Manuscritos estocados em Março do Anno 2008 de Nosso Senhor
31 de Março de 2008

Normalmente se pensa

Goiabas Roubadas

Normalmente se pensa que o objetivo da educação pública é encher os mais jovens de conhecimento e despertar a sua inteligência, tornando-os assim capazes de desempenhar as tarefas da cidadania de forma esclarecida e independente. Nada poderia estar mais longe da verdade. O objetivo da educação pública não é propagar o conhecimento, é reduzir o maior número possível de indivíduos ao mesmo nível; é cultivar e treinar uma massa de cidadãos padronizada, suprimindo a discordância e a originalidade. É este o seu objetivo nos Estados Unidos, não importa o que digam os políticos, pedagogos ou outros charlatões dessa ordem; é esse o seu objetivo em todo lugar.

H.L. Mencken

Envergonha-me que tantos de nós não sejamos capazes de imaginar um modo melhor de fazer as coisas do que trancar as crianças o dia inteiro em cárceres, ao invés de deixá-las crescendo conhecendo suas famílias, mesclando-se com o mundo, assumindo responsabilidades reais, lutando para serem independentes e confiantes e livres.

John Taylor Gatto

Os milhões de dólares que dedicamos cada ano à educação do ensino médio são, em sua maior parte, gastos no retardamento da inteligência, no desencorajamento da eficiência, no atrofiamento do caráter.

Bernard Iddings Bell (1949)

via The Teeming Brain

30 de Março de 2008

Brabo é apelido

Pormenor

29 de Março de 2008

O Cavaleiro Sem Cabeça!

Jurássicas

A noite estava escura. A minhoca dorminhoca estava perdida. A dorminhoca era muito nova, e por isso a sua vista se embaralhava com as suas duas cabeças. É, ao contrário do que muita gente pensa, a minhoca tem duas cabeças.

Nisso, ao longe, na estrada, se ouviu um tropel. Logo surgiu um vulto de contornos avermelhados. A pequena dorminhoca estremeceu e procurou se esconder atrás de uma grande pedra. Era… era… era o legendário cavaleiro sem cabeça! A dorminhoca se encolheu ainda mais. Um ruído atrás de suas costas a fez olhar para trás. Era uma coruja! Ela precisava sair dali para não ser engolida. Mas, e o cavaleiro? A coruja deu um olhar ameaçador, o que bastou para a minhoca correr até o meio da estrada. Se ao menos ela chegasse até o outro lado da estrada… poderia encontrar a sua casa! Quando ela ia começar a correr, uma lâmina de espada quase lhe corta uma das cabeças. Era a espada do cavaleiro sem cabeça!!!

O cavaleiro deu uma gargalhada e falou:

– Aonde você pensa que vai? Durante séculos eu procurei uma cabeça, e agora, você que tem duas não quer me ceder uma?

– Mas… mas… a minha cabeça é pequenininha… E essa cabeça que o senhor carrega? Não serve?

– Essa é uma simples cabeça de abóbora… Eu só uso para iluminar o caminho.

O cavaleiro já ia cortar a cabeça da minhoca quando de uma estrela apareceu uma fada. Enquanto isso o cavaleiro ficou paralisado como uma estátua.

A fada, com um pequeno gesto, transformou a dorminhoca em um belo príncipe.

– O efeito do encanto – falou a fada – só dura até o amanhecer. – e de súbito, a fada desapareceu.

* * *

Esta história e suas ilustrações são do começo da década de 1980, portanto eu deveria ter entre 13 e 15 anos de idade quando me sentei para escrever. Minha apreciação por temas macabros e humor obscuro já aparece de forma muito clara, bem como minha incapacidade em manter o roteiro seguindo numa direção só.

Ainda mais revelador, embora não aparecerá como surpresa ao impenitente leitor da Bacia, é que deixei a história incompleta e parti imediatamente para desenhar outras coisas.

Tenho 90% de certeza de que foi a ilustração principal na primeira página que inspirou a história, não o contrário. Clique nas imagens para ampliar.



28 de Março de 2008

A distinção mais antiga

Manuscritos

11

A distinção mais antiga da literatura, nascida no tempo em que a narrativa e a poesia ainda voavam soltas no espaço aberto da dramaturgia, permanece inconclusa. Os árbitros da questão ainda ouvem Aristóteles, um dos primeiros a propor uma teoria sobre o assunto, e ouvem Averróis e Harold Bloom, mas esses testemunhos não tornam a sua tarefa mais fácil. Mil impérios caíram desde que ocorreu a alguém estabelecer as categorias, mas ainda não sabemos definir precisamente o que separa a tragédia da comédia.

Para Aristóteles, na Poética, a diferença parece ser uma questão de temática e de tom. A tragédia, ele opina, deveria ocupar-se do destino de personagens notáveis: deuses ou nobres, gente que trafega corredores inacessíveis ao homem comum. O objetivo da tragédia seria despertar no espectador um sentimento de terror e de piedade diante de uma espetacular mudança de fortuna experimentada pelo protagonista.

Central na teoria de Aristóteles (já que ele até certo ponto respondia a Platão, que na República propunha a eliminação de toda a poesia, por não crer que possuísse alguma função social que a redimisse), é a idéia de que a tragédia tem um efeito terapêutico. O sofrimento do protagonista no palco purga, vicariamente, o espectador na platéia.

“Uma tragédia é uma imitação dramática daquilo que é admirável, completo e possui magnitude; representada por atores, e não apresentada através de narração; e que efetua através da piedade e do temor a purificação dessas emoções”.

27 de Março de 2008

Cidadezinha feliz

Ilustração

O dilema Nº7 do panfleto Como contratar um ilustrador reza que o cliente deve aprovar um esboço do material que está encomendando antes que o ilustrador parta para a ilustração final. Num mundo perfeito esse rascunho é uma coisa caprichada, que fornece ao cliente uma boa noção de como a imagem final deve ficar. Deve servir para tranqüilizá-lo, não para confundi-lo.

Não vivemos num mundo perfeito.

Clique nas duas imagens abaixo para ampliar. Os demais quadros são detalhes da imagem final.

Esboço

Imagem final

* * *