Manuscritos estocados em Abril do Anno 2008 de Nosso Senhor
23 de Abril de 2008

Não é verdade

Manuscritos

Glenn Miller não pode sangrar, mas a dor que o faz levar os dedos aos lábios é muito real. Ficamos mais de dez minutos assim, sentados no asfalto um diante do outro sem recorrer a uma palavra, ele com as costas apoiadas no pára-choque reluzente do Peugeot, eu com as pernas cruzadas, as mãos entrelaçadas e os cotovelos apoiados nos joelhos, a dois metros dele. Não consigo deixar de pensar que este é o nosso primeiro encontro verdadeiro um com o outro. Finalmente falamos claramente a nossa linguagem, eu a minha e ele a dele, e sentamos para tentar entender o que acabamos de ouvir e – tão importante quanto isso – de dizer.

Glenn puxa uma perna para junto de si, de modo a ajeitar melhor o corpo contra o automóvel, e geme em voz baixa durante a manobra.

– Você achou mesmo que eu fosse revidar? – ele pergunta com curiosidade sincera, e como é ele a quebrar o silêncio fica subentendido que continuaremos cada um a falar nosso próprio idioma.

– Não, não achei que um seguidor de Gandhi fosse revidar – digo, sem levantar a voz. – Mas eu tinha de ter certeza.

E pondero sobre o peso retroativo desta revelação. Em momento algum, do instante em que Glenn aparecera do nada em Dáun-Behri com a notícia de que Gandhi queria falar comigo, me ocorreu que ele estivesse ali em função menos que oficial. Ele era membro-chave do Conselho, afinal de contas, e desde que o Mahatma assumira a primeira cadeira Glenn reportava-se diretamente a ele.

O que eu percebia agora claramente, e que ele mesmo acabava singelamente de confessar, é que Glenn reportava-se diretamente a Gandhi muito antes de Gandhi ter assumido a liderança do Conselho.

Quanto mais reflito sobre isso, mais sentido a coisa faz, e mais me recrimino por não ter percebido antes. Naquela reunião na sala privada do Bureau, quando ponderávamos sobre a questão de um sucessor para Sahid, Glenn parecera tão relutante quanto qualquer outro para abalizar o nome o indiano, mas tinha sido ele mesmo a propor que fechássemos com ele, no fim das contas. Como era mesmo que ele havia dito? “De nada adianta adiar a decisão. Vamos colocar Gandhi no lugar de Sahid.” Em retrospecto, Glenn não tinha como ter sido menos sutil. Um seguidor secreto do Mahatma, um idealista e um pacifista, e no quintal da minha casa.

– Desde quando? – pergunto, sem nenhuma condenação na voz. Eu o chamara de traidor para provocá-lo a uma reação, mas meu sentimento agora está entre o assombro e a admiração.

– Desde muito tempo – ele sorri, apoiando as palmas das duas mãos sobre o asfalto. – Na verdade, desde que percebi que não tenho escolha.

– Gandhi pediu que você me seguisse? Que me vigiasse?

– Não exatamente. Na verdade é o contrário disso, mas prefiro deixar que ele mesmo explique. Ele quer falar com você.

Olho para o laço de chão entre os pés cruzados e as mãos entrelaçadas e não consigo deixar de achar graça.

– Gandhi quer falar comigo. Você sabe o que ele vai me dizer, Glenn?

– Ele vai dizer o que você não sabe.

– Vai demorar – sorrio.

– Possivelmente.

Uma nova pausa. Logo outra coisa me vem à lembrança.

– De la Mettrie disse que eu lhe perguntasse sobre a balança de três pratos. Gandhi vai me falar sobre isso também?

É a vez de Glenn sorrir, um pouco embaraçado, e desvia os olhos por um segundo.

– A balança de três pratos é um conceito que aparece no livro de De la Mettrie sobre Gandhi, o livro cuja publicação o Informal interceptou. É uma metáfora para as três grandes posturas comportamentais que os encarnados acabam assumindo entre nós. Você sabe muito bem que há poucas opções legítimas no Paraíso para os ilegais do inferno, e De la Mettrie resume-as a três. A primeira categoria é a dos incógnitos, que recorrem à dissimulação e à maquiagem para passarem por cidadãos do céu. Para um exemplo muito próximo –

– Cyril Crepsi.

– Isso, seu amigo Ermitão. A segunda é a dos colaboracionistas, que ao mesmo tempo invejam e bajulam servilmente aos cidadãos do céu. Pense naqueles que só conseguem um lugar no mecanismo das coisas porque fazem o que nenhum celestial dispõe-se a fazer. A terceira facção é a dos autônomos, que invejam secretamente mas recusam-se a assimilar a nossa cultura, postando-se agressivamente contra ela, ao ponto da manifestação violenta. O desafio de Gandhi, segundo De la Mettrie, é o de equilibrar os três pratos invisíveis dessa balança.

– E ele está conseguindo?

– Ele pode responder melhor do que eu – Glenn mostra-me as mãos espalmadas.

– Então chegou a hora – fico de pé num único gesto e estendo a mão para ajudar meu amigo a levantar. – Vamos ver o que um homem santo tem a dizer a este pecador.

Ele hesita por um momento mas aceita minha mão. Quando estamos os dois em pé tomo os óculos de sobre o capô e aperto solenemente contra os dedos da sua mão direita.

– Só mais uma coisa – falo com firmeza, recusando-me a soltar os óculos por instante. Instintivamente sabemos que este é o sacramento que vai definir nossa relação daqui em diante. – Você disse no celular que queria falar comigo por causa do bilhete que Sahid deixou para mim antes de ir para o inferno. É sobre isso que Gandhi quer falar comigo? É sobre o bilhete?

– É.

– Você sabe o que diz o bilhete?

– Não – e logo em seguida: – Mas sei o que ele continha.

– Como assim?

Solto os óculos e Glenn Miller faz com que desapareçam na concha da mão e depois no bolso da camisa.

– Não sei exatamente o que o bilhete dizia – ele fala devagar, fitando-me firmemente nos olhos, – mas sei sobre o que falava. Os guichês do Delta, em que as pessoas deixam para trás as lembranças que não querem trazer consigo para o Paraíso. Na Catraca.

– Sim, é lógico que sei dos guichês. Que têm eles?

– Já ouvi você orgulhar-se mais de uma vez de ser umas das poucas pessoas que passaram por ali sem deixar nenhuma lembrança dos seus anos mortais para trás – ele respira fundo, depositando com cuidado uma mão no meu ombro. – Pois no seu caso não é verdade.

22 de Abril de 2008

Segredos e mentiras [6]

Irmãos Comédia

21 de Abril de 2008

Enoque, governante e mestre

Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: Enoque, governante e mestre

Depois de viver por um longo tempo afastado dos homens, Enoque ouviu certa ocasião um anjo que o chamava:

– Enoque, Enoque, prepare-se e abandone a casa e o lugar secreto em que você tem se escondido, e assuma autoridade sobre os homens, para ensinar-lhes os caminhos em que devem andar e as obras que devem praticar a fim de viverem em conformidade com Deus.

Enoque abandonou sua reclusão e foi até aos locais freqüentados pelos homens, juntou-os ao redor de sim e instruiu-os na conduta agradável a Deus. Mandou mensageiros a todos os lugares para anunciar: “Vocês que desejam conhecer os caminhos de Deus e uma conduta íntegra, venham até Enoque!”

Por causa disso um vasto número de pessoas congregou-se ao redor dele, a fim de ouvirem a sabedoria que ele estava pronto a ensinar e aprenderem da sua boca o que é certo e errado. Até mesmo reis e príncipes, nada menos do que trinta deles, uniram-se a Enoque e submeteram-se à sua autoridade, para serem ensinados e guiados por ele da mesma forma que ele ensinava e guiava os demais.

Dessa forma a paz reinou sobre o mundo durante os duzentos e quarenta e três anos em que a influência de Enoque prevaleceu.

Ao final desse período, no ano em que Adão morreu e foi enterrado com grandes honras por Sete, Enos, Enoque e Matusalém, Enoque resolveu retirar-se novamente da convivência dos homens e devotar-se exclusivamente ao serviço de Deus. Ele porém recolheu-se gradualmente: no começo ele passava três dias em oração e louvor a Deus, e no quarto dia voltava até seus discípulos e oferecia-lhes instrução. Muitos anos se passaram dessa forma: ele passou a vê-los uma vez por semana, depois uma vez por mês e finalmente um vez por ano.

Os reis, príncipes e todos os outros que ansiavam por ver Enoque e ouvir suas palavras não ousavam aproximar-se dele durante os seus períodos de recolhimento. Tamanha era a majestade que descia sobre seu rosto que eles não olhavam para ele, temendo por suas vidas. Eles portanto decidiram que todos os homens deveriam apresentar suas questões diante de Enoque no dia em que ele aparecesse entre eles.

Era poderosa a a impressão deixada pelo ensino de Enoque sobre os que o ouviam. Prostravam-se todos diante dele e exclamavam:

– Longa vida ao rei! Longa vida ao rei!

Certo dia, enquanto Enoque dava audiências a seus seguidores, um anjo apareceu e lhe fez saber que Deus havia decidido estabelecê-lo como rei sobre todos os anjos da terra, já que até aquele momento ele havia reinado sobre homens. Enoque convocou todos os habitantes da terra e disse-lhes assim:

– Fui chamado para subir ao ceu, e não sei o dia em que deverei ir para lá. Irei portanto ensiná-los sabedoria e integridade até a hora de partir.

Mais alguns dias Enoque passou entre os homens, e durante todo o tempo que lhe restou deu-lhes instrução referente à sabedoria, ao conhecimento, a uma conduta de temor a Deus e à devoção, e estabeleceu lei e ordem para regulamentar as relações humanas. Então os que estavam reunidos ao seu redor viram um gigantesco corcel descer do céu, e falaram dele a Enoque, que respondeu:

– Este cavalo é para mim, pois chegou o dia e a hora de eu deixá-los para nunca mais ser visto.

E assim foi. O corcel aproximou-se de Enoque e ele montou, sem cessar ao mesmo tempo de instruir o povo, exortando-os e conclamando a que servissem a Deus e andassem em seus caminhos. Oitocentas mil pessoas seguiram-no ao longo de um dia inteiro; porém no segundo dia Enoque insistiu que seu séquito desse meia-volta:

– Vão para casa, para que a morte não lhes sobrevenha por me seguirem mais adiante.

A maioria deu ouvidos às suas palavras e deu meia-volta, mas alguns permaneceram com ele por seis dias, mesmo depois dele os ter advertido a voltarem para não morrerem. No sexto dia da jornada ele disse aos que o acompanhavam:

– Vão para casa, por que amanhã subirei ao céu, e qualquer um que estiver perto de mim morrerá.

Apesar disso alguns de seus companheiros permanecerem ao lado dele:

– Para onde você for nós iremos. Pelo Deus vivo, apenas a morte nos separará.

No sétimo dia Enoque foi levado ao céu numa carruagem de fogo puxada por cavalos flamejantes. No dia seguinte os reis que haviam dado meia-volta a tempo mandaram mensageiros para inquirir o destino dos homens que haviam se recusado a separar-se de Enoque, pois tinham anotado quantos eram. No local a partir do qual Enoque havia ascendido eles encontraram neve e enormes pedras de granizo e, quando cavaram para procurar, acharam os corpos de todos que haviam ficado para trás com Enoque. Apenas Enoque não estava entre eles: estava no alto, no céu.

Foto Júlio Diniz

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

20 de Abril de 2008

A alma que me cabe

Manuscritos

– Os conservadores e reformados – disse o dono do haras ao jangadeiro – afirmam que a missão é fazer com que as pessoas abracem o nome do seu mestre de modo a evitarem o inferno e ganharem o céu; para eles, trata-se de salvar as almas não para este mundo, que é irremediável, mas para a vida eterna. Os liberais e libertários afirmam que a missão é transformar este mundo a partir do exemplo revigorante do seu mestre, de modo a construir nesta vida uma estirpe honorária de céu; para eles, trata-se menos de prometer o reino de Deus para a vida futura do que implementá-lo contra todos os impedimentos nesta existência. Qual é a sua opinião? Qual dos dois pensamentos está certo?

O jangadeiro terminou de fazer o nó que o incomodava e aspirou a maresia.

– O que sei sobre a vida eterna é que ela é para ser um presente, e presente a gente não deve cobrar e não deve esperar. O mesmo, você deve entender, posso dizer desta vida. A vida futura que deve me ocupar é o momento seguinte, porque o momento seguinte depende do que faço neste. Salvar as pessoas ou transformar o mundo? Se você pensar, qualquer um desses seria fácil demais, porque tanto o mundo quanto as pessoas estão fora de mim; a metamorfose deles nada exige de mim e para mim nada implica além daquilo em que me beneficia. O desafio do legado de Jesus é eu transformar a mim mesmo. É natural que transformando a mim mesmo estarei transformando o mundo, mas essa não é a questão. A alma que me cabe salvar continuamente é a minha.

18 de Abril de 2008

Ele tinha o mundo natural aos seus pés

Manuscritos

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Ele tinha o mundo natural aos seus pés e Deus à sua mão esquerda, mas para o homem o processo da criação só completou-se depois dele mesmo, com o seu encontro com a mulher. Não é nem mesmo necessário examinar o antigo problema de interpretação que procura distinguir ou conciliar as duas narrativas da criação, a primeira em que homem e mulher são formados ao mesmo tempo (Gênesis 1) e a outra em que a mulher é moldada depois e a partir do homem (Gênesis 2). No que diz respeito ao problema do isolamento fundamental do ser humano, o momento importante é aquele em que Adão se defronta com a categoria distinta de uma companheira.

O primeiro homem tinha os pés fincados no mundo finito do Éden e o coração alçado ao mundo infinito de Deus, mas o universo é impossível de articular e de apreender sem que se tenha um verdadeiro interlocutor – isto é, a ilha só passa a existir quando Robinson Crusoé encontra Sexta-Feira.

Deus era o Manufaturador e portanto o Pai; permanecia essencialmente Outro, perpetuamente inacessível e auto-suficente e, portanto, perpetuamente insuficiente. Adão carecia de um Outro-que-fosse-ele-mesmo, alguém com quem pudesse compartilhar a experiência do mundo e dessa forma tornar o mundo compreensível para si mesmo. A sua exclamação inicial – “Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos!” – é emblema dessa sua entusiasmada percepção essencial. Antes da mulher Adão não tinha ferramentas para perceber sequer a sua condição de carne e de ossos. Eva é o espelho em que ele se vê pela primeira vez. É também o espelho que o levará a decifrar e codificar o mundo, pela mágica precária da interlocução e da linguagem.

Agora o homem pode sair pelo mundo e dizer “olhe aquilo!”, com a esperança de encontrar em outro coração a mesma maravilha que brotou no seu. A companheira tornava a maravilha concebível, e o universo pode ser mapeado.

Para o homem o mundo encontrou a completude com a entrada em cena da mulher. Para Deus ainda faltava uma coisa.