– Gostei do chinelo – ela me diz quando me aproximo do carro.
Bato a porta e dou um suspiro. Cassandre está erguendo e abaixando o Manual aberto numa mão espalmada, como se estivesse tentando avaliar o peso.
– Vocês não têm noite – ela me repreende, com um meio sorriso. – Nem chuva.
– Mas temos sexo, coisa que você não esperava – ela coloca sua mão sobre a minha antes que eu possa girar a chave na ignição.
– O sexo não compensa a falta de noite. Nada compensa nada.
– Eu também acho isso – suspiro de novo, e toco Cassandre brevemente no queixo com o punho fechado. – Mas o paraíso não tem sutilezas, princesa. A ausência de noite é para ser uma marca de bem-aventurança, um símbolo visível da vitória final da alma sobre as trevas. Lux aeterna, aquela história.
– Você resolveu o que tinha de resolver?
– Só mais uma parada, e posso deixá-la onde você quiser – esclareço.
– Ainda não sei onde quero ficar.
– Você não vai querer ficar comigo pra sempre – observo, tentando parecer casual. – Não encontrou alguma luz no Manual?
Pouso a mão sobre a capa amarela do livro.
– Você também não tem muita sutileza, seu velho sedutor – a jovem afasta minha mão. – Agora entendo a conveniência de você ter me arranjado um exemplar proibido do seu Manual.
– E qual seria? – minhas sobrancelhas apertam a testa para o alto.
– Pra eu ter de te perguntar sobre o que o livro não diz.
Levo os dedos à ignição.
– Deixe ser eu a perguntar: o que livro não diz?
– Nenhuma palavra sobre o inferno, naturalmente. Nada de nada, nenhuma menção de normas, fronteiras, imigrantes ou ilegais. Vasculhei todas as possibilidades no Índice Remissivo. Pelo seu Manual o inferno não existe.
– E você, acha que existe?
Ela fecha o livro e joga-o no banco de trás, com impaciência apenas em parte fingida. Já estou manobrando no pasto de Andu e tomando a estrada de terra que nos levará de volta à rodovia.
– Me conte sobre o inferno – ela pede, condescendentemente.
Impossível dizer quantas vezes antecipei essa conversa. Faço o Cabriolet avançar devagar.
– O céu não tem relações diplomáticas com o inferno, isso você já percebeu. Não o reconhecemos como território. Mas você está vendo aquela serra azulada na distância? Ali já é o inferno.
Ela examina a brecha entre as árvores naquela direção, procurando alguma singularidade que possa ver.
– É grande?
– Tão grande quanto o céu, aparentemente. O céu não é pequeno, tanto que nunca encontramos um fim, mas em toda a sua circunferência parece haver uma fronteira com o inferno. Os teólogos discutem até hoje sobre qual dos dois é contido pelo outro.
– Dá pra ir lá?
– Falando não oficialmente, dá e todo mundo sabe. Mas são poucos os que tem coragem de visitar.
– Por quê?
– Medo da tentação. E medo de não poderem voltar. Depois de três dias no inferno um habitante do céu torna-se permanente. Adquire aquele tom vermelho de pele que você viu nos encarnados do shopping, e não pode voltar para o paraíso mesmo que queira.
Ela aperta os lábios, considerando as implicações do que eu disse.
– O que tem lá?
– Lá é bem diferente daqui – asseguro.
– Você já foi?
Olho um instante para a cadeia de montanhas.
– Já. A diferença mais importante é que no inferno, ao contrário daqui, as coisas estão sujeitas à decomposição. Tudo pode dar errado no inferno. Você pode se ferir, se machucar. Morrer.
Ela não tinha como antecipar essa notícia, mas recupera-se logo.
– E quem morre no inferno, vai para onde?
Fito Cassandre nos olhos.
– Quem disse que vão para algum lugar?
– E os habitantes do inferno, como imigram para cá?
– Ilegalmente, de mil maneiras diferentes. Mas também não podem voltar. Vivem como marginais entre nós, mas beneficiam-se pelo menos da imortalidade. Alguns crêem que a barganha vale à pena.
– Você me levaria lá? – ela fica muito séria de repente.
Não desvio a atenção da estradinha.
– Se você quisesse. Agora pergunte quanta gente eu conheço que foi para o inferno e não voltou.
– Muita gente?
– Muita gente – sorrio. – Tenho grandes amigos no inferno.
– Foram expulsos? Exilados?
– Não. Voluntariamente, decididos a ficar. Um amigo meu costumava dizer que nós fornecemos esperança aos habitantes do inferno, e eles nos fornecem tentação.
– Oh.
– Esse mesmo amigo, curiosamente, foi para o inferno não faz muito tempo. Sucumbiu, como costuma aparecer nos relatórios oficiais.
– A esperança que o céu fornece ao inferno é a imortalidade, isso entendi na frase do seu amigo. Mas qual é a tentação do inferno?
– As tentações. São bem mais de uma. Lá tem noite – ergo as sobrancelhas, sem desmanchar o sorriso. – Lá tem chuva.
Ela abre um pouco a boca.
– Lá tem rios – prossigo, – e cachoeiras. Dizem, não sei se é verdade, que tem até mar.
– E no céu não?
– Não. Temos piscinas, açudes, banheiras de hidromassagem e parques aquáticos, quantos você quiser, mas não rios, sinto dizer. Nem mar.
– Talvez valha o risco – ela pondera. – Ganhar a noite e o mar em troca da imortalidade.
– Mas essa não é a tentação maior – explico. – Tem a questão da memória, as lembranças que as pessoas deixam nas caixas de coleta da entrada do céu.
– O que tem elas? – minha presa já deve ter intuído o que estou para dizer.
– O que tem é que não podem ser recuperadas no céu. Enquanto estiver no paraíso a pessoa jamais terá acesso às lembranças de que abriu mão quando entrou aqui. Mas há um meio de recuperá-las.
– Indo para o inferno – Cassandre está olhando para as montanhas.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda



Júnior
Paulo, desde ontem tento e não consigo terminar de ler o Sexto Passo e os comentários inseridos, já tentei numa pá de computadores. Sempre: Error! Será que o problema é de cá?
Paulo Brabo
Júnior, acabo de encaminhar uma cópia do texto completo para o seu e-mail. Não consegui repetir o erro que você menciona em nenhum dos navegadores que tentei. O erro aparece quando você clica em “continue lendo”?
Júnior
Não só, mas quando clico no # comentários ou no do Lou ao lado, pois sempre entro na gruta por aqui; nunca lembro o endereço. E em “continue lendo” também. Obrigado.
Isa
Paulinho do meu coração… não acredito que voce não sabe como continuar essa história… agora que começou, tem de terminar.
Paulo Brabo
Ufa, achei que ninguém ia pedir.
Estou muito ocupado esses dias, mas creio que sei como terminar a história. Salvo engano.
Aguarde por favor mais alguns dias. Este é apenas o começo das dores.
Júnior
Pois é, tão ocupado que não enviou a cópia do texto “Sexto Passo’ pro meu e-mail até hoje, vê se pode! Salvo engano se extraviado.
Paulo Brabo
Júnior, mandei o texto pra você às 13:47 do dia 20 de março, via “Encaminhe este artigo”.