Manuscritos estocados em Março do Anno 2008 de Nosso Senhor
26 de Março de 2008

Uma questão de relevância estendida

Manuscritos

Clássico é aquele livro que uma nação ou um grupo de nações ou o extenso tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem fim. Não é, repito, uma obra que possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações dos homens, impelidas por diversas razões, lêem com prévio fervor e com misteriosa lealdade.
Jorge Luis Borges, Sobre os clássicos (1952)

Ou talvez sim, parte da resposta talvez esteja na Bíblia – porque, até certo ponto, foi o texto bíblico que ensinou (ou desafiou) os homens a interpretarem o texto bíblico.

Mesmo os que asseguram que a Bíblia tem um único autor não negarão o fato de que o livro não foi escrito de uma única sentada. Fica claro que, em muitos sentidos, a composição do livro foi um processo, uma longa agonia em que o responsável por cada pequena porção deixou uma contribuição que, na maior parte das vezes, procurava não ignorar o que já havia sido dito. Os estatutos legais deitados nos livros de Êxodo e Levítico, por exemplo, são retabulados e expandidos, com diferentes ênfases, em Deuterônomio; as mesmas leis são interpretadas de maneira inusitada, mas não totalmente arbitrária, pelos profetas – mil páginas ou anos depois. A isso, que os teólogos chamam de revelação progressiva, alguns estudiosos do mesmo texto vêem como evidência de um longo processo de transmissão, adaptação e reutilização de um grupo central de tradições.

É como um arquivo do Word que um autor (ou grupo de autores) passasse a vida reescrevendo e que mais tarde, por amor ao texto ou lealdade ao processo, fosse publicado com todas revisões, notas, correções e versões alternativas colocadas lado a lado e umas sobre as outras, sem qualquer prioridade e sem revisor ortográfico.

A Bíblia é na verdade um exemplo ancestral do que veio a se chamar hipertexto – texto cheio de referências internas, reflexões sobre o seu próprio conteúdo, links que apontam para passagens passadas e futuras dentro da mesma obra, pontuadas releituras, adendos e reexposições. Essa condição de colcha de retalhos confere ao texto bíblico uma feição que seria anacrônico, mas não impreciso demais, chamar de pós-moderna.

Dito de outra forma, a Bíblia – tomada como um tudo e mesmo em cada uma de suas partes – interpreta constantemente a si mesma. Não é de estranhar que seus métodos internos de interpretação, muitos deles nada convencionais para os padrões contemporâneos, tenham sido tomados como inspiração (e ao mesmo tempo como limite) para os intérpretes de todas as épocas.

Essas instâncias de exegese intra-bíblica assumem as formas mais diversas. A menos ambiciosa, mas não menos comum, é a glosa ou explicação, que tem a função de nota de rodapé mas é inserida no texto principal. Supõe-se que a maior parte das glosas tenha sido acrescentada nas margens do texto por copistas bem intencionados que queriam esclarecer o significado de alguma passagem ou palavra obscura, e que suas inserções foram copiadas obedientemente por outros copistas bem-intencionados mas menos aventurosos. Josué 18:13, por exemplo, menciona a cidade chamada Luz, e uma glosa (hoje diríamos geotag) esclarece “que é Betel”; em Ester 3:7 uma interpolação esclarece o significado de uma palavra estrangeira: “se lançou Pur, isto é, a sorte”. Outras vezes, como em Isaías 29:10, as inserções não apenas esclarecem, mas afetam de modo substancial o sentido da passagem a que se referem.

Outro modo de interpretação intra-bíblica é a reexposição de material: passagens ou livros inteiros que contam a mesma história ou apresentam a mesma tradição de modo sutilmente (e às vezes nada sutilmente) diverso. Os livros de Crônicas recontam os livro de Samuel e de Reis, derramando uma luz muito peculiar (para não dizer revisionista) sobre episódios conhecidos; Deuteronômio recapitula seletivamente e fornece uma releitura de leis apresentadas em Êxodo; Jeremias 17:21-22 confere um peso inédito a um dos dez mandamentos, e assim por diante.

Essas glosas e reexposições, mesmo em suas manifestações mais singelas, demonstram sem deixar dúvida que explicar é interpretar.

E, finalmente, há a interpretação constante dos óraculos dos profetas – acompanhada da constante revisão do que é de fato oracular nos profetas, ou até mesmo de quais são os profetas (e conseqüentemente seus oráculos). Não apenas os autores do Novo Testamento encontram interpretações inéditas para passagens proféticas do Antigo, mas os livro de Daniel e de Crônicas, por exemplo, interpretam à sua maneira passagens diferentes do livro de Jeremias.

A conversa de um texto bíblico com todos os outros parece não ter fim; não deveria parecer injusto, mesmo para quem não aceita a autoridade dele, que tanto material diverso tenha encontrado um fim entre as capas de um mesmo livro.

Porém todos esses modos de interpretação bíblica (bem como seus herdeiros históricos) servem a um propósito secreto, o de estender a relevância da mensagem divina ao longo dos milênios. O desafio que as gerações de intérpretes enxergaram diante de si era duplo: [1] preservar os textos recebidos como foco intelectual de empreendimentos religiosos, e [2] assegurar ao mesmo tempo que esses textos se mantivessem relevantes para as comunidades contemporâneas.

A Bíblia e a história de sua interpretação encerram, portanto, uma ambiciosa experiência de relevância estendida. Interpretar a Bíblia é, num sentido muito essencial, a atividade de dirigir-se às gerações do presente por intermédio de textos do passado. Neste processo os textos antigos são consistentemente honrados, mas ao mesmo tempo, constantemente transformados pela interpretação que nasce para mantê-los relevantes (Esther Menn).

A história da interpretação bíblica é essa experiência inconclusa. Seu objeto é verificar até que ponto na história um corpo fechado de textos pode produzir associações relevantes para gerações contemporâneas que se sucedem sem clemência. Sua hipótese, que propõe-se incessamente a testar, é que as palavras sejam um corpo mortal habitado por um espírito imortal.

Como parte da experiência, em todas as igrejas são lidas ainda hoje passagens retiradas do mesmo livro ou corpo de livros, escrito há tanto tempo que ninguém sabe precisar quando foi. Porém, com a passagem dos milênios, o desafio não reside mais, incrivelmente, no texto; o verdadeiro peso recai sobre as mãos do intérprete. Cabe a ele estender a voz divina, cobrindo impensáveis distâncias culturais e semânticas, até que essa seja capaz de tocar de modo relevante a situação presente.

O quanto ou por quanto tempo essa extensão de relevância pode ser feita de modo natural ou legítimo, a experiência não soube ainda precisar. Ou, para ser mais exato, os cientistas dividem-se na hora de interpretar os dados.

25 de Março de 2008

Segredos e mentiras [4]

Irmãos Comédia

24 de Março de 2008

A queda dos anjos

Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: A queda dos anjos

A depravação da humanidade, que começou a manifestar-se no tempo de Enos, havia se multiplicado enormemente no tempo de seu neto Jarede, devido à queda dos anjos. Quando viram as belas e atraentes filhas dos homens, os anjos cobiçaram-nas, e disseram:

– Tomaremos esposas apenas dentre as filhas dos homens, e geraremos filhos com elas.

Seu líder Shemhazai disse:

– Temo por mim que vocês não coloquem esse plano de vocês em execução, e seja apenas eu a sofrer as conseqüências de um grande pecado.

E eles todos responderam:

– Faremos um juramento, comprometendo-nos individualmente e em grupo a não abandonarmos o plano, mas levá-lo a cabo.

Duzentos anjos desceram ao cume do monte Hermom, que deve seu nome a esta precisa ocasião, pois os anjos haviam jurado cumprir seu propósito sob pena de Herem/anátema. Sob a liderança de vinte capitães eles se macularam com as filhas dos homens, às quais ensinaram feitiços, encantos, o modo correto de se cortar raízes e a eficácia das plantas. O resultado desses casamentos mistos foi uma raça de gigantes de três mil varas1 de altura, os quais consumiram os recursos dos homens. Quando todas as reservas haviam se esgotado, e vendo que não podiam obter mais nada deles, os gigantes voltaram-se contra os homens e devoraram muitos deles, e o restante dos homens começou a transgredir contra as aves, animais selvagens, répteis e peixes, comendo sua carne e bebendo seu sangue.

A terra então protestou contra esses malfeitores, mas os anjos decaídos continuaram a corromper a humanidade. Azazel ensinou os homens a fazerem facas, armas, escudos e cotas de malha para usarem em carnificinas. Mostrou-lhes os metais e como trabalhá-los, bem como pulseiras e toda espécie de quinquilharias; ensinou-os a usar ruge nos olhos e a embelezarem os cílios, e a se enfeitarem com as jóias mais raras e preciosas e toda sorte de tintas. O chefe dos anjos caídos, Shemhazai, instruiu-os a respeito de exorcismos e da técnica de cortar raízes; Armaros ensinou-os a conjurar feitiços; Barakel, a divinação pelas estrelas; Kawkabel, a astrologia; Ezekil, a augurar através das nuvens; Arakiel, a ler os sinais da terra; Samsawil, os sinais do sol; e Seriel, os sinais da lua.

Enquanto todas essas abominações corrompiam a terra, o piedoso Enoque vivia num lugar secreto. Ninguém dentre os homens conhecia seu local de residência, ou sabia o que havia acontecido com ele, pois ele habitava com os anjos sentinelas e os santos. Certa ocasião ele ouviu uma voz endereçada a ele:

– Enoque, você que é um escriba de integridade, vá até os sentinelas do céu, que abandonaram o alto céu, o lugar de eterna santidade, a fim de se contaminarem com mulheres, fazendo o que homens fazem, tomando esposas para si e entregando-se nos braços da destruição sobre a terra. Vá e anuncie a eles que não encontrarão paz nem perdão; todas as vezes que tiverem alegria em sua descendência eles verão a morte violenta dos seus filhos, e suspirarão diante da ruína de suas crianças. Orarão e suplicarão para sempre, mas jamais obterão misericórdia ou paz.

Enoque foi até Azazel e os demais anjos caídos, a fim de anunciar a condenação proferida contra eles. Ficaram todos apavorados; tomados de tremor, imploraram a Enoque que preparasse para eles uma petição e fosse lê-la para o Senhor do céu, pois eles não podiam falar com Deus como antes, nem levantar os olhos para o céu, por vergonha diante dos seus pecados.

Enoque fez o que eles pediam, e numa visão foi-lhe concedida a resposta que ele deveria levar de volta aos anjos. Em sua visão Enoque foi elevado ao céu sobre nuvens, e colocado diante do trono de Deus. Deus disse:

– Vá e diga aos sentinelas do céu que o mandaram para interceder por eles: “Na verdade eram vocês que deveria pedir em favor dos homens, não homens em favor de vocês. O que levou vocês renegaram os céus elevados, santos e eternos, e poluir-se com as filhas dos homens, tomando-as como esposas, fazendo como as raças da terra e gerando gigantes? Os gigantes gerados pela união de seres de carne e seres espirituais serão chamados na terra de espíritos malignos, e a terra será a habitação deles. Espíritos malignos procederão de seus corpos, pois foram criados do alto, e os santos sentinelas são seu princípio e sua origem; serão espíritos malignos sobre a terra, e de espíritos malignos serão chamados. Os espíritos do céu têm o céu por habitação, mas a habitação dos espíritos da terra, nascidos sobre a terra, é a terra. Os espíritos dos gigantes irão devorar, oprimir, atacar, guerrear e causar destruição sobre a terra, e infligirão tormento. Não consumirão nenhuma espécie de comida, tampouco terão sede, e serão invisíveis. Esses espíritos se levantarão contra os filhos dos homens e contra as mulheres, porque procederam delas. Desde os dias do assassinato e da destruição e da morte dos gigantes, momento em que os espíritos abandonarem a alma de sua carne, a fim de destruírem sem incorrerem em julgamento – assim eles destruirão até o dia em que seja consumada a grande consumação do grande mundo”. Agora, quanto aos sentinelas que o enviaram para interceder por eles, que residiam anteriormente no céu, diga a eles: “Vocês estavam no céu, e embora as coisas ocultas não tivesse ainda sido reveladas a vocês, vocês conhecem mistérios sem valor, e na dureza do seu coração repassaram esses mistérios para as mulheres, e através deles homens e mulheres ocasionam muita maldade sobre a terra”. Diga portanto a eles: “Vocês não tem paz!”

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

NOTAS
  1. Uma vara (inglês ell) tem 45 polegadas ou 1.143m. []
21 de Março de 2008

De todos os detalhes

Manuscritos

20 de Março de 2008

Caligrafia no Inkscape

Ilustração, Recomendações

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

Baixei ontem e brinquei um pouco com a versão beta, em fase de teste, do Inkscape 0.46.

O Inkscape é um programa de desenho vetorial como o Corel DRAW ou o Illustrator, mas é software livre – gratuito, de uso livre, com formatos abertos e desenvolvido por voluntários. O programa tem uma grande base de usuários e, ao contrário do Corel DRAW, que lançou uma versão nova (X4) sem qualquer novo recurso de desenho, o Inkscape está sempre inovando.

Impressionou-me nesta versão a maturidade da ferramenta de caligrafia. Até agora os melhores resultados que eu havia obtido com caligrafia digital haviam sido no Corel Painter, mas depois de testar esta versão do Inkscape estou sabendo que isso vai mudar.

Além de produzir os mesmos resultados fluentes e naturais, o Inkscape tem sobre o Painter a vantagem de trabalhar de modo nativo com o formato vetorial SVG, em que a imagem não perde a qualidade não importa o quanto você amplie. Se você tem um navegador decente como o Firefox você pode visualizar daqui mesmo imagens com o formato svg – o que não deixa de ser notável, porque a maior parte das imagens que você encontra na net são em formato raster, e não vetorial.

Clique aqui para ver uma imagem em formato svg. Não parece, mas esse arquivo (ao contrário deste) é de um desenho vetorial. Você pode abrir a imagem no Inkscape e editá-la sem perder a nitidez da mesma forma que você vê no vídeo.

Baixe o Inkscape aqui ou aqui. Para aproveitar todos os recursos de desenho você vai precisar de uma mesa digitalizadora sensível à pressão.