21 de Maio de 2007

Sem ver os brâmanes

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, História

Musæus, bispo de Dolens, relatou ao Autor do Tratado De Moribus Brachmanorum (supostamente Santo Ambrósio) que, tencionando ir à India para ver os Brachmans [Brâmanes], tinha viajado por quase toda a Região Serica, na qual afirmou haver Árvores que produziam não apenas folhas, mas também lã, da qual se fazem Roupas chamadas Serica; e que ali havia um memorável Pilar de pedra sobre o qual estava inscrito: Eu, Alexandre, até aqui cheguei; e que depois de atravessar muitos Países chegou finalmente a Ariana, próxima ao Rio Indo, de onde, por causa do calor intolerável, vira-se forçado a retornar à Europa sem ver os Brâmanes.

Reportou ele o que ouviu de Theabæus, um certo Erudito que foi à India a fim de ver e conferenciar com os Filósofos Indianos chamados Brâmanes e Gimnosofistas, mas foi ali feito prisioneiro.

Navegando com certos Mercadores no Mar Vermelho,  [Theabæus] chegou primeiro á Cidade dos Adulitas, ou Baía de Adulicus, depois disso ao Promontório Aromata e um Mercado dos Trogloditas, e dali aos lugares dos Assumitas, e muitos dias depois a Muziris, o Centro Comercial de toda a Índia deste lado do Ganges; tendo permanecido algum tempo ali, fez a travessia para a Ilha Taprobana.

Samuel Purchas, em seu Pilgrimes (1625)
Livro I, Capítulo X

Esta é governada por quatro Príncipes, um dos quais é o principal, ao qual os outros obedecem; a ele estão sujeitas, segundo seu próprio relato, mil ilhas dos Mares Árabico e Persa, bem como as que chamam de Mammolas. A Ilha tem cinco rios de grande porte, a uma temperatura tal que as Árvores produzem ao mesmo tempo flores e frutos, alguns verdes, outros maduros. Os homens vivem de Frutas, Arroz e Leite, e os homens mais importantes comem carne de Carneiros e Bodes nos dias solenes. [Theabæus] foi tomado como espião e mantido por seis anos na prisão, mas o Governador, por ter dessa forma usado um Cidadão Romano, foi por ordem do Imperador assasssinado.

[Theabæus] relata um misto de coisas verdadeiras e falsas, entre outras coisas também a respeito dos Brâmanes. Esses vivem nus em Regiões adjacentes ao Rio Ganges; não tem animais nem lavoura e desconhecem o uso do Ferro, bem como o de qualquer Instrumento de trabalho. Gozam de excelentes Ares e de um Clima temperado. Adoram a Deus, a respeito do qual professam um conhecimento distinto, tanto a respeito da sua Providência quanto da sua Divindade. Oram sempre, mas em sua Oração não olham para o Oriente, mas diretamente para o Céu.

Comem (como os animais) o que encontram pelo chão, folhas e ervas; conhecem a erva Inula e a Árvore Acanto. Os homens vivem na outra margem do Ganges, nas Costas do Oceano, as mulheres nesta margem; seus Maridos costumam ter intercurso com elas em Julho e Agosto (esses meses parecem ser mais frios naquela região, porque naquela época o Sol vem mais para perto de nós); depois de passarem quarenta dias com suas mulheres, retornam para casa. Depois que uma mulher tem uma criança ou duas seu Marido passa a evitá-la por completo; se em cinco anos a mulher não tem nenhum filho, ela é divorciada – pelo que sua população é reduzida.

O Rio é transposto com grande dificuldade devido à tirania do Ondonitus, que infesta essas regiões, e de determinada fera grande o bastante para devorar um Elefante. Essa fera não é vista durante a época de travessia dos Brâmanes. Há também dragões, dos quais diz-se chegarem a setenta Cúbitos de comprimento (vi uma pele que tinha quarenta e dois pés de comprimento), Formigas do tamanho da mão de um homem, Escorpiões de um Cúbito de comprimento, &tc.

Isto se esse Erudito Thebæus for digno de crédito. Há no mesmo Tratado muitas prédicas e discursos dos Brâmanes, extraídos dos Autores da vida de Alexandre, que abstenho-me de inserir aqui. Esses são de fato em muitos pontos admiráveis, isto se alguns Gregos não testaram suas mentes e faculdades em discursos Filosóficos e apresentaram o resultado como História verídica, ou pelo menos um misto de verdade e aparência, como vemos aqui neste Bispo e no seu Theabæus. Esses Gimnosofistas (conforme relatado por Megástenes) condenaram Calanus, que seguiu Alexandre e cuja epístola foi preservada numa obra de Santo Ambrósio de autoria menos suspeita, que insiro aqui da sétima Epístola de Santo Ambrósio.

[Carta de] Calanus a Alexandre. Teus amigos persuadiram-te a, sem sequer sonhar com as nossas obras, usar de violência contra um Filósofo Hindu. Pois podes remover nossos corpos de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes fazer falar Pedras e Árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos vivos, e obra corrupção; nós porém estamos acima disso, pois somos queimados vivos. Nenhum Rei ou Príncipe pode nos chantagear a fazer o que não determinamos fazer. Tampouco somos como os Filósofos da Grécia, que estudaram palavras ao invés de atitudes, a fim de angariarem para si nome e reputação. Conosco as coisas são companheiras das palavras, e as palavras das coisas; nossas atitudes são solícitas e nossos discursos breves: gozamos de uma bem-aventurada liberdade na virtude.

 



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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