalém, logo após a morte de Adão, a família de Sete corrompeu-se à maneira dos cainitas. As duas linhagens uniram-se uma à outra a fim de cometerem toda espécie de perversidade. O resultado dos casamentos entre elas foram os Nephilim, cujos pecados ocasionaram o dilúvio sobre o mundo. Em sua arrogância esses alegavam ter o mesmo pedigree da posteridade de Sete, e comparavam-se a príncipes e homens de ascendência nobre.

A licenciosidade desta geração deveu-se até certo ponto às condições favoráveis de que desfrutava a humanidade antes do dilúvio. Não conheciam trabalho árduo nem preocupação, e como resultado de sua extraordinária prosperidade tornaram-se insolentes; em sua arrogância, voltaram-se contra Deus.

Uma única semeadura produzia uma colheita suficiente para suprir as necessidades de quarenta anos, e por meios mágicos as pessoas conseguiam fazer com que os próprios sol e lua se dispusessem ao seu serviço.

A criação de filhos não lhes dava qualquer trabalho. Nasciam depois de uns poucos dias de gravidez, e imediatamente após o nascimento sabiam andar e falar; ajudavam eles mesmos a mãe a cortar o cordão umbilical. Certa vez um recém-nascido, correndo para buscar uma luz para que sua mãe pudesse cortar o cordão umbilical, encontrou o chefe dos demônios, e teve início uma altercação entre os dois. Ouviu-se de repente o canto do galo, e o demônio fugiu depressa, gritando para o bebê:

– Vá contar à sua mãe que se não fosse o canto do galo eu teria matado você!

O bebê retrucou:

– Vá contar à sua mãe que se não fosse meu cordão umbilical eu teria matado você!

Foi essa vida sem preocupações que deu a eles espaço e tempo livre para suas infâmias. Por algum tempo Deus, em sua bondade paciente, foi tolerante com as perversidades dos homens, mas sua tolerância terminou quando as pessoas começaram a viver vidas devassas – pois “Deus é paciente com todos os pecados, menos com a imoralidade”.

O outro pecado que apressou o fim da geração perversa foi sua rapacidade. Tão astuciosas eram suas depredações que a lei não podia tocá-los. Se um camponês trazia ao mercado uma cesta de vegetais, as pessoas passavam-lhe do lado e, uma após outra, subtraiam um pedacinho de cada vez; cada pedaço não tinha grande valor em si, mas logo ao vendedor não restava o que vender.

Mesmo depois que havia decidido pela destruição dos pecadores, Deus permitiu que sua misericórdia prevalecesse, pelo que mandou-lhes Noé, que exortou-os por cento e vinte anos a corrigirem sua conduta, acenando sempre com a ameaça do dilúvio. Eles porém nada faziam além de ridicularizá-lo. Quando viram ocupando-se da construção da arca, perguntavam:

– Pra quê essa arca?

Noé:

– Deus trará um dilúvio sobre vocês.

Os pecadores:

– Que espécie de dilúvio? Se ele mandar um dilúvio de fogo, contra isso nós sabemos nos proteger. Se for um dilúvio de água e a água brotar do solo, fecharemos [os buracos] com barras de ferro; se descer do alto, conhecemos uma solução para isso também.

Noé:

– As águas brotarão de sob os seus pés, e vocês não terão como impedi-las.

Eles em parte persistiram na dureza de seus corações porque Noé havia anunciado que o dilúvio não desceria enquanto o piedoso Matusalém habitasse entre eles. Quando encerrou-se período de cento e vinte anos de suspensão da pena que Deus havia apontado, Matusalém morreu, mas em consideração pela memória desse homem piedoso Deus deu a eles uma semana adicional, a semana de luto por ele. Durante esse período de graça as leis da natureza foram suspensas: o sol levantava-se no oeste e punha-se no leste. Aos pecadores Deus deu as guloseimas que aguardam o homem no mundo futuro, a fim de mostrar-lhes aquilo a que estavam perdendo direito. Mas tudo isso mostrou-se infrutífero e, tendo Matusalém e os outros homens piedosos da geração dele partido desta vida, Deus trouxe o dilúvio sobre a terra.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

26 de Julho de 2008

Um passinho à frente

Ilustração

25 de Julho de 2008

Neste ponto

Manuscritos

28

Neste ponto, com o cenário disposto, o conflito sensatamente estabelecido e os intérpretes em suas marcações, a narrativa subverte as próprias regras que havia fixado, introduzindo sem aviso um novo personagem.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção