Manuscritos estocados em Junho do Anno 2008 de Nosso Senhor
30 de Junho de 2008

O nascimento de Noé

Goiabas Roubadas

NOÉ: O nascimento de Noé

Matusalém tomou uma esposa para seu filho Lameque, e ela deu à luz um filho. O corpo do bebê era branco como a neve e vermelho como uma rosa em flor; o cabelo da sua cabeça e seus compridos cachos eram brancos como a lã, e seus olhos como raios de sol. Quando abria os olhos ele iluminava toda a casa, tal qual o sol, e toda a casa ficava inteiramente repleta de luz.

Assim que foi tomado da mão da parteira ele abriu sua boca em louvor ao Senhor da integridade. Seu pai, Lameque, ficou com medo dele e fugiu. Foi até seu próprio pai, Matusalém, e disse:

– Gerei um filho estranho. Ele não é como um ser humano, mas se parece com os filhos dos anjos do céu. Sua natureza é diferente; ele não é como nós, seus olhos são como raios de sol e suas feições são gloriosas. A mim parece que ele não foi gerado por mim, mas por anjos, e temo que nos seus dias alguma maravilha recaia sobre a terra. E agora, meu pai, estou aqui para pedir e implorar que o senhor vá até Enoque, nosso pai, e descubra com ele a verdade, pois ele reside entre os anjos.

Quando ouviu as palavras do filho Matusalém foi até Enoque, nos confins da terra, e chamou-o em voz alta. Enoque ouviu a sua voz e apareceu diante dele, e perguntou a razão de sua vinda. Matusalém contou-lhe a causa de sua ansiedade, e pediu que a verdade lhe fosse revelada.

Enoque respondeu, dizendo:

– O Senhor fará uma coisa nova sobre a terra. Sobrevirá à terra uma grande destruição e um dilúvio de um ano. Esse filho que lhe foi concedido será poupado sobre a terra, e os três filhos dele serão salvos com ele, quando morrer toda a humanidade sobre a terra. Haverá uma grande punição sobre a terra, e a terra será purificada de toda impureza. Agora faça saber a seu filho Lameque que o menino que nasceu é de fato seu filho, e que ele deve ser chamado de Noé/descanso, pois ele será deixado [ileso] em beneficio de vocês. Ele e os filhos dele serão salvos da destruição que recairá sobre a terra.

Depois de ouvir de seu pai essas palavras, que lhe revelara todas as coisas ocultas, Matusalém voltou para casa e deu ao menino o nome de Noé, pois daria à terra motivo de alegria em compensação por toda a destruição.

Apenas seu avô, Matusalém, chamava-o de Noé; seu pai e todos os demais chamavam-no de Menaém. Sua geração era obcecada por magia, e Matusalém temia que seu neto fosse enfeitiçado caso seu verdadeiro nome fosse conhecido, pelo que o manteve em segredo. Menaém, “Aquele Que Conforta”, cabia-lhe tão bem quanto Noé; indicava que ele seria um consolador, porém apenas se os malfeitores do seu tempo se arrependessem de seus delitos.

Logo na ocasião do seu nascimento sentiu-se que ele traria conforto e libertação. Quando o Senhor lhe dissera “Maldito é o solo por sua causa”, Adão havia perguntado “Por quanto tempo?”, e Deus respondera “Até que nasça um menino conformado de tal forma que não será necessário executar nele o rito da circuncisão”. Isso cumpriu-se em Noé, que foi circuncidado desde o ventre de sua mãe.

Noé mal havia chegado ao mundo e percebeu-se uma notável mudança. Desde de que o solo havia sido amaldiçoado por causa do pecado de Adão acontecia que quando se semeava trigo o que brotava e crescia era aveia. Isso parou de acontecer com o surgimento de Noé, e a terra passou a produzir os frutos que se plantava nela. Além disso foi Noé que, quando chegou à maturidade, inventou o arado, a foice, a enxada e outros implementos usados no cultivo do solo. Antes dele os homens lavravam a terra com suas próprias mãos.

Houve outro sinal para indicar que o filho nascido de Lameque estava destinado a desempenhar um papel extraordinário. Ao criar Adão Deus dera a ele o domínio sobre todas as coisas: a vaca obedecia o lavrador e o sulco do arado deixava-se abrir com facilidade. Porém com a queda de Adão as coisas rebelaram-se contra ele; a vaca passou a recusar obediência ao lavrador, e o sulco do arado tornou-se reticente. Noé nasceu e tudo voltou a ser como era antes da queda do homem.

Antes do nascimento de Noé o mar costumava transgredir os seus limites duas vezes por dia, de manhã e à noitinha, inundando a terra a ponto de molestar as sepulturas. Depois do seu nascimento o mar passou a restringir-se aos seus limites. E a fome que afligia o mundo na época de Lameque, a segunda das dez grandes fomes determinadas a lhe sobrevir, cessou sua devastação com o nascimento de Noé.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

29 de Junho de 2008

O Salário de Spielberg

Filmes

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

A tensão das pequenas coisas

Dos contadores de histórias que não contam suas histórias através de livros, nenhum terá me fascinado mais cedo, de forma mais desarmante e com maior freqüência do que Steven Spielberg.

Spielberg tem um vocabulário visual que é particularmente seu; um modo peculiar de enquadrar, acompanhar e fornecer ritmo à história. Encontro essa sua assinatura em todo lugar, quer o diretor esteja contando uma história de aventura, um drama ou uma comédia.

Sempre achei que esses preciosismos visuais fossem exclusividade de Spielberg, mas isso foi até ver, há alguns meses, O Salário do Medo (Le Salaire de la peur), produção ítalo-francesa de 1953 dirigida por Henri-Georges Clouzot. Encontrei em primeiro lugar um filme extraodinário, ao mesmo drama niilista, aventura deliciosa e suspense impensável (sendo que o filme, incrivelmente, não perde peso em favor ou em detrimento de qualquer uma dessas categorias).

Porém o que deixou-me inteiramente perplexo deliciado foi encontrar em Clouzot uma série de maneirismos que sempre achei serem exclusividade de Spielberg. Penso, mais do que qualquer outra coisa, na maneira como o diretor norte-americano trabalha suas sequências de modo a extrair grandes doses de suspense a partir de pequenos elementos do cenário – o copo com água começa a vibrar e pressentimos a aproximação do tiranossauro; as bóias sobem para a superfície e sabemos que o tubarão está perto.

O Salário do Medo se passa num local remoto e não especificado da América do Sul. Uma refinaria norte-americana pega fogo, e a companhia contrata quatro europeus, sujeitos dispostos a qualquer coisa se for para ganhar algum dinheiro, para levarem sertão adentro os dois caminhões de nitroglicerina necessários para apagar o incêndio.

Nesta sequência o segundo caminhão do comboio chega a um trecho da estrada em que há uma curva tão acentuada que é necessário manobrar o caminhão sobre uma plataforma de madeira suspensa sobre o abismo.

O arquivo tem 40 MB, mas se você for assistir vá até o fim. Os dois últimos minutos são particularmente spielberguianos.

(na marca de 01m33s há um corte abrupto que não faz parte do original; eliminei um diálogo em francês inteiramente incompreensível .)

27 de Junho de 2008

Não devemos deixar

Manuscritos

24

Não devemos deixar que nos cegue o cisco da proibição, como terá cegado nesta mesma página os nossos protagonistas – pois o que particulariza a condição de Adão e Eva não é a falsa eloquência do que não devem fazer, mas a formidável extensão de suas liberdades.

Pelo que sabemos o homem podia pular de penhascos, comer manga com leite, fazer xixi de porta aberta, engendrar enxertos inéditos nas plantas do jardim. Era livre para fazer esculturas na areia, dormir reclinado no peito de tigres, cavalgar rinocerontes, receber a massagem de todas as cascatas.

Podia cuidar do jardim sob o sol da manhã, cantar na chuva à tarde, dar nome às estrelas na noite e amar sobre a relva em todos os intervalos. Todas as florestas eram virgens, todos os oceanos inexplorados e mesmo os picos mais baixos aguardavam serem escalados.

Não ouçamos portanto a mentirosa sedução da proibição, porque nesta história o ser humano é, incrivelmente, livre para fazer qualquer coisa. Num certo sentido o conflito singular desta trama não reside na arbitrária proibição que imprime aos protagonistas, mas no embaraço da liberdade de que desfrutam.

A narrativa dos primórdios em Gênesis não é uma parábola sobre os perigos da tentação; é uma história sobre os percalços do gerenciamento da abundância.

26 de Junho de 2008

Tio

Ilustração

25 de Junho de 2008

A mesma sentença

Manuscritos

É só quando me abaixo para entrar que percebo que as paredes, o teto e o piso do corredor estão inteiramente cobertos de figuras em baixo-relevo, imagens esculpidas diretamente na pedra e pintadas com técnica exuberante em impossíveis combinações de azuis, verdes e dourados. São quatro superfícies mas um só mural; as figuras individuais, coerentes por si mesmas, formam para quem olha desta extremidade uma única e filigranada rosa mística.

Ele entra logo atrás de mim, como se estivesse ansioso avaliar a minha reação, mas ao contrário de mim não precisa arquear a coluna para caminhar ali dentro.

Ele volta a cantarolar, mas não estou prestando atenção. Minhas mãos e pés descalços avançam devagar tateando uma multidão de peregrinos, animais míticos, monges, deuses de muitos braços e santos de todas as épocas, figuras que caminham em procissões helicoidais, cada rosto voltado para a extremidade oposta do corredor, onde, percebo agora, as paredes, o piso e o teto se dissolvem em cilindro, delineando uma porta que é um círculo perfeito.

No meio do corredor sento um momento para observar, as pernas dobradas e os punhos sobre os joelhos, e ele observa minha parada com satisfação.

– Aqui está Shiva – ele aponta. – E ali Ganesha, com cabeça de elefante. Aquele deve ser São Francisco de Assis.

– E Jesus. Um centauro, um menino de madeira e um gladiador. Aqui Maomé?

– Confúcio – ele corrige. Maomé está ali em cima.

E meia dúzia de Budas, em diversos estágios de magreza, todos gravados com artifício e pintados com uma obsessão de iluminura. O estilo dos relevos é econômico e familiar, mas não consigo fixá-lo a nenhum período da história da arte. Poderiam tanto ser pinturas do paleolítico quanto imagens numa história em quadrinhos. E não consigo, em especial, reconhecer mais do que uma mínima parte da multidão de entidades, animais, deuses e santos que caminham caverna adentro ao meu redor, por todos os lados. Há corvos eretos e homens com cabeça de chacal e mulheres aladas e demônios com feições humanas na barriga e nos joelhos; há homens com cabeça de cavalo e santos cravados de flechas e vitorianos barbudos e muçulmanas de rosto coberto e sacis e monges trajando laranja e sereias e sadhus; há sufis e vagões de ciganos e carros alegóricos e esqueletos-vivos e vikings e guerreiros masai e gigantes que carregam uma casa na cabeça; há heróis e cardeais e profetas e leprosos e crianças peludas e crucificados e prostitutas e iluminados e anjos e pássaros e cavaleiros e freiras e extraterrestres e papas e pastorinhas e uma mulher riscando o chão com uma varinha e cães.

– Que lugar é este? – arrisco, imóvel no exato centro do redemoinho.

– Não é ainda o lugar, isto; é um corredor. Uma passagem. Creio que seja esse o seu grande significado.

– E estão todos caminhando do retângulo da existência comum – refaço o trajeto dos peregrinos com a mão – ao círculo da eternidade.

– Simbolicamente, sim.

Estendo o braço e acaricio com a ponta dos dedos o rosto dourado de uma Madona.

– Você não está aqui – observo, achando alguma graça, enquanto refaço a varredura das figuras na parede. – Gandhi não está aqui.

– Evidente que não. Nem você.

– Não vejo nenhuma figura mais recente do que o século dezenove. Quem construiu esse lugar, afinal de contas?

– Gente, é claro. Deve parecer evidente que a principal atividade no paraíso não foi sempre o sexo livre e a freqüência a shopping centers.

Absolutamente não me agradam os shopping centers, mas nada tenho contra o sexo livre. Preferiria não vê-los tomados como equivalentes num mesmo argumento, mas decido ignorar por completo a provocação.

– Você nunca parou para se perguntar – ele prossegue, o queixo e as mãos apoiados enfaticamente na vara de caminhada – onde foram parar os antigos deuses e mestres, os grandes reis e heróis da Antiguidade? Onde estão Alexandre e Minos e Platão e Moisés e Enéas e Aristóteles e Davi e Hércules e Beowulf e Confúcio e o Filho do Homem e Sócrates e todos os Budas? Esta é a eternidade, não é? Esses velhos deuses deveriam estar entre nós, dando palestras e entrevistas, mas tudo que se vê na Capital Q e nas cidades do interior é gente nova, fihos do século vinte. Onde foram parar os antigos?

– Esta tem de ser uma pergunta retórica – respondo com algum mau humor, – porque todo mundo sabe para onde foram.

– Para onde?

– Ao esgotamento dos sentidos. Foram abatidos pela telopausa, o fastio da eternidade. Os que não partiram voluntariamente para o inferno recolheram-se para os recessos interiores do paraíso. Retiraram-se para os Cardeais Proibidos, onde vivem em completos isolamento e imobilidade. A não ser que você acredite nos Parques Temáticos, onde sobrevivem em inofensiva versão Disney.

– Sua resposta está essencialmente correta, meu amigo, mas não me satisfaz.

Levanto-me depressa e bato com força a cabeça no teto.

– Talvez – massageio a testa com a mão – por dizer respeito a uma pergunta que não me interessa.

– Ah, mas deveria. O passado nos afeta o tempo todo, mas sua influência sobre o presente é apenas maior quando ousamos ignorá-lo.

Cito, antes que ele resolva fazê-lo, o Paradoxo de Rousseau na Estremadura:

– A eternidade que é afetada pelo passado é uma eternidade falsa.

Ele empertiga a coluna.

– É mais ou menos isso. O Paraíso não é o que costumava ser, e os que escolhem ficar não podem se dar ao luxo de ignorá-lo.

A eternidade não é o que costumava ser. Essa conversa sobre os antigos deveria ter despertado imediatamente a minha memória por associação, mas é só quando ouço a articulação da frase que recordo ter ouvido antes a mesma argumentação. Os genealogistas estudam os antigos registros mas são todos obcecados pelo presente; a ocasião em que ouvi essa mesma sentença foi numa conversa fragmentária com a única pessoa obcecada pelo passado que conheci no paraíso: Sahid. Entre outras coisas, o homem que precedeu Gandhi no cargo que ele acaba de declinar.

– Meu amigo Sahid costumava pensar assim – coloco finalmente as cartas sobre a mesa, por entender que é o que ele está pedindo. – Antes de partir para o inferno.

– Conheci Sahid muito bem – ele não afasta dos meus os olhos inteiramente solenes. – E é naturalmente por pensar assim que ele partiu para o inferno.

– Eu soube que você tem uma mensagem dele para mim.

– Tenho sim uma mensagem para você – ele ergue do chão a vara de caminhada, sacudindo-a no ar como um juiz o seu martelo, – mas não é apenas dele.

E, passando por trás de mim no corredor estreito, avança em passos ligeiros até a abertura circular diante de nós, desaparecendo agilmente por ela. Cubro com alguma dificuldade a distância até a abertura, que mal dá passagem a um homem do meu tamanho; passo primeiro uma perna depois um braço e a cabeça, e mesmo antes de atravessar estou transtornado.

O homenzinho está de costas para mim, em pé e com os braços estendidos para cima. Atrás dele, vasta e com altíssimas paredes subterrâneas e corredores arcados que se perdem em todas as direções, iluminada por holofotes e lâmpadas de teto e persistindo em silêncio e riqueza perenes, uma biblioteca.