03 de Maio de 2007

We are not alone

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Quase Ciência

Terá sido uns seis anos atrás, e o Ivan estava dirigindo. Era de madrugada (digamos 4 da manhã) e estávamos a meio caminho de São Paulo (digamos, logo ao norte de Juquiá) por uma deserta Régis Bittencourt. O céu talvez estivesse encoberto, mas nenhum vento perturbava a mata fechada nos dois lados da estrada. Estávamos ambos acordados, quem sabe ouvindo um CD.

Aconteceu singelamente e sem aviso: um balão de aniversário no meio da estrada; cem metros adiante, uma multidão deles. Balões de aniversário espalhados uniformemente sobre as duas mãos da rodovia. Vejo-os agora mesmo com o olho da memória, eram balões azuis e brancos, pousados docilmente ao longo de uns cem metros de asfalto, como um rebanho.

Não havia nenhum automóvel por perto, nenhuma casa por perto, nenhuma saída secundária visível e nenhuma luz além das estrelas e dos faróis do Corsa. Não havia balões no acostamento ou no trecho de capim que beirava a mata dos dois lados da pista. Apenas balões de ar brancos e azuis, soltos, apenas sobre o asfalto e num grupo mais ou menos compacto.

O Ivan diminuiu a velocidade e, na rodovia deserta, fez o carro dançar de um lado para o outro de modo a explodir com a nossa passagem o maior número possível de balões. Chegamos a cogitar em parar e recolher alguns, mas não fizemos. Partimos sem interrupção noite adentro, deixando um rastro de destruição na população sobre o asfalto e uma marca curiosa na memória.

Devidamente treinado pelo meu treinamento com histórias de detetive e agentes do FBI (“Scully”, implora Mulder no celular, “saia daí agora mesmo!”), encontrei-me durante o restante da viagem e muito, muito tempo depois, matutando na tentativa de encontrar uma explicação racional para o nosso avistamento.

O Ivan crê que tenho vocação ao exagero; quando estou dizendo a alguém que determinado lugar é muito bonito ou que determinado filme é muito bom, ele faz questão de intervir em benefício do meu interlocutor. “Leve em conta que é o Paulo que está dizendo,” ele observa, ou algo parecido.

Creio que o Ivan não negaria em termos essenciais o teor quantitativo deste meu testemunho, mas mesmo naquela madrugada ele pareceu minimizar a estranheza – isto é, o peso qualitativo – do que acabávamos de testemunhar. Posso contar com o seu testemunho, mas não com a sua empolgação. Para ele atravessar um rebanho de balões de ar azuis e brancos numa rodovia deserta em plena madrugada não é aparentemente coisa tão digna de nota. Por outro lado, fiquei imediatamente contente e permaneço grato por ter uma testemunha tão cética para confirmar o que vi.

Aparentemente, no entanto, o depoimento de duas testemunhas não basta. Creio que não consegui até hoje alguém que acredite nessa história, ou que se empolgue um pouco que seja com ela. Eu, que já vi luzes estranhas no céu noturno de uma praia de Niterói e encontrei ouvintes ávidos para essa experiência, que já vi e contei a platéias empolgadas sobre o reflexo nos olhos da aranha, não encontro quem arregale os olhos1 para a história dos balões de ar na madrugada da rodovia.

Prometi então a mim mesmo que nunca mais vou contar essa história, porque não adianta. Viveremos solitários, eu e a lembrança da noite dos balões, sem ninguém que nos faça companhia. Atravessei magicamente uma história alheia naquela noite, e nunca mais encontrei o fio da meada. Vou ter de aprender a viver com isso.

1 Ninguém se ofereceu nem para sugerir o básico, que essa deve ser uma memória implantada para ocultar uma experiência de abdução.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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