Mia Dladla é policial e me conhece de tempos mortais. Fomos por um inverno amantes na terra, e na eterna iminência de prolongar no céu a bem-aventurança terrena, brincamos de gato e rato há mais de uma década. Sou o rato.
Parei para trocar de roupa e estou agora no edifício de mármore do 6º Distrito, aquele ladeado por fontes na imensa rotatória da Avenida Yang. Cortiano não precisa saber, mas preciso fazer essa uma última parada antes de cair de cabeça na minha missão. Deus sabe quando terei tempo de parar para pensar nisso depois que começar.
As portas do elevador se abrem para o sexto andar e ajeito a gravata, meus punhos e pescoço rescendendo a água-de-colônia. Mesmo sem esse esforço adicional sei que Mia Dladla me rastrearia muito antes que eu pudesse encontrá-la.
Não me engano: antes que eu consiga decifrar as plaquinhas do saguão Mia já me triangulou de sua porta no fim do corredor e está caminhando a passos largos entre as divisórias, os braços cruzados, a cabeça inclinada afetuosamente para o lado e um sorriso amendoado na boca.
– Se não é o velho Cirurgião.
A policial beija-me castamente o sorriso e afaga-me o rosto num gesto que abarca os cabelos da têmpora, a cartilagem da orelha e o contorno da barba de um dia.
– Lindo o seu paletó – ela completa, deslizando os dedos pelo linho até enganchá-los nos meus e começar a puxar-me pelo corredor.
Num canto iluminado do andar, separados por uma samambaia, um bebedouro, uma cafeteira e uma máquina de xerox, há dois sofás de couro vermelho dispostos em L. Mia enrodilha-se num deles com uma colher e um copo de iogurte, e indica-me com a cabeça o outro.
Ignoro a oferta e desabo no mesmo sofá em que Mia está deitada, forçando-a a recolher um pouco as pernas, exatamente como ela planejou.
– Como você está?
Desvio o olhar para o teto, teatralmente, e sorrio.
– Cansado.
– Eu soube de Sahid – ela examina o iogurte na colher. – Que loucura.
– Uns vem, outros vão – brinco.
– Para o inferno só se vai uma vez – ela sentencia, muito séria. Em seguida, erguendo os olhos para mim e com a colher entre os lábios: – Você já foi?
– Já.
– Cara, você é doido.
– É só tomar cuidado – opino, didaticamente. Apóio o cotovelo no encosto do sofá e escoro o rosto no punho fechado – É só saber quando parar.
Ela dá de ombros e iça mais uma colherada do copo.
– Você conhece as Mil e uma noites no inferno?
Intercepto gentilmente a colher da mão dela.
– Não.
– Sherazade pára na terceira – ela me observa para ver se entendi.
– Ah, a terceira noite no inferno – sorvo a colherada. – Pois eu disse, é só saber quando parar.
Estendo a colher vazia.
– Mas você não está aqui para me ouvir contar histórias – ela lamenta.
– Nem pretendo cortar-lhe a cabeça.
– E faltam bem mais de novecentas noites para completarmos mil.
– Nunca é tarde para começar.
– É só saber quando parar.
Sustento o sorriso, para indicar que sei quando parar. E porque quero que seja ela a levantar o assunto.
– Do que que você está precisando? – ela sucumbe.
Estendo o braço ao longo do encosto do sofá, de onde ela poderá acessá-lo quando quiser.
– Sahid deixou um bilhete endereçado a mim antes de partir dessa para melhor. Cortiano achou o bilhete em cima da mesa dele, mas alguém da polícia tomou o bilhete de Cortiano antes que ele pudesse me entregar.
– O que dizia o bilhete?
Faço cara de desconsolado.
– Não sei.
– Cortiano não quis te dizer?
– Ele me diz que não leu.
– O que você acha que dizia o bilhete?
Dou de ombros, como se estivesse apenas parcialmente interessado.
– Sahid era um troglodita – ela reclama, colocando de lado o copo e a colher. – Por que não mandou um torpedo?
– Sahid nunca confiou em celulares ou email. Dizia que podem ser interceptados.
– Ao contrário de bilhetes – ela zomba, e finalmente pousa a mão sobre a minha, passando a acariciar camisa adentro os pêlos do punho e do braço. – Você quer que eu lhe consiga o tal bilhete, é isso?
– Só preciso saber o teor – enfatizo. – Pode ser uma cópia.
– Não tenho como.
– Você sempre tem como.
Ela recolhe a mão.
– Não nesse caso. Não está com a gente, o bilhete.
Minha indignação, ao contrário de tudo até aqui, é genuína.
– Você sabia do bilhete?
– Todo mundo neste andar sabe. Seu bilhete tornou-se um problema para nós, meu belíssimo.
– Explique.
– Um carro da polícia estava voltando do Delta com o material da mesa de Sahid e foi interceptado num túnel da Radial. Levaram apenas o seu bilhete, mas temos certeza de quem foi o mandante. Você deve ter ouvido falar de um alto contrabandista de codinome Ermitão?
Não dou qualquer sinal de que não.
– A polícia segue há meses o rastro dessa sujeito – ela prossegue, – e sabemos há algum tempo quem se esconde atrás do nome. Um encarnado que aparece nas colunas sociais com o nome de Cyril Crepsi. Juiz Crepsi.
Ela arqueia as sobrancelhas, aguardando minha reação à revelação.
– Cyril Crepsi é um contrabandista e um ilegal do inferno. E está com o meu bilhete, é isso que você está me dizendo?
– Não. O bilhete não está mais com ele.
– E como vocês podem saber disso?
– Cyril Crepsi foi para a estremadura.
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
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- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro




