Musæus, bispo de Dolens, relatou ao Autor do Tratado De Moribus Brachmanorum (supostamente Santo Ambrósio) que, tencionando ir à India para ver os Brachmans [Brâmanes], tinha viajado por quase toda a Região Serica, na qual afirmou haver Árvores que produziam não apenas folhas, mas também lã, da qual se fazem Roupas chamadas Serica; e que ali havia um memorável Pilar de pedra sobre o qual estava inscrito: Eu, Alexandre, até aqui cheguei; e que depois de atravessar muitos Países chegou finalmente a Ariana, próxima ao Rio Indo, de onde, por causa do calor intolerável, vira-se forçado a retornar à Europa sem ver os Brâmanes.
Reportou ele o que ouviu de Theabæus, um certo Erudito que foi à India a fim de ver e conferenciar com os Filósofos Indianos chamados Brâmanes e Gimnosofistas, mas foi ali feito prisioneiro.
Navegando com certos Mercadores no Mar Vermelho, [Theabæus] chegou primeiro á Cidade dos Adulitas, ou Baía de Adulicus, depois disso ao Promontório Aromata e um Mercado dos Trogloditas, e dali aos lugares dos Assumitas, e muitos dias depois a Muziris, o Centro Comercial de toda a Índia deste lado do Ganges; tendo permanecido algum tempo ali, fez a travessia para a Ilha Taprobana. Samuel Purchas, em seu Pilgrimes (1625) Esta é governada por quatro Príncipes, um dos quais é o principal, ao qual os outros obedecem; a ele estão sujeitas, segundo seu próprio relato, mil ilhas dos Mares Árabico e Persa, bem como as que chamam de Mammolas. A Ilha tem cinco rios de grande porte, a uma temperatura tal que as Árvores produzem ao mesmo tempo flores e frutos, alguns verdes, outros maduros. Os homens vivem de Frutas, Arroz e Leite, e os homens mais importantes comem carne de Carneiros e Bodes nos dias solenes. [
Livro I, Capítulo X
[Theabæus] relata um misto de coisas verdadeiras e falsas, entre outras coisas também a respeito dos Brâmanes. Esses vivem nus em Regiões adjacentes ao Rio Ganges; não tem animais nem lavoura e desconhecem o uso do Ferro, bem como o de qualquer Instrumento de trabalho. Gozam de excelentes Ares e de um Clima temperado. Adoram a Deus, a respeito do qual professam um conhecimento distinto, tanto a respeito da sua Providência quanto da sua Divindade. Oram sempre, mas em sua Oração não olham para o Oriente, mas diretamente para o Céu.
Comem (como os animais) o que encontram pelo chão, folhas e ervas; conhecem a erva Inula e a Árvore Acanto. Os homens vivem na outra margem do Ganges, nas Costas do Oceano, as mulheres nesta margem; seus Maridos costumam ter intercurso com elas em Julho e Agosto (esses meses parecem ser mais frios naquela região, porque naquela época o Sol vem mais para perto de nós); depois de passarem quarenta dias com suas mulheres, retornam para casa. Depois que uma mulher tem uma criança ou duas seu Marido passa a evitá-la por completo; se em cinco anos a mulher não tem nenhum filho, ela é divorciada – pelo que sua população é reduzida.
O Rio é transposto com grande dificuldade devido à tirania do Ondonitus, que infesta essas regiões, e de determinada fera grande o bastante para devorar um Elefante. Essa fera não é vista durante a época de travessia dos Brâmanes. Há também dragões, dos quais diz-se chegarem a setenta Cúbitos de comprimento (vi uma pele que tinha quarenta e dois pés de comprimento), Formigas do tamanho da mão de um homem, Escorpiões de um Cúbito de comprimento, &tc.
Isto se esse Erudito Thebæus for digno de crédito. Há no mesmo Tratado muitas prédicas e discursos dos Brâmanes, extraídos dos Autores da vida de Alexandre, que abstenho-me de inserir aqui. Esses são de fato em muitos pontos admiráveis, isto se alguns Gregos não testaram suas mentes e faculdades em discursos Filosóficos e apresentaram o resultado como História verídica, ou pelo menos um misto de verdade e aparência, como vemos aqui neste Bispo e no seu Theabæus. Esses Gimnosofistas (conforme relatado por Megástenes) condenaram Calanus, que seguiu Alexandre e cuja epístola foi preservada numa obra de Santo Ambrósio de autoria menos suspeita, que insiro aqui da sétima Epístola de Santo Ambrósio.
[Carta de] Calanus a Alexandre. Teus amigos persuadiram-te a, sem sequer sonhar com as nossas obras, usar de violência contra um Filósofo Hindu. Pois podes remover nossos corpos de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes fazer falar Pedras e Árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos vivos, e obra corrupção; nós porém estamos acima disso, pois somos queimados vivos. Nenhum Rei ou Príncipe pode nos chantagear a fazer o que não determinamos fazer. Tampouco somos como os Filósofos da Grécia, que estudaram palavras ao invés de atitudes, a fim de angariarem para si nome e reputação. Conosco as coisas são companheiras das palavras, e as palavras das coisas; nossas atitudes são solícitas e nossos discursos breves: gozamos de uma bem-aventurada liberdade na virtude.





