27 de Fevereiro de 2007

Turbilhão

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Preciso tomar um banho – ela diz, negando subitamente, com uma virada de rosto de meros dez graus, o abrigo que eu desenhara para ela.

Sento-me na cama, limpo casualmente os cantos internos dos olhos com as pontas dos dedos e olho ao redor.

– Deve haver uma jacuzzi por aqui – levanto-me, percorrendo burocraticamente os recantos do quarto. – Se não, tem um banheiro no fim do corredor.

Minha nudez não parece perturbá-la ou deleitá-la em nenhum sentido. Isso me incomoda um pouco, mas observo para mim mesmo que um momento atrás ela estava chorando. Não está mais: sua expressão solidificou-se num mármore de absoluta gravidade. Faço uma anotação mental para escolher da próxima vez um quarto com cuja geografia eu esteja familiarizado.

– Achei – anuncio, um pouco mais empolgado do que deveria. Um gesto e a água já está jorrando por todos os canais da hidromassagem. Estendo a mão e o corpo na direção da cama. – Cassandre, venha, por favor.

Nesse momento o celular toca na minha calça, que está em alguma superfície do quarto que não sei de imediato precisar. Hesito por um instante, e no instante seguinte já não faz diferença. Cassandre está contornando a cama na direção da banheira e o momento passou.

Jogo a calça sobre a cama. A radiância azul da telinha me informa que é Glenn Miller.

– Alô.

– Patife, estou esperando você me ligar há dias.

Deslizo devagar a mão direita sobre os olhos fechados. Ele provavelmente está certo.

– Desculpe, muita coisa aconteceu nesse meio tempo.

– Estou contando que sim. Falou com o Cortiano?

Caminho até a porta envidraçada da varanda e afasto as cortinas. As nuvens do crepúsculo emaranham o céu de laranja e violeta.

– Falei, falei. Fomos juntos ao Panteão, depois fomos tomar chá na chácara de um amigo dele.

– De la Mettrie? O pugilista?

Abro uma das folhas da porta, abraçado imediatamente pela brisa. Glenn Miller conhece De la Mettrie. Nunca sei dizer o que ele não sabe.

– Você tomou então o famoso chá de pêssego de Marie? – ele insiste.

– Muito pouco.

Glenn espera que eu preencha o silêncio que se segue, mas não digo nada.

– O que Cortiano queria?

Finalmente a pergunta. Antes, porém, que eu junte as palavras para esquivar-me dela, ele arremete:

– Você está em casa?

– Estou. Mas não –
– Não demora estou aí.

– Espera, não – baixo imediatamente a voz. – Não venha, Glenn, agora não posso.

– Tem alguém aí?

– Tem.

– Quem?

Viro-me um momento para trás e vejo os cabelos de Cassandre ensopando os azulejos ao redor da plataforma da banheira. A cabeça está inclinada para trás, os olhos fechados com uma inclemência de esfinge. Ando um passo para fora do quarto e apóio um braço no peitoril da varanda.

– Não posso dizer pelo telefone.

– Tem a ver com o que Cortiano queria?

– Glenn, não posso.

A voz dele assume a gravidade que, percebo só agora, ele estava tentando contornar.

– Preciso falar com você, Ciro. Falando sério. Tenho absolutamente de falar com você pessoalmente.

– Agora nenhuma chance, amigo velho. Sobre o que é?

– Não posso falar pelo telefone.

– Tem a ver com o bilhete de Sahid?

– Não posso dizer pelo telefone.

E se cala, nossa conversa tendo dado um círculo completo. O telefone ao mesmo tempo nos une e nos separa.

Eu, que tenho motivos de sobra para me resguardar, escolho assumir a dianteira.

– Glenn, não tenho como. Eu ia mesmo te ligar. Vou ter de sumir por uns dias, preciso que você segure a minha onda no Bureau…

– Tem.

– Tem o quê?

– Tem a ver com o bilhete de Sahid.

No céu mesclam-se, sacrilegamente, alvorada e ocaso. Enquanto o sol nasce e se põe, em extremos opostos da imensidão, sento-me de pernas cruzadas no chão da varanda. Lá embaixo o jardim da casa e a rua deserta.

– Tá bom, cara. Vou dar um jeito. Dou um jeito da gente se encontrar nas próximas horas. Eu ligo.

– Estou esperando. Abraço.

Desligo o celular.

Na mesma hora ele toca novamente. É Mia Dladla.

– Alô.

Eu preferia não ter atendido, mas hesitar seria ainda pior.

– Cirurgião, ouça atentamente – a policial fala devagar, como quem decifra sem naturalidade um teleprompter – Amanhã a esta hora o contêiner vai estar pronto e embalado, esperando num hangar abandonado na periferia.

– Mia, você vai ter –
– Apenas ouça. Você vai ter depois disso vinte horas para despachá-lo.

– Mia, despachar pra quem? Como vou –
– Você vai ser informado de todos os detalhes no momento certo. Só faça a sua parte.

Ela não desliga imediatamente, como eu esperava que fizesse. Ouço uma respiração pouco natural no outro extremo da linha.

– Mia – minha vez de falar devagar, como se fala com um suicida, com medo que ele desligue, – você me disse que o Ermitão foi para a estremadura. Está certo, não escondo, eu devia milhares de favores àquele sujeito, mas quero deixar claro que não devo nada a você, ou à pessoa pra quem você trabalha.

– Cirurgião, você não faz idéia – a policial cala minha boca à distância com seu tom de voz. Ela parece considerar a possibilidade de me prover uma longa explicação, mas acaba não decidindo por ela – Só deixe o seu celular ligado amanhã. O despacho do contêiner é responsabilidade sua. Você não vai querer ouvir as alternativas, meu belíssimo.

E estou no momento seguinte falando sozinho.

O que me resta, concluo, é entrar no quarto, deslizar para dentro da jacuzzi e aproveitar a introspecção de Cassandre para dedicar-me à minha. Tenho um número obsceno de pontas soltas para arrematar nas próximas doze horas.

Abandono a varanda e descubro que minha presa já deslizou para fora da banheira e, aparentemente, da introspecção. Está sentada na beirada da cama enxugando alegremente o colo com uma toalha branca.

– Quem era?

Sinto-me impotente para pensar numa resposta.

– Nada importante – decido, e essa pode ser a primeira opinião que não ocultei de Cassandre.

Atravesso o quarto, subo descalço a plataforma, agacho-me na beirada da banheira e deixo escorregar deliberadamente, turbilhão adentro, o celular.



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