20 de Março de 2007

Remissivo

Confiscado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Gostei do chinelo – ela me diz quando me aproximo do carro.

Bato a porta e dou um suspiro. Cassandre está erguendo e abaixando o Manual aberto numa mão espalmada, como se estivesse tentando avaliar o peso.

– Vocês não têm noite – ela me repreende, com um meio sorriso. – Nem chuva.

– Mas temos sexo, coisa que você não esperava – ela coloca sua mão sobre a minha antes que eu possa girar a chave na ignição.

– O sexo não compensa a falta de noite. Nada compensa nada.

– Eu também acho isso – suspiro de novo, e toco Cassandre brevemente no queixo com o punho fechado. – Mas o paraíso não tem sutilezas, princesa. A ausência de noite é para ser uma marca de bem-aventurança, um símbolo visível da vitória final da alma sobre as trevas. Lux aeterna, aquela história.

– Você resolveu o que tinha de resolver?

– Só mais uma parada, e posso deixá-la onde você quiser – esclareço.

– Ainda não sei onde quero ficar.

– Você não vai querer ficar comigo pra sempre – observo, tentando parecer casual. – Não encontrou alguma luz no Manual?

Pouso a mão sobre a capa amarela do livro.

– Você também não tem muita sutileza, seu velho sedutor – a jovem afasta minha mão. – Agora entendo a conveniência de você ter me arranjado um exemplar proibido do seu Manual.

– E qual seria? – minhas sobrancelhas apertam a testa para o alto.

– Pra eu ter de te perguntar sobre o que o livro não diz.

Levo os dedos à ignição.

– Deixe ser eu a perguntar: o que livro não diz?

– Nenhuma palavra sobre o inferno, naturalmente. Nada de nada, nenhuma menção de normas, fronteiras, imigrantes ou ilegais. Vasculhei todas as possibilidades no Índice Remissivo. Pelo seu Manual o inferno não existe.

– E você, acha que existe?

Ela fecha o livro e joga-o no banco de trás, com impaciência apenas em parte fingida. Já estou manobrando no pasto de Andu e tomando a estrada de terra que nos levará de volta à rodovia.

– Me conte sobre o inferno – ela pede, condescendentemente.

Impossível dizer quantas vezes antecipei essa conversa. Faço o Cabriolet avançar devagar.

– O céu não tem relações diplomáticas com o inferno, isso você já percebeu. Não o reconhecemos como território. Mas você está vendo aquela serra azulada na distância? Ali já é o inferno.

Ela examina a brecha entre as árvores naquela direção, procurando alguma singularidade que possa ver.

– É grande?

– Tão grande quanto o céu, aparentemente. O céu não é pequeno, tanto que nunca encontramos um fim, mas em toda a sua circunferência parece haver uma fronteira com o inferno. Os teólogos discutem até hoje sobre qual dos dois é contido pelo outro.

– Dá pra ir lá?

– Falando não oficialmente, dá e todo mundo sabe. Mas são poucos os que tem coragem de visitar.

– Por quê?

– Medo da tentação. E medo de não poderem voltar. Depois de três dias no inferno um habitante do céu torna-se permanente. Adquire aquele tom vermelho de pele que você viu nos encarnados do shopping, e não pode voltar para o paraíso mesmo que queira.

Ela aperta os lábios, considerando as implicações do que eu disse.

– O que tem lá?

– Lá é bem diferente daqui – asseguro.

– Você já foi?

Olho um instante para a cadeia de montanhas.

– Já. A diferença mais importante é que no inferno, ao contrário daqui, as coisas estão sujeitas à decomposição. Tudo pode dar errado no inferno. Você pode se ferir, se machucar. Morrer.

Ela não tinha como antecipar essa notícia, mas recupera-se logo.

– E quem morre no inferno, vai para onde?

Fito Cassandre nos olhos.

– Quem disse que vão para algum lugar?

– E os habitantes do inferno, como imigram para cá?

– Ilegalmente, de mil maneiras diferentes. Mas também não podem voltar. Vivem como marginais entre nós, mas beneficiam-se pelo menos da imortalidade. Alguns crêem que a barganha vale à pena.

– Você me levaria lá? – ela fica muito séria de repente.

Não desvio a atenção da estradinha.

– Se você quisesse. Agora pergunte quanta gente eu conheço que foi para o inferno e não voltou.

– Muita gente?

– Muita gente – sorrio. – Tenho grandes amigos no inferno.

– Foram expulsos? Exilados?

– Não. Voluntariamente, decididos a ficar. Um amigo meu costumava dizer que nós fornecemos esperança aos habitantes do inferno, e eles nos fornecem tentação.

– Oh.

– Esse mesmo amigo, curiosamente, foi para o inferno não faz muito tempo. Sucumbiu, como costuma aparecer nos relatórios oficiais.

– A esperança que o céu fornece ao inferno é a imortalidade, isso entendi na frase do seu amigo. Mas qual é a tentação do inferno?

– As tentações. São bem mais de uma. Lá tem noite – ergo as sobrancelhas, sem desmanchar o sorriso. – Lá tem chuva.

Ela abre um pouco a boca.

– Lá tem rios – prossigo, – e cachoeiras. Dizem, não sei se é verdade, que tem até mar.

– E no céu não?

– Não. Temos piscinas, açudes, banheiras de hidromassagem e parques aquáticos, quantos você quiser, mas não rios, sinto dizer. Nem mar.

– Talvez valha o risco – ela pondera. – Ganhar a noite e o mar em troca da imortalidade.

– Mas essa não é a tentação maior – explico. – Tem a questão da memória, as lembranças que as pessoas deixam nas caixas de coleta da entrada do céu.

– O que tem elas? – minha presa já deve ter intuído o que estou para dizer.

– O que tem é que não podem ser recuperadas no céu. Enquanto estiver no paraíso a pessoa jamais terá acesso às lembranças de que abriu mão quando entrou aqui. Mas há um meio de recuperá-las.

– Indo para o inferno – Cassandre está olhando para as montanhas.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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