Boleiro, ruivinha e professor
Ilustração



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Manuscritos estocados em Janeiro do Anno 2008 de Nosso Senhor
23 de Janeiro de 2008
De onde tirei essa idéiaFé e CrençaA primeira coisa ao mesmo tempo evidente e terrível a se reconhecer é que o texto não é idêntico à sua interpretação. Texto algum bastará para fazê-lo abraçar essa convicção, mas se você chegar até aqui, se for capaz de ultrapassar esse ponto, poderá palmilhar sozinho o restante do caminho. Não precisará mais de mim, dos parágrafos seguintes ou de texto algum. As sociedades construídas ao redor da palavra escrita vivem debaixo de uma maldição e de uma contradição. A maldição está em que as palavras não existem no mundo real, são sinais mágicos, aproximações e convenções que tatuamos no papel e que só têm vida e realidade na mente de quem acontece de estar pensando nelas. A contradição está em que, embora nos afirmemos leais às palavras e ao sentido das palavras, somos na verdade leais à vida artificial que imprimos (ou deixamos que outros imprimam) às palavras na nossa própria mente. Afirmamos fidelidade e reverência ao texto, mas na realidade somos fiéis à interpretação que elaboramos para o texto na nossa cabeça. Essas limitações (esses recursos) da palavra escrita produzem efeitos muito reais em todos os níveis, quer estejamos falando em recados escritos em notinhas adesivas ou na publicação de ciclos de palestras sobre Shakespeare. Porém em nenhuma área de atividade humana esse temperamento particular da palavra escrita, sua disposição de prestar-se a todo tipo de contorção enquanto retém a aparência de austera imutabilidade, traz conseqüencias mais amplas, curiosas e duradouras do que na esfera religiosa. Isso é especialmente verdadeiro no ocidente, que construiu o seu edifício inteiro de religiosidade ao redor do conceito de palavras sagradas (isto é, vivas) presas entre as páginas mortas de um livro. Ao longo da geografia e da história são poucas as manifestações religiosas da humanidade que desconhecem o conceito de palavra sagrada. A palavra falada é tradicionalmente o canal do espírito, o fulcro mágico entre o visível e o invisível, a realidade criadora formada a partir do sopro do vento. Em praticamente todas as culturas a palavra falada é o nada que tudo revela, o fôlego que a tudo dá um sentido (a todas as coisas dá um nome). A própria tradição judaico-cristã assinalou o poder e a primazia da palavra falada muito antes que os livros da Bíblia fossem colocados por escrito e por um longo período antes que a mensagem escrita (a “Escritura”) chegasse a ser venerada como definitiva e suficiente. A própria Bíblia, naturalmente, fornece amplo testemunho disso. Com o passar do tempo, no entanto, a noção da autoridade última de letras sagradas confinadas à página e a busca heróica pela sua interpretação definitiva obscureceu todo o resto, até mesmo – e aqui reside o supremo paradoxo – o conteúdo do texto. Mais de três mil anos depois que ocorreu a Deus registrar uma lista de ordens simples em tábuas de pedra, e dois mil anos depois que Jesus foi apontado como Verbo encarnado, ainda associamos tanto religiosidade quanto vida espiritual à veneração nominal de textos sagrados – ao mesmo tempo em que damos o nome de “evangelização” ao tráfico bem-sucedido de uma interpretação particular. As armadilhas da palavra, evidentemente, não perderam a força ao longo desses séculos. Ao contrário, nosso suposto respeito por elas emprestou-lhes apenas um poder de ofuscamento cada vez maior. Despistados pela pirotecnia da interpretação, deixamos que meras palavras ofusquem o sentido do texto. Por isso não se iluda, porque não pretendo me iludir. O que você chama (o que eu chamo) de lealdade ao texto é de fato – invariavelmente, em todos casos – lealdade a determinada interpretação. Quando alguém chama de “igreja” um edifício na esquina e opina que “não matarás” não se aplica a casos extremos como a guerra; quando alguém assegura que relação sexual entre gente do mesmo sexo é pecado e comer carne de porco não; quando alguém argumenta que “venda tudo que tem e dê aos pobres” não deve ser interpretado literalmente, mas “trazei os dízimos à casa do tesouro” sim; quando alguém dá a entender que as dissertações de Paulo explicam mais sobre a natureza de Deus e da boa nova do que as palavras e as atitudes de Jesus; quando alguém diz “Rubem Alves é um apóstata” ou discorda da sua opinião dizendo “se você não aceita a Bíblia como autoridade para o seu cristianismo sua fé é algo subjetivista demais para se atrelar ao cristianismo” – quando afirmam isso ou o contrário disso, apesar de suas boas intenções e do entusiasmo do seu testemunho, essas pessoas não estão demonstrando fidelidade imediata ao texto a que se referem: estão demonstrando lealdade à sua própria interpretação desses textos. Alguém irá fatalmente argumentar que basta ler um texto para interpretá-lo, e que portanto todos podem ser acusados (inclusive você, Brabo) de favorecer a interpretação que lhes sugere a sua própria leitura. No caso em questão, no entanto, essa observação precisa ser qualificada. Em primeiro lugar, nos nossos dias é virtualmente impossível aproximar-se do texto bíblico de forma isenta. Devido ao efeito onipresente de milênios de infestação cultural, não há quem seja capaz de abrir esse livro com o propósito singelo, intermediado por ninguém, de ouvir o que ele tem a dizer. Aproximamo-nos invariavelmente da Bíblia pela via formadora de alguma igreja que já fez a sua leitura antes de nós – ou seja, aproximamo-nos de uma interpretação antes de nos aproximarmos do texto. Essa contingência poderá parecer boa e proveitosa na opinião de alguns, mas não se pode negar que o que acabamos encontrando nas páginas da Escritura é, essencialmente, o que fomos ensinados a encontrar nela. Em segundo lugar, embora haja potencialmente tantas interpretações quanto leituras, o que acaba acontecendo é que uma corrente particular de interpretação acaba reivindicando primazia moral e intelectual sobre as outras. Isso acontecia no tempo de Jesus e acontece no nosso. Essa será, em todos os casos, a interpretação ostensivamente mais conservadora, mais rigorosa e ortodoxa. Essa interpretação se mostrará continuamente pronta a demonstrar a sua supremacia, a apontar os desvios dos menos esclarecidos, a condenar os erros dos torpes, a celebrar sua fidelidade à mensagem original que se dispõe a preservar. Como no tempo de Jesus, essa corrente autorizada de interpretação permanecerá necessariamente cega às suas próprias contradições; em especial, não verá problema em reivindicar para si a fama de literal quando é, na verdade, tremendamente seletiva. É evidente que quando digo tudo isso falo do alto (ou do fundo, dependendo de onde você está) da minha própria interpretação, e o que posso dizer em favor da minha interpretação é que ela é minha. Como sei que serei julgado por ela (embora minha fé não seja aquilo em que acredito) devo antes de prosseguir esboçar os limites, necessariamente muito tênues, da minha provisória ortodoxia. Minha interpretação é que nenhuma interpretação basta e nenhuma é, no fim das contas, necessária. Minha interpretação é que parte essencial daquilo de que a boa nova veio nos salvar é a tendência muito humana a nos agarrarmos a oráculos de orientação, escrituras de referência e listas de mandamentos colocados sensatamente por escrito. Minha interpretação é que o precário lugar dos mandamentos é na superfície do coração, onde só você pode lê-los e só você pode interpretá-los, e que o assombroso milagre será que sendo fiel a Deus você será fiel ao seu próprio coração, e vice-versa. Minha interpretação é que Jesus, a Palavra encarnada, veio convidar-nos a viver além da submissão debilitante e contraproducente à letra, chamando-nos a respirar o Espírito num domínio de terrível liberdade e responsabilidade que preferiríamos não ter de percorrer. Minha interpretação é que, tomada como um todo, a aspiração nada secreta da Bíblia é provar-se finalmente desnecessária. Mas quero mostrar de onde tirei essa idéia.
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Este documento faz parte da série Palavra por palavra21 de Janeiro de 2008
O amor é mais severo que a justiçaGoiabas RoubadasJesus foi o primeiro a demonstrar de que modo superar esse monstruoso estado de coisas. No momento em que afirmamos que nada pode nos dizer o que é bom a não ser uma tradição dada por Deus, a religião irá prevalecer sobre o sentimento moral de uma forma que se mostrará fatal para ela mesma. Nosso único meio de proteção consiste em perceber que a coerência moral – em outras palavras, a sinceridade da vontade – é o primeiro passo na direção daquela religião na qual o Deus vivo é verdadeiramente buscado. A expressão bíblica para religião é confiança em Deus e amor a Deus. Confiança genuína em Deus consiste em sentirmos que somos filho de Deus; amar a Deus consiste em colocarmos como nosso alvo, como o objeto final da nossa vontade, a qualidade de união com Deus que fica implícita no desejo de tornar-se filho de Deus. “Por que vocês não julgam por si mesmos o que é bom?”Ora, de acordo com Jesus isso só pode ser obtido através da obediência moral – através de um amor ao próximo que permaneça impassível diante da inimizade dos homens. Ele portanto coloca o discernimento moral como elemento primário em toda verdadeira religião. Não seremos capazes de amar a Deus até que comecemos a experimentar aquela paz interior que culmina com o amor a nossos inimigos. É impossível ansiar pelo próprio Deus, a não ser que saibamos o que é bom, pois Deus somente é bom. Se queremos encontrar e seguir a Deus, devemos ser capazes de reconhecer o que é bom. É por isso que Jesus ataca a idéia errônea de que, a fim de reconhecer o que é bom, devemos primeiro conhecer a Deus e compreender os seus mandamentos. Aos que assim pensam Jesus propõe a pergunta: “Por que vocês não julgam por si mesmos o que é bom?” (Lucas 12:57). A mesma verdade Jesus imprimiu de forma profunda sobre nós em sua explicação do mandamento sobre o amor, esse amor que constitui a unidade da sua mente. Porém para obtermos uma real compreensão desse mandamento não basta apontar que trata-se de um amor a Deus que é também amor ao próximo e de um amor ao próximo que é ao mesmo tempo amor a Deus. Esse método de elucidar a questão, na verdade, tem muitas vezes servido para obscurecê-la, porque pode gerar a impressão de que em sua natureza e operação o amor distingue-se da justiça por ser menos severo do que ela. A justiça admite exceções; o amor não admite exceção alguma.Porém esse não é, de modo algum, o amor de que Jesus está falando. Desse amor podemos desenvolver uma idéia mais clara observando em que ele de fato difere da justiça, e a primeira distinção está em que o amor é mais rigoroso do que qualquer justiça. A justiça admite exceções; o amor não admite exceção alguma. A justiça não possui propósito constante, apenas segue as mudanças na natureza humana que revelam-se na história. É impossível dizer o que será considerado justiça numa data futura. O amor se presta, é verdade, a incansável variedade, a adaptar-se a todo impulso; porém seu propósito está inalteravelmente dirigido a um alvo que ele conhece – a saber, uma comunhão interpessoal em que todos sintam em cada um uma felicidade que ultrapasse qualquer outra alegria. A vontade de amar busca produzir e intensificar essa comunhão ao redor de si, reconhecendo ser este o seu alvo eterno, e encarando como impensável que seu alvo pudesse jamais ser qualquer outro. A paz interior produzida por um alvo invariável e claramente percebido torna a vontade de amar ao mesmo tempo mais forte e mais severa do que qualquer forma de justiça. Devemos pensar no amor do qual Jesus fala como o exercício máximo da força de vontade, o poder concentrado de uma mente que conhece o objeto de sua vontade. Quando chama os homens a amarem seus inimigos, Jesus não está requerendo deles algo extraordinário – algo assombroso e impossível de compreender. O que ele está oferecendo é um exemplo claro do exercício da vontade cujo único objetivo é a comunhão interpessoal. Esse propósito é confirmado pelo discernimento claro de sua lei eterna; e conseqüentemente não representa a perda da vida individual, mas é a ação mais intensamente concentrada e viva da vontade pessoal.
Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)
Este documento faz parte da série Além da submissão20 de Janeiro de 2008
Robô encena peça de NatalPormenorEste documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet. Você está examinando
os arquivos dA Bacia das Almas estocados em Janeiro 2008.
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