Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2008 de Nosso Senhor
29 de Fevereiro de 2008

A primeira blasfêmia

Manuscritos

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A primeira blasfêmia, portanto, está em Deus achar necessário criar o universo antes de criar o homem.

A quem acompanha a narrativa podem ocorrer pelo menos duas soluções para o problema do céu e da terra, nenhuma das quais diz coisa muito generosa sobre a auto-imagem divina. Por um lado, o planejamento e a execução do universo parecem indicar que Deus não se considerava, ele mesmo, suficiente para o homem – o que é, naturalmente, desconcertante ao ponto do inconcebível. Sendo a divindade quem é, não bastaria para o homem Deus, somente Deus, assim seco e sem gelo? Os céus declaram a glória de Deus, opina o salmista; para quem observa a mesma cena por outro ângulo, céu e terra são uma esmagadora declaração de divina insuficiência. Então Deus precisa do universo para nutrir o homem?

Por outro lado – e eis o segundo problema – com a exuberância do céu e da terra Deus proporciona um pano de fundo contra o qual ele mesmo pode acabar passando despercebido para o ser humano. Não há como ignorar a façanha: o universo que Deus produz é, incrivelmente, suficiente sem Deus. Se ama de fato o homem e quer intimidade com ele, por que deitar sua obra mais cara num mundo tão extraordinariamente bem amarrado (com seus astros e estrelas e animais selvagens e animais domésticos e aves do céu e peixes do mar e árvores frutíferas e ervas do campo, “cada um segundo as suas espécies”) que prescinde horrivelmente de Deus?

Aqui estão, logo nas primeiras páginas da história, dois enigmas que são um: Deus não se considera suficiente mas cria um universo suficiente. O que ele está tentando provar? O que está tentando esconder?

28 de Fevereiro de 2008

A meio caminho de Guararapes

Ilustração

O andamento de uma ilustração sobre a Batalha de Guararapes que estou fazendo para uma página dupla da revista Aventuras na História. A idéia é representar a batalha no estilo sem rodeios das xilogravuras de cordel - mas, na falta de umburana, estou usando a versão pré-Microsoft do versátil Expression, que uso para fazer os Irmãos Comédia e você pode baixar gratuitamente aqui.

Clique para ampliar.

27 de Fevereiro de 2008

Afrasíabe e a peste

Manuscritos

Afrasíabe estava sozinha chorando, sentada num banquinho de três pés em sua casa, quando vieram avisar que o monstro Ksyinzuiu estava se aproximando do vilarejo. Afrasíabe viu pela porta aberta a gente da vila fugindo como um rio, correndo numa só direção, mas ela mesma não se mexeu do lugar.

Quando os gritos haviam silenciado e o pó das ruas inchava para abrigar o sangue dos mortos, Ksyinzuiu ergueu o teto do casebre de Afrasíabe como se fosse a tampa de uma caixa e olhou para dentro.

– Ei, por que você não fugiu? – trovejou o monstro. – Por acaso não tem medo de mim?

– A peste levou meu marido e meu filho – disse Afrasíabe ajeitando os cabelos, sem parar de chorar e sem levantar os olhos. – Do que eu deveria fugir?

– Você por acaso não sabe que é para isso que os deuses enviam os monstros e as grandes catástrofes? Para que os homens coloquem seu próprio sofrimento numa perspectiva justa? Só grandes ameaças tem lastro para apagar dores compridas.

– Talvez você não seja uma ameaça tão grande – disse a mulher. – Talvez minha dor seja comprida demais para os recursos dos deuses.

Ksyinzuiu arregalou os olhos de peixe e rompeu numa gargalhada.

– Cá cá cá, mulher. Por causa da sua presença de espírito vou lhe dar uma escolha que nunca dei a ninguém. Você pode entregar-se voluntariamente à morte entre os meus dentes, ou pode tentar adivinhar os três segredos que juntos têm o poder de me destruir. Se você não conseguir, morrerá de qualquer forma. O que me diz? O que escolhe? Matar ou morrer?

– Não me importune com uma coisa nem outra. Se eu me entregar para morrer estarei desistindo da minha dor, que é meu bem mais precioso; se matar você, estarei trocando minha dor por uma vitória que em nada se equipara à extensão dela.

E olhou para o monstro, que tinha a altura de dois homens, a pele cor de pedra recoberta por espinhos curtos e grossos e uma horrenda cabeça de peixe que lhe saía diretamente do tronco.

– Muito bem, não posso matá-la se você não fugir ou se não vier ao meu encontro – opinou Ksyinzuiu. – Ouça outra oferta: junte-se a mim e seja o meu arauto, um anunciador da minha chegada nos lugares que devo visitar. Você é uma mulher triste, é certo que terá prazer em promulgar a desgraça.

Assim Afrasíabe tornou-se o arauto de Ksyinzuiu. Ela entrava nos vilarejos e anunciava, sem jamais levantar a voz, a iminência do açoite dos deuses. A desesperança no seu rosto era tão clara que todos desfaleciam, abandonando imediatamente a idéia de recorrer à compaixão do céu. Enquanto Afrasíabe ainda estava falando Ksyinzuiu aparecia, derrubando carroças e portões com os braços deformados e abrindo e fechando a bocarra, até que os os pés de Afrasíabe descansassem descalços no vermelho mais puro.

Um dia os dois chegaram a um vilarejo abandonado em cuja praça havia uma grande pilha de corpos em decomposição, e Ksyinzuiu falou:

– Não devemos seguir adiante, já completei o meu circuito nesta região. Todas as aldeias foram devoradas pela peste, não há mais o que matar.

E fez menção de seguir adiante, mas Afrasíabe disse:

– Esta é a aldeia para a qual viajaram meu marido e meu filho, a aldeia em que morreram comidos pela peste. Ksyinzuiu, adivinhei os seus três segredos, agora posso destruí-lo.

O monstro virou-se para olhá-la de frente.

– E quais são?

– O primeiro é o mais evidente, mas apenas quem o acompanhasse como tenho feito seria capaz de descobrir: você usa sua boca para matar, mas nunca para comer. Nos meses em que tenho sido o seu arauto nunca o vi pôr coisa alguma na boca. O segundo é este: você só mata os que não conseguem fugir, mas os cadáveres em decomposição que deixa para trás são a mesa pronta em que a peste se banqueteia. Sem os campos dos seus mortos a peste não teria como se multiplicar. Ela mata os que sua mão não consegue tocar, e matou minha família.

– Muito bem. E o terceiro?

– Ao terceiro se chega pela perspectiva dos outros dois. É verdadeiro o ditado que diz que a peste é o hálito de Ksyinzuiu, mas o monstro original está morto. O verdadeiro Ksyinzuiu foi substituído por um autômato que pode caminhar e matar mas não comer, uma estátua animada construída por alguém que desejava perpetuar a peste.

E estendeu a mão para tocar a pele de ferro de Ksyinzuiu.

– Você adivinhou os três segredos – disse o autômato. – Fui feito quando o verdadeiro Ksyinzuiu morreu. Construiu-me um homem que, como você, teve a família destruída pela peste; um homem cuja dor era tamanha que queria estendê-la de modo a comportar as futuras gerações. Deus criou o homem pela mesma razão.

– O que você quer fazer agora? – disse Afrasíabe.

– Ora, de posse dos três segredos você tem poder sobre mim e pode ordenar a minha destruição.

– Preciso pensar bem. Se deixar você viver terei de conviver com a culpa de não ter eliminado o horror que ceifou a minha família e ainda ceifará outras; se o destruir, terei de conviver com o mérito de ter livrado o mundo da destruição e da peste.

– E você não sabe o que é pior – sorriu o monstro.

– Não preciso apressar essa decisão – disse Afrasíabe, e foram caminhando juntos para o sul.

26 de Fevereiro de 2008

Guerra contra o tráfego [3]

Irmãos Comédia

Roubágio de uma idéia do Arthur

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25 de Fevereiro de 2008

Meu testamento literário

Goiabas Roubadas

Atletas e preparadores físicos não limitam sua atenção às questões do exercício e do condicionamento perfeito; afirmam que há também hora para relaxar – elemento que de fato apresentam como o mais importante do treinamento. Considero igualmente verdadeiro para homens de letras que após períodos severos de estudo devam alongar o intelecto, a fim de estarem devidamente preparados para sua próxima tarefa.

O descanso de que carecem será melhor encontrado num ramo da literatura que não oferece entretenimento puro e simples, dependendo de mera sagacidade ou felicidade de expressão, mas é capaz também de atiçar uma instruída curiosidade – de um modo que espero esteja representado nas páginas que seguem. A proposta é que elas se mostrem atraentes independentemente de qualquer originalidade de tema, felicidade de concepção geral ou verossimilhança na acumulação de ficções. Essa atração encontra-se na velada referência subjacente a todos os detalhes da minha narrativa, que parodiam as inverossímeis histórias dos antigos poetas, historiadores e filósofos. Abstive-me apenas de acrescentar uma chave porque posso confiar que você será capaz de reconhecê-la à medida em que lê.

Ctesias, filho de Ctesíoco de Cnido, em sua obra sobre a Índia e suas características, fornece detalhes dos quais não possui qualquer evidência de primeira ou de segunda mão. A Oceanica de Iâmbulo está cheia de maravilhas; a coisa toda é uma patente ficção, mas presta-se ao mesmo tempo a uma leitura agradável. Inúmeros outros autores adotaram o mesmo plano, alegando relatar suas próprias viagens e descrevendo animais monstruosos, nativos bárbaros e estranhos modos de vida. A fonte e inspiração do seu humor é o Odisseu homérico entretendo a corte de Alcino com seus ventos aprisionados, seus homens selvagens ou canibais ou de um olho só, seus animais de várias cabeças e seus camaradas metamorfoseados; os fenícios eram gente simples, e ele enganou-os ao máximo que podiam suportar.

Quando me deparo com um escritor dessa estirpe não me incomoda muito que ele esteja mentindo; a prática já está bem estabelecida demais para que eu reaja dessa forma, mesmo entre filósofos professos. Surpreende-me apenas ele esperar que não percebamos que está mentindo.

Ora, sou vaidoso o bastante para acalentar a esperança de deixar alguma herança para a posteridade, e não vejo motivo para abrir mão do direito à liberdade de criação de que outros desfrutam. Como não tenho verdade alguma para registrar, tendo vivido uma vida profundamente monótona, recorro à falsidade – porém uma falsidade de uma variedade mais consistente, pois proferirei agora a única declaração digna de crédito que se deve esperar de mim: sou um mentiroso. Esta confissão é, considero, defesa suficiente contra todas as acusações. Meu assunto, portanto, é o que jamais vi, experimentei ou me foi contado, o que não existe nem poderia concebivelmente existir. Solicito humildemente a incredulidade do leitor.

Luciano de Samósata em Uma História Verdadeira, escrevendo no segundo século da era cristã (125-180 d.C.)