Manuscritos estocados em Maio do Anno 2008 de Nosso Senhor
26 de Maio de 2008

O traslado de Enoque

Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: O traslado de Enoque

A pecaminosidade dos homens foi a razão pela qual Enoque foi trasladado ao céu; assim disse o próprio Enoque ao rabi Ishmael. Depois que a geração do dilúvio transgrediu e disse a Deus “Deixe-nos em paz, porque não queremos conhecer os seus caminhos”, Enoque foi carregado ao céu, para servir ali como testemunha de que Deus não era um Deus cruel, a despeito da destruição decretada sobre todas as coisas vivas da terra.

Quando Enoque, sob a condução do anjo ‘Anpiel, foi carregado da terra para o céu, os seres santos, os ofanins, os serafins, os querubins, todos os que movem o trono de Deus, bem como os espíritos ministrantes cuja substância é fogo consumidor – todos esses, à distância de seiscentos e cinqüenta milhões e trezentas parasangas, perceberam a presença de um ser humano, e exclamaram:

– De onde vem esse odor de um nascido de mulher? Como pode ele entrar no mais elevado dos anjos reluzentes de fogo?

Porém Deus respondeu:

– Ah, meus servos e exércitos, vocês, meus querubins, ofanins e serafins, não seja isto ofensa para vocês, pois todos os filhos dos homens rejeitaram a mim e à minha potente autoridade e prestaram reverência aos ídolos, pelo que transferi a Shekiná da terra para o céu. Porém esse homem, Enoque, é o eleito dos homens. Há nele mais fé, justiça e integridade do que em todos os outros; ele é a única recompensa que extraí do mundo terrestre.

Antes que Deus pudesse ser admitido no serviço junto ao trono divino os portões da sabedoria foram abertos para ele, bem como os portões da compreensão, do discernimento, da vida, da paz, da Shekiná, da força e do poder, da potência, da amabilidade, da graça, da humildade e do temor ao pecado.

Equipado por Deus com sabedoria, sagacidade, discernimento, conhecimento, erudição, compaixão, amor, bondade, graça, humildade, força, poder, potência, esplendor, beleza, harmonia de proporções e todas as outras qualidade de excelência em medida extraordinária, mais do que já foi concedido a qualquer ser celestial, Enoque recebeu ainda muitos milhares de bençãos de Deus, e sua altura e extensão tornaram-se idênticos à altura e à extensão do mundo; trinta e seis asas foram anexadas ao seu corpo, à direita e à esquerda, cada uma delas grande como o mundo, e lhe foram concedidos trezentos e sessenta e cinco mil olhos, cada um deles brilhante como o sol.

Um trono magnífico foi erguido para ele ao lado dos portões do sétimo palácio celestial, e um arauto proclamou em todo o céu a respeito de Enoque que dali em diante ele deveria ser chamado de Metatron nas regiões celestes.

– Nomeio meu servo Metatron príncipe e líder sobre todos os príncipes do meu domínio, com única exceção dos oito príncipes augustos e exaltados que levam meu nome. Qualquer anjo que tiver um pedido a me propor deve apresentar-se diante de Metatron, e aquilo que a meu comando ele ordenar vocês devem observar e colocar em prática, pois o príncipe da sabedoria e o príncipe do discernimento estão a serviço dele, e irão lhe revelar as ciências dos celestiais e dos terrestres, o conhecimento da ordem presente do mundo e o conhecimento da ordem futura do mundo. Além disso, faço-o guardião dos tesouros dos palácios no céu ‘Arabot, e dos tesouros de vida que estão no mais alto céu.

Pelo amor que nutria por Enoque, Deus trajou-o com uma roupa magnífica, à qual estavam presos todos os tipos de luminárias existentes, e uma coroa reluzente com 49 pedras preciosas, cujo esplendor penetrava todas as partes dos sete céus e os quatro cantos da terra. Na presença da família celestial Deus colocou essa coroa sobre a cabeça de Enoque, chamando-o de “pequeno Senhor”. [A coroa] traz também as letras através das quais o céu e a terra foram criados, e os rios e mares, montanhas e vales, planetas e constelações, relâmpago e trovão, neve e granizo, tempestade e furacão – estas e também todas as coisas necessárias no mundo, bem como os mistérios da criação.

Mesmo os príncipes do céu tremem quando vêem Metatron, e prostram-se diante dele; são tomados de assombro diante de sua magnificência e majestade, e do esplendor e da beleza que irradiam dele. Mesmo Samael, o maior entre eles, mesmo Gabriel, o anjo do fogo, Bardiel, o anjo do relâmpagao, Za’miel, o anjo do furacão, Zakkiel, o anjo da tempestade, Sui’el, o anjo do terremoto, Ra’shiel, o anjo do redemoinho, Shalgiel, o anjo da neve, Matriel, o anjo da chuva, Shamshiel, o anjo do dia, Leliel, o anjo da noite, Galgiel, o anjo do sistema solar, Ofaniel, o anjo da roda da lua, Kobabiel, o anjo das estrelas e Rahtiel, o anjo das constelações.

Quando Enoque foi transformado em Metatron seu corpo tornou-se fogo celestial – sua carne tornou-se chama, suas veias fogo, seus ossos brasas ardentes, a luz de seus olhos claridade celestial, seus glóbulos oculares tochas de fogo, seu cabelo flama reluzente, todos os seus membros e orgãos faíscas ardentes, e sua constituição um fogo consumidor. À sua direita cintilavam chamas de fogo, à sua esquerda ardiam tochas de fogo, e por todos os lados ele era cingido por tempestade e redemoinho, por furacão e soar de trovões.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

23 de Maio de 2008

Você pode comer

Manuscritos

– Você pode comer livremente de todas as árvores do jardim – orienta o criador ao Homem que não foi criança, – mas [1] o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer. No dia em que comer dele [2] você certamente morrerá.

Pode ser necessário salientar que, em termos dramáticos, o enunciado da proibição (”nunca faça tal coisa”) é muitas vezes mais importante do que a ameaça complementar (”caso contrário tal coisa ocorrerá”). Para impulsionar a narrativa a proibição basta; a interdição já é conflito (isto é, atração) suficiente. Na maior parte das histórias, de Prometeu ao herói de Gremlins, o personagem só vai conhecer as conseqüências da sua transgressão depois de transgredir; ele ouvirá o “nunca faça tal coisa” sem ter verdadeira idéia do “caso contrário tal coisa ocorrerá”.

Deus, no entanto, oferece ao Homem a essencial proibição [1] juntamente com a não essencial explanação complementar [2]. O que implica Adão conhecer previamente o resultado da sua transgressão? Não seria suficiente a austera proibição?

De tudo que poderia ser dito sobre o assunto, e não é pouco, deve bastar o seguinte: a narrativa não existe para o protagonista, existe para o leitor.

E o leitor, incrivelmente, somos eu e você.

Nessa história a tensão inerente ao conflito é reforçada porque sabemos muito mais do que Adão jamais saberá; do nosso lugar na janela indiscreta vemos uma ameaça que Adão não pode ver, e esse prenúncio de tragédia aparece na história para nos tocar, não a ele. Adão talvez não saiba o que é morrer. Ele provavelmente não terá ferramentas para entender o conceito mesmo que lhe tenha sido explicado, mas – aqui está o ponto – nós temos.

Não apenas isso: como a narrativa existe para o leitor, a explanação “quando comer dele você morrerá” está ali para que saibamos sem sombra de dúvida que o propósito da história é explicar como num mundo perfeito a morte acabou encontrando o Homem.

A questão essencial, naturalmente, está em determinar se a morte é punição pela transgressão ou mera conseqüência dela. Para a teologia a morte é punição pela transgressão, pelo que a teologia é obcecada com a idéia da expiação do pecado. Para a narrativa, que não emite juízo, a morte é conseqüência mecânica da transgressão, não sua inevitável recompensa moral. Um interruptor foi lamentavelmente acionado, com resultados terríveis para todos os envolvidos. Haverá como consertar a situação e recuperar em alguma medida a honra dos protagonistas?

A teologia é obcecada com a expiação do pecado, mas a narrativa é obcecada com a expiação do pecador.

A Bíblia é narrativa.

22 de Maio de 2008

Mais caligrafia no Inkscape

Ilustração

Fiz este mês dois trabalhos comerciais de caligrafia [digital] e, como eu predizia, obtive resultados superiores e mais ágeis com o Inkscape (software gratuito) do que com meu velho parceiro Painter (software comercial). É o começo de uma nova era.

Mais caligrafia com o Inkscape (clique para ampliar):

Clique para ampliar

21 de Maio de 2008

Véu

Manuscritos

E já afastou-se, demorando a dar-me as costas, para deixar-me sozinho com ele.

– Ciro – diz o homem.

– Eu.

Estendo o braço para cumprimentá-lo e ele toma minha mão por alguns segundos na dele. Como o homem não diz nada, restamos em pé um ao lado do outro com os pés sobre a areia vermelha, eu de braços cruzados, pensando no que dizer enquanto procuro assimilar o meu choque diante da natureza multiétnica do acampamento. Ele olha com curiosidade para os lugares para onde estou olhando, como se fosse importante tentar enxergar o mundo pelos meus olhos; logo não sei se sou eu que estou olhando ou se é o homem que me está guiando o olhar, e talvez não faça diferença, porque que tudo que há ao nosso redor é pessoas.

Ocorre-me que talvez tenha sido por isso que o Mahatma planejou que nosso encontro fosse aqui, no isolamento populoso de um de seus ashrams: para que diante de tanta gente que parece ter aberto mão de tanto coisa a urgência da minha própria missão fosse diluída. É uma estratégia vil, mas pode estar funcionando. Entendo que serei eu inevitavelmente o primeiro a falar, e não começaremos falando sobre o meu problema. A sombra gigante do homenzinho apagou o fogo da minha busca; ele me venceu, e nem sequer começamos a lutar.

– Não é o que eu esperava – digo.

– Ah. O quê, o ashram? O que você esperava?

– Não sei – estou falando a verdade. – Um galpão cheio de rocas e de gente fiando, provavelmente. Todos de turbante.

Ele sorri.

– Imagino. Não somos todos indianos aqui, Ciro. Essa foi uma das primeiras surpresas que tive de enfrentar quando cheguei.

Não consigo deixar de abrir um sorriso, mesmo depois de achar que talvez não fosse piada.

– Não deve ter sido a última surpresa – observo. – É a pena do paraíso: ninguém morre, mas todos tem de conviver com todos. É porque o inferno está cheio de gente decepcionada com o céu.

Procuro, mas não encontro no semblante dele nenhuma reação ao que acabei de dizer, e calculei deveria provar minha sagacidade logo no início da conversa.

– Às vezes não sei se a eternidade vale à pena – completo, mas apenas por achar que será algo que ele vai gostar de ouvir. Ou talvez por mais alguma razão.

Ele desvia o rosto e se permite uma longa pausa, como que para apagar das atas qualquer trivialidade do que falei.

– Você acredita mesmo, Ciro, que este é o céu? – o homenzinho aperta os olhos para alongar o olhar e abracar as metrópoles que dali não vemos.

– E você, acredita em quê? – devolvo imediatamente a pergunta, coisa que talvez irrite os homens santos, por ser coisa que eles gostam de fazer.

Ele sorri e baixa os olhos por um instante, como se fosse resposta suficiente. Mas insisto:

– Vai me dizer que Gandhi abraça a heresia de Yhteys? – refiro-me ao ensino mais ou menos fora de moda que denuncia, libertariamente, que este reino de delícias é o inferno, e que o que chamamos de inferno o verdadeiro paraíso.

– Digamos que creio numa forma dessa heresia – ele responde com cautela, olhando-me com carinho nos olhos, como se fossemos amigos há muito tempo. – Se não, não estaria aqui.

Não digo nada, mas penso abruptamente que de um modo poético talvez faça sentido. Gandhi escolhe o céu porque aqui é o verdadeiro inferno; as ruas da capital Q são de um modo secreto Calcutá.

– Parece-me natural concluir que um lugar em que uma pessoa pode ter tudo que deseja não seja o céu – ele complementa cuidadosamente, e fica estudando a minha reação.

– Será preciso talvez ser Gandhi para pensar assim – opino, mais ou menos ofendido.

– Quero dizer – ele parece acanhado por um instante, mas logo se recompõe, – o homem que tem tudo que quer está em posição de clara desvantagem. Não lhe parece evidente?

– De um jeito muito transversal, talvez. Mas que a maior parte dos homens querem ter tudo o que querem, isso me parece evidente. Para a maioria isto é o céu, não tenha dúvidas.

– Também pra você?

– Na maior parte do tempo, sim.

– Hum – ele junta as mãos e abaixa a cabeça, como que para resetar a argumentação. – Meu amigo, para dizer a coisa de outra forma: estamos falando de um mundo em que as pessoas acreditam em céu e inferno, e acreditam neles como destinos eternos. Você naturalmente sabe que para muitas culturas, para na verdade a maioria das culturas representadas aqui, essas categorias simplesmente não existem. Na sua própria Bíblia, até perto das últimas páginas, o constraste é mantido entre céu e terra, entre o domínio de Deus e o domínio da criação. O paraíso como recompensa e o inferno como punição aparecem como reflexões tardias, particularmente a partir do Novo Testamento. Da forma como você os concebe céu inferno são contribuição, para não dizer invenção, da instituição cristã.

– Invenção? Olhe ao redor, meu amigo. Pergunte a esse encarnado que está passando se o inferno não é muito real. Pergunte a estas manchas de sangue.

– Ah, sim, o caráter peculiar da evidência física. Meu amigo, essas manchas de sangue me dizem alguma coisa, mas provavelmente não o que você está pensando. Talvez minha vantagem esteja em que, na minha cultura, estamos mais habituados do que na sua a pensar no universo como uma eficaz ilusão. O que você experimenta pode não ser a verdade última; a verdade pode estar oculta por um véu, não pode?

– Ou talvez – recorro finalmente à altercação, esperando que seja isso que ele espera – você esteja ressentido por ser obrigado a rever as suas próprias categorias. Ter de escolher entre céu e inferno deve ter sido um baque para quem esperava a reencarnação.

E ele começa, do nada, a sorrir, a cantar e a o que talvez seja a idéia de um santo de dançar.

“Ponhas uma bela roupa, própria para a ocasião
Pois tu vais agora para o lar da amada
Vais deitar no pó
Cobrir-te de pó
Ser um com o pó
Banha-te e vista uma roupa própria
Lembra que não voltas
do lugar para onde vais…”

20 de Maio de 2008

Copyrights do Caribe [3]

Irmãos Comédia