10 de Agosto de 2007

Toda Substância é Espírito

Por   Paulo Brabo

 

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6. Algumas verdades são tão claras e evidentes ao entendimento que basta a pessoa abrir os olhos para ser capaz de enxergá-las. Dentre essas considero ser especialmente importante esta, a saber, que todo o exército do céu e todo a aparelhagem da terra, numa palavra todos os corpos que compõem a imensa estrutura do mundo, não têm qualquer subsistência sem uma mente pela qual sua existência seja percebida ou conhecida; que, conseqüentemente, na medida em que não são percebidos por mim ou não existem na minha mente ou na de qualquer espírito criado, nenhum desses corpos têm existência real – ou, alternativamente, subsistem na mente de algum Espírito Eterno. É inteiramente ininteligível, e requer todo o absurdo da abstração, atribuir a qualquer porção deles uma existência independente de um espírito. Para convencer-se disso tudo de que o leitor precisa é refletir, e tentar separar em seu próprio pensamento o ser de uma coisa palpável do fato de ser concebida ou percebida.

7. Do que foi dito segue-se que não existe qualquer Substância que não seja Espírito, ou “aquele que percebe”.

Tratado sobre os príncipios do conhecimento humano (1710)
George Berkeley (1685-1753)

 

Este documento faz parte da série

Tratado sobre os príncipios do conhecimento humano

  1. O ser das coisas
  2. Toda Substância é Espírito


8 Comentários a respeito de "Toda Substância é Espírito"

hernan

É por essa razão que eu digo ser mais empirista que idealista. Taí o Berkeley que não me deixa mentir sozinho.



guido

Eu nao consigo entender bem, qualquer um pode me ajudar explicando de forma mais simples?



Paulo Brabo

Guido, o bispo Berkeley (1685-1753) foi o promotor de uma forma radical de idealismo (movimento filosófico), o imaterialismo. Berkeley cria que as coisas só existem (e só podem existir) quando percebidas pelos sentidos ou concebidas pela mente de alguém. Não existem objetos materiais, apenas mentes e as idéias que povoam essas mentes.

Um tijolo não existe por si mesmo, como coisa palpável, a não ser quando alguém o está percebendo com os sentidos ou pensando nele com a mente. A realidade, para Berkeley, só existe na nossa cabeça - ou, como ele propõe aqui, na cabeça de Deus.

Precursor, como você vê, do enredo da trilogia Matrix.

Talvez fique mais fácil de entender a idéia dele se você começar por aqui.



guido

Obrigado Paulo

Tinha ja lido O ser das coisas.

A parte que fala sobre a relevância e efetiva existência das coisas a partir do momento que elas sao percebidas sensorialmente e/ou mentalmente era suficientemente clara.

E a passagem logica que abrange a existencia de Deus que nao consigo encontrar e entender, pode ser por eu nao ser suficientemente culto ou inteligente ou conhecer bem o portugues ou quem sabe as tres coisas juntas.

:-)



Paulo Brabo

“ou, alternativamente, subsistem na mente de algum Espírito Eterno”. É esta a passagem.

Saio de casa, tranco a porta e vou para a cidade, deixando uma maçã em cima da mesa da cozinha. Ninguém está tocando a maçã, ninguém está vendo a maçã, ninguém está cheirando a maçã, ninguém está provando a maçã, ninguém está pensando nela (nem mesmo eu). Para Berkeley, a maçã que deixei em minha mesa não existe (pelo menos nesse intervalo), porque não está sendo percebida pelos sentidos ou concebida pela mente de pessoa alguma. Só posso dizer que a maçã existe se eu voltar para a casa e olhar para ela em cima da mesa, ou se um ladrão entrar e encontrar a maçã, ou se enquanto eu estiver na cidade passar pela minha cabeça que deixei uma maçã em casa, e assim por diante.

Para Berkeley, não se pode dizer que existe uma coisa que não está sendo percebida. Mas será que a maçã “deixa de existir” quando não está sendo percebida por mim ou por outro ser humano? Isso mesmo, afirma Berkeley, a maçã não existe enquanto não está sendo percebida; a não ser que, talvez, as coisas que nenhum sentido humano percebe subsistam na mente de algum Espírito Eterno – isto é, a divindade.

Berkeley não diz que isso prova a existência de Deus. Ele apenas diz que a única chance de alguma coisa existir quando não está sendo percebida por mentes terrenas é essa coisa estar sendo secretamente percebida por uma mente eterna. Deus sustenta o universo porque pensa nele e o percebe incessantemente; isto é, todas as coisas subsistem na mente de Deus. Se Deus deixar de pensar em mim por um instante que seja, serei fulminado pela irrealidade: não existirei e será talvez como se nunca tivesse existido.



guido

Obrigado Paulo, agora entendi!

Agua mole em pedra dura tanto bate ate que fura :-) .

Acho que a terminologia usada me complicava o raciocínio.

É com certeza muito interessante, eu nao conhecia este Filosofo e comecei agora a pesquisar na Wikipedia.

E maravilhoso encontrar caminhos a percorrer e este è um.



Silvana

“Berkeley não diz que isso prova a existência de Deus. Ele apenas diz que a única chance de alguma coisa existir quando não está sendo percebida por mentes terrenas é essa coisa estar sendo secretamente percebida por uma mente eterna. Deus sustenta o universo porque pensa nele e o percebe incessantemente; isto é, todas as coisas subsistem na mente de Deus. *Se Deus deixar de pensar em mim por um instante que seja, serei fulminado pela irrealidade: não existirei e será talvez como se nunca tivesse existido*.”

Nossa, isso é muito assustador!



Filipe P.R.

Aew Bradão (desculpe mas, não resisti… rss…)

Falando serio agora.
Tenho algumas dúvidas e indagações a fazer aqui, a respeito de algumas das considerações do Berkeley.

1º Você sabe em quem ele se inspirou, pensadores ou filósofos do tipo: Aristóteles, Francis Bacon, John Locke?

2º Ele tinha uma visão nascitura do existencialismo(do tipo “a existência precede a essência”) a respeito da natureza(”essência”) das coisas?

Por ex.:
E quanto a Deus, quem o percebe? Ou melhor, é necessário que alguém o Perceba para que Ele exista (ou Seja)?

Pra mim, fácil intuir que Deus não existe (ou que Ele exista apenas para as pessoas que acreditam Nele…)
Porém independente de Crenças e Imaginações, acredito que seja plausível(e, quiçá, até incontestável) afirmar que “Seu Ser”(ou sua “essência) prescindi de nossas crenças e conjecturas. Isto é:
O fato de que eu acredito ou não que Ele exista, não muda o “fato(?)” de que Ele É(o “Eu Sou”);
o que muda a meu ver, é, apenas, que, de acordo com os meus sentidos e sentimentos(e/ou intuições), Ele passa a ser perceptível(ou não).

3º Saberia me informar alguns pensadores de opinião contrária a dele, que acreditavam que a essência poderia preterir a existência?

Não sei se consegui ser claro.

1 abraço.



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