A comemoração do Natal envolvia comportamentos que a maior parte de nós consideraria ofensivo e até chocante fosse nos nossos dias – tumultuosas exibições públicas de glutonaria e embriaguez, a ridicularização de autoridades estabelecidas, mendicância agressiva (muitas vezes com ameaça de dano físico) e até mesmo invasão das casas mais abastadas.
Episódios como esses ofereciam outra razão, e mais profunda, para as objeções dos puritanos contra o Natal. Eis como o reverendo Increase Mather colocou a coisa em 1687:
A maior parte dos que guardam o Natal observam essa festividade de um modo altamente desonroso para o nome de Cristo. [Esses dias] são consumidos em Embriaguezas, em Interlúdios, em jogatina de Cartas, em excesso de Vinho, em louca Folia…
Escrevendo em 1725, o reverendo Heny Bourne de New Castle, Inglaterra, embora aprovasse ele mesmo “a observância” do Natal, admitia que para a grande massa da população a época natalina era mera “desculpa para Embriaguez, Tumulto e Licenciosidade”.
Bourne distinguia duas práticas especialmente perigosas das festividades, a folia sob disfarce [mumming] e o canto de canções de natal. A prática do mumming envolvia normalmente “uma troca de Vestimenta entre Homens e Mulheres, os quais, vestidos nas roupas um do outro, iam à casa de um Vizinho após o outro… foliando sob disfarce”. Quanto ao canto público de canções de Natal, Bourne considerava a prática “uma afronta”, visto que era normalmente realizada “em meio a Desordens, Fornicação e Luxúria”. Foi outro clérigo anglicano do século dezesseis, o bispo Hugh Latimer, quem colocou a questão de forma mais sucinta: “As pessoas fazem mais para desonrar a Cristo nos doze dias do Natal do que no restante dos doze meses”.
Os puritanos sabiam o que gerações subseqüentes esqueceriam: que quando a Igreja, mais de um milênio antes, colocara o Natal no final de dezembro, a decisão era parte do que representava na verdade uma contemporização, uma concessão pela qual a Igreja pagaria um alto preço. As festividades do final de dezembro estavam profundamente enraizadas na cultura popular, tanto na observância do solstício do inverno quanto na celebração do único breve período de ociosidade e abundância do ano agrícola. Em troca de angariarem ampla observância para a comemoração do aniversário do Salvador, alocando-o nessa data ressonante, a Igreja por sua vez concordava tacitamente em permitir que o feriado fosse celebrado mais ou menos do modo como tinha sempre sido. Desde o começo o controle da Igreja sobre o Natal foi (e permanece) tênue. Sempre houve gente para quem o Natal era época de devoção ao invés de carnaval, mas esses foram sempre a minoria. Não é ir longe demais dizer que o Natal sempre foi um feriado tremendamente difícil de cristianizar.
Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas
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