Manuscritos estocados em Abril do Anno 2008 de Nosso Senhor
30 de Abril de 2008

Letes

Manuscritos

Duas ou três frases depois, sem nenhuma revelação adicional, entramos no carro e ele desperta o Peugeot. Como quem lê incessantemente um páragrafo que não consegue vencer, contemplo pela janela aberta a procissão de descampados alaranjados ao longo da estrada.

Encontrei um fragmento da verdade e agora não sei o que fazer com ela além de revirar os seus lados cegos, sem ter por onde segurar. Tudo que Glenn sabe me dizer é que o me repetiu quando insisti: o bilhete de Sahid endereçado a mim, o bilhete que muitos leram mas nunca chegou-me às mãos, revela uma recordação que já me pertenceu mas não trago mais comigo. Aparentemente eu não só não entrei no céu trazendo todas as memórias relevantes dos meus dias mortais, como ainda apaguei da memória o próprio fato de ter deixado alguma lembrança para trás.

A essa condição, que é forçosamente comum no Paraíso, damos o nome de anosognosia. Na terra o termo aplicava-se à curiosidade neurológica do paciente que desconhece que perdeu uma faculdade que já possuiu; no caso clássico, uma pessoa fica cega por causa de algum trauma na cabeça, e a mesma lesão que lhe rouba a vista nega-lhe a consciência de que perdeu a visão.

A maior parte dos que entram no Paraíso guardam a consciência de que deixaram alguma lembrança para trás nos guichês da Catraca. Não sabem o que esqueceram, mas sabem que esqueceram; sua própria inabilidade infantil de lidar com determinadas situações deixa essa lacuna muito evidente, pelo que a maioria dos ingressantes requer um longo período de reabilitação. Alguns, no entanto, desconhecem que esqueceram.

Ninguém espera ser apanhado em anosognosia, muito menos eu. Ainda acho difícil acreditar que não tenha passado inteiro e formidável pela Catraca; não eu, não o Ciro. Penso nos funcionários da Triagem que, quando ninguém está olhando, dão à fila ordenada de postos de coleta na base do Delta o nome de Letes, o rio do inferno cuja água apaga as memórias de quem a bebe. Não consigo imaginar o que poderia me dobrar a provar a água do esquecimento; a notícia que faz minha cabeça girar é que parece que bebi pelo menos uma gota ou duas, e nem disso me recordo.

Aceito voluntariamente o vento que me açoita o rosto. A revelação é espetacular, mas devo lembrar das complicações que vem embutidas no seu rastro. Se de fato deitei alguma recordação nos guichês do Delta, Sahid não teria como saber. Ninguém tem acesso ao centro de reciclagem subterrâneo do Delta, onde vão parar as lembranças derrubadas nas caixas de coleta. Na verdade a própria noção de “centro de reciclagem” é um conceito teológico; não se sabe quem recicla ou para quê, e não se sabe como as memórias são recuperadas depois de três dias no inferno.

O que devo tomar como certo é que Sahid não teria acesso às minhas recordações (ou as de quem quer que seja), a não ser que trouxéssemos memórias compartilhadas da nossa experiência mortal. Onde e até que ponto nossos caminhos se cruzaram antes da eternidade não tenho como saber, e é este o anzol da minha condição. Outro ponto que absolutamente não devo deixar de levar em conta é que, qualquer que seja a revelação que o bilhete traz a meu respeito, acabou despertando uma reação espantosa em todos que tiveram em contato com o seu conteúdo. Não é de fato impossível que tenha levado mais ou menos diretamente o Ermitão à estremadura voluntária. O que pode ser tão importante?

Ainda, e isto me incomoda particularmente, se Sahid tinha uma revelação tão espetacular a me fazer, por que não desceu dois andares até a minha sala e falou diretamente comigo? Por que não me telefonou? Impossível dizer quanto trabalho isso teria evitado. Como já me disse Cortiano mais de uma vez, o caos do inferno é o simples resultado de incompetência administrativa. Sou material para um estudo de caso, apenas não sei o quanto.

Glenn Miller já estacionou o Peugeot e percebo, incrivelmente, que chegamos. Uma enorme cidade temporária alarga-se planície adentro até onde a vista alcança; não vejo nenhuma casa, mas a paisagem pulula de barracos, tendas, barracas, pavilhões, trailers, carroças, vagões e torres. E gente, mais encarnados do que já vi em toda a minha existência no Paraíso, andando tranqüilamente por ali em atividades domésticas cuja natureza não sei precisar; mas não são eles que me fazem perder o fôlego.

Saímos os dois do Peugeot e Glenn tira imediatamente os sapatos e as meias. Isso não preciso fazer; meus pés decalços avançam pela areia vermelha e grossa em direção ao portão aberto do campo de refugiados. Na entrada, em pé em cima de uma caixa de madeira à minha direita, está um homem ruivo e barbudo; ele toca violão e canta, em voz áspera, ágil e sonora, num idioma que não consigo identificar. O sujeito sorri enquanto canta e há algo incompreensível no otimismo primal e infantil com que seus olhos brilham diante da morte (é uma canção de amor), algo que me dá vontade de derrubá-lo dali e ordenar que pare. Mas estou paralisado, porque o homem ruivo que canta não é um encarnado, tem a pele muito clara de um inglês ou escocês.

À medida que caminho sozinho acampamento adentro vai ficando óbvio que há neste lugar quase tantos cidadãos do paraíso quanto imigrantes do inferno. Abrem caminho para minha passagem celestiais de todas as raças andando de braços dados com encarnados de pele rubra. Evidentemente não é apenas Gandhi, não é apenas Glenn Miller ou a meia dúzia que achei ter vislumbrado na entrada, que acabaram abraçando a causa improvável dos encarnados. Uma multidão de celestiais que deveria estar adornando shopping centers e ofurôs está aqui atarefada e descalça trabalhando com os ilegais. Eis uma coisa, pondero, que não mostram nos documentários da televisão.

As pessoas param por um instante para me deixar passar e me olham com alguma reverência; depois de um instante concluo que deve ser por causa das manchas de sangue na minha camisa.

– Gandhi está aqui – é Glenn Miller segurando-me pelo braço, indicando um homem em pé à minha esquerda.

29 de Abril de 2008

Segredos e mentiras [7]

Irmãos Comédia

28 de Abril de 2008

Céu e inferno

Traduzindo Borges

O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações ressurgirem do pó para acatar a Boca inapelável, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra do arqueiro persegue a sombra da corça, eternamente; nem a loba de fogo que no piso inferior dos infernos muçulmanos é anterior a Adão e aos castigos; nem metais violentos, nem sequer a treva visível de John Milton. Um odioso labirinto de tríplice ferro e fogo doloroso não oprimirá as almas atônitas dos réprobos.

Tampouco o fundo dos anos guarda um remoto jardim. Deus não precisa para alegrar os méritos do justo de esferas de luz, concêntricas teorias de tronos, potestades e querubins, nem o espelho ilusório da música nem as profundidades da rosa nem o esplendor desafortunado de um só de seus tigres, nem a delicadeza de um pôr-do-sol amarelo no deserto nem o sabor antigo e natal da água. Em sua misericórdia não há jardins nem luz de uma esperança ou de uma recordação.

Na janela de um sonho vislumbrei os prometidos Céu e Inferno: quando o juízo retumbar nas trombetas últimas e o planeta milenar for obliterado e bruscamente cessar o Tempo, as efêmeras pirâmides de cores e linhas do teu passado definirão na treva um rosto adormecido, imóvel, fiel, inalterável (talvez o da amada, quem sabe o teu) e a contemplação desse imediato rosto incessante, intato, incorruptível será, para os réprobos, Inferno; para os eleitos, Paraíso.

Jorge Luis Borges, Poemas (1954)

25 de Abril de 2008

Dois ou três personagens não bastam

Manuscritos

15

Dois ou três personagens não bastam, o palco está vazio até que nasça o conflito; e de todos os conflitos o mais imediato, o mais cru e primal e o mais entranhado na carne narrativa da humanidade, do que dão testemunho as heranças folclóricas de todas as culturas, é a proibição.

Em termos literários, e portanto históricos, não há modo mais eficaz de fazer avançar a narrativa do que colocar o protagonista diante de uma interdição. João e Maria não devem entrar sozinhos na floresta escura, os puros de coração não devem usar o Anel do Poder, ser humano algum pode voar, o homem não pode chegar à Lua.

Mas não por muito tempo, blasfemam a Narrativa e a História, por que ninguém permanece indefinidamente em pé diante da atração irresistível da transgressão.

Era o dia ou a véspera de Natal de 1984 quando assisti a Gremlins, de Joe Dante, pela primeira vez. Desapareci no sacramento da escuridão, e dali vi o protagonista receber um presente de Natal extraordinário, uma maravilha, um animal de fábula invadindo o tecido do século XX. Porém, como todo herói, o protagonista é imediatamente lembrado de que nenhum presente é inequivocamente propício, porque vem embalado em responsabilidades que se mostrarão embaraçosas ou terríveis. O pequeno mogwai de Gremlins vinha acompanhado de três recomendações simples: o rapaz não deveria expor o animalzinho à luz intensa (especialmente a luz do sol), não deveria deixar que ele se molhasse e nunca – absolutamente nunca – deveria alimentá-lo depois da meia-noite.

É com irrestrito deleite que a audiência acompanha quando são proferidas e repetidas essas proibições, porque nós que acompanhamos a história sabemos – absolutamente sabemos – que cada uma delas será espetacularmente transgredida, e cada uma delas colaborará à sua maneira para a acentuação do conflito e (portanto) o desdobramento da história.

O conteúdo de toda proibição é necessariamente arbitrário; “nunca coma esta fruta” faz tanto sentido dramático quanto “nunca ande sozinho na floresta” ou “nunca visite a ala oeste do castelo”. O conteúdo da interdição tem pouca importância, porque sua função é mecânica: levar a engrenagem da história a conectar-se com o dente seguinte.

Não faz diferença se se passaram dez mil anos ou cinco minutos de bem-aventurança até o homem apertar o fruto proibido entre os lábios. A transgressão veio à luz, como sempre acontece, no exato momento em que nasceu a proibição. A Narrativa sabe disso, Deus não tinha como deixar de saber.

24 de Abril de 2008

Cavalo

Ilustração