Uma questão de relevância estendida
Manuscritos
Clássico é aquele livro que uma nação ou um grupo de nações ou o extenso tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem fim. Não é, repito, uma obra que possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações dos homens, impelidas por diversas razões, lêem com prévio fervor e com misteriosa lealdade.
Jorge Luis Borges, Sobre os clássicos (1952)
Ou talvez sim, parte da resposta talvez esteja na Bíblia – porque, até certo ponto, foi o texto bíblico que ensinou (ou desafiou) os homens a interpretarem o texto bíblico.
Mesmo os que asseguram que a Bíblia tem um único autor não negarão o fato de que o livro não foi escrito de uma única sentada. Fica claro que, em muitos sentidos, a composição do livro foi um processo, uma longa agonia em que o responsável por cada pequena porção deixou uma contribuição que, na maior parte das vezes, procurava não ignorar o que já havia sido dito. Os estatutos legais deitados nos livros de Êxodo e Levítico, por exemplo, são retabulados e expandidos, com diferentes ênfases, em Deuterônomio; as mesmas leis são interpretadas de maneira inusitada, mas não totalmente arbitrária, pelos profetas – mil páginas ou anos depois. A isso, que os teólogos chamam de revelação progressiva, alguns estudiosos do mesmo texto vêem como evidência de um longo processo de transmissão, adaptação e reutilização de um grupo central de tradições.
É como um arquivo do Word que um autor (ou grupo de autores) passasse a vida reescrevendo e que mais tarde, por amor ao texto ou lealdade ao processo, fosse publicado com todas revisões, notas, correções e versões alternativas colocadas lado a lado e umas sobre as outras, sem qualquer prioridade e sem revisor ortográfico.
A Bíblia é na verdade um exemplo ancestral do que veio a se chamar hipertexto – texto cheio de referências internas, reflexões sobre o seu próprio conteúdo, links que apontam para passagens passadas e futuras dentro da mesma obra, pontuadas releituras, adendos e reexposições. Essa condição de colcha de retalhos confere ao texto bíblico uma feição que seria anacrônico, mas não impreciso demais, chamar de pós-moderna.
Dito de outra forma, a Bíblia – tomada como um tudo e mesmo em cada uma de suas partes – interpreta constantemente a si mesma. Não é de estranhar que seus métodos internos de interpretação, muitos deles nada convencionais para os padrões contemporâneos, tenham sido tomados como inspiração (e ao mesmo tempo como limite) para os intérpretes de todas as épocas.
Essas instâncias de exegese intra-bíblica assumem as formas mais diversas. A menos ambiciosa, mas não menos comum, é a glosa ou explicação, que tem a função de nota de rodapé mas é inserida no texto principal. Supõe-se que a maior parte das glosas tenha sido acrescentada nas margens do texto por copistas bem intencionados que queriam esclarecer o significado de alguma passagem ou palavra obscura, e que suas inserções foram copiadas obedientemente por outros copistas bem-intencionados mas menos aventurosos. Josué 18:13, por exemplo, menciona a cidade chamada Luz, e uma glosa (hoje diríamos geotag) esclarece “que é Betel”; em Ester 3:7 uma interpolação esclarece o significado de uma palavra estrangeira: “se lançou Pur, isto é, a sorte”. Outras vezes, como em Isaías 29:10, as inserções não apenas esclarecem, mas afetam de modo substancial o sentido da passagem a que se referem.
Outro modo de interpretação intra-bíblica é a reexposição de material: passagens ou livros inteiros que contam a mesma história ou apresentam a mesma tradição de modo sutilmente (e às vezes nada sutilmente) diverso. Os livros de Crônicas recontam os livro de Samuel e de Reis, derramando uma luz muito peculiar (para não dizer revisionista) sobre episódios conhecidos; Deuteronômio recapitula seletivamente e fornece uma releitura de leis apresentadas em Êxodo; Jeremias 17:21-22 confere um peso inédito a um dos dez mandamentos, e assim por diante.
Essas glosas e reexposições, mesmo em suas manifestações mais singelas, demonstram sem deixar dúvida que explicar é interpretar.
E, finalmente, há a interpretação constante dos óraculos dos profetas – acompanhada da constante revisão do que é de fato oracular nos profetas, ou até mesmo de quais são os profetas (e conseqüentemente seus oráculos). Não apenas os autores do Novo Testamento encontram interpretações inéditas para passagens proféticas do Antigo, mas os livro de Daniel e de Crônicas, por exemplo, interpretam à sua maneira passagens diferentes do livro de Jeremias.
A conversa de um texto bíblico com todos os outros parece não ter fim; não deveria parecer injusto, mesmo para quem não aceita a autoridade dele, que tanto material diverso tenha encontrado um fim entre as capas de um mesmo livro.
Porém todos esses modos de interpretação bíblica (bem como seus herdeiros históricos) servem a um propósito secreto, o de estender a relevância da mensagem divina ao longo dos milênios. O desafio que as gerações de intérpretes enxergaram diante de si era duplo: [1] preservar os textos recebidos como foco intelectual de empreendimentos religiosos, e [2] assegurar ao mesmo tempo que esses textos se mantivessem relevantes para as comunidades contemporâneas.
A Bíblia e a história de sua interpretação encerram, portanto, uma ambiciosa experiência de relevância estendida. Interpretar a Bíblia é, num sentido muito essencial, a atividade de dirigir-se às gerações do presente por intermédio de textos do passado. Neste processo os textos antigos são consistentemente honrados, mas ao mesmo tempo, constantemente transformados pela interpretação que nasce para mantê-los relevantes (Esther Menn).
A história da interpretação bíblica é essa experiência inconclusa. Seu objeto é verificar até que ponto na história um corpo fechado de textos pode produzir associações relevantes para gerações contemporâneas que se sucedem sem clemência. Sua hipótese, que propõe-se incessamente a testar, é que as palavras sejam um corpo mortal habitado por um espírito imortal.
Como parte da experiência, em todas as igrejas são lidas ainda hoje passagens retiradas do mesmo livro ou corpo de livros, escrito há tanto tempo que ninguém sabe precisar quando foi. Porém, com a passagem dos milênios, o desafio não reside mais, incrivelmente, no texto; o verdadeiro peso recai sobre as mãos do intérprete. Cabe a ele estender a voz divina, cobrindo impensáveis distâncias culturais e semânticas, até que essa seja capaz de tocar de modo relevante a situação presente.
O quanto ou por quanto tempo essa extensão de relevância pode ser feita de modo natural ou legítimo, a experiência não soube ainda precisar. Ou, para ser mais exato, os cientistas dividem-se na hora de interpretar os dados.
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Palavra por palavra
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