A cidade reage quando ele passa, como uma planta que troca as folhas de lugar com a passagem da manhã para a tarde. O dia é nublado com brechas; perfurando as nuvens muito brancas, o sol derrama focos efêmeros de radiância sobre as ruas, sobre as árvores e sobre as pessoas, como um iluminador de teatro procurando protagonistas.
O jovem avança vorazmente tarde adentro, botas contra paralelepípedos, ruminando todos os círculos que tem de fechar. Ele evita o portão cinza do cemitério luterano onde estão Leonar e Mutt e suas bisavós e seus quatro avós e sua mãe, mas não seus bisavôs e não seu pai. Ele escala a ladeira impossivelmente íngreme da Rua da Ponte e pausa diante dos largos ciprestes do conservatório; num único gesto ele despeja na calçada, como um lavrador que rejeita a semente que não tem como germinar, as incontáveis manhãs frias que passou nas salinhas de piano daquele lugar, ensaiando numa encarnação anterior do coro de meninos – o mesmo no qual cantava, até o que parece que foi ontem, Otero.
Ele salta sem bater palmas o muro baixo do casarão cor-de-rosa de Maria Mesquita, em cujo galpão veio recolher as fileiras de cogumelos que colocara para secar. Maria Mesquita, que já era velha quando ele era criança; que a cada visita dele e de seus primos a esta casa fornecia poemas, figurinhas, docinhos de pêssego cobertos de açúcar e cartas avulsas de jogo do mico. De todos que o jovem vai encontrar naquela tarde, Maria Mesquita é a única que, desajeitadamente, lhe dá um abraço. Misericordiosamente, porém, e docemente, ela nada diz, e é o mesmo quando ele atravessa o pasto do Mano para pegar o saco de ameixas, quando avança pelas sombras do monastério para pegar as lingüiças e bate na porta do reitor para recolher a encomenda de ovos, ovos vermelhos de pata, embalados um a um com notícias da guerra. Cada um desses velhos amigos dá um jeito de lhe entregar, furtivamente, um pequeno presente além da encomenda que ele veio buscar e pela qual faz questão de pagar: Maria Mesquita aperta-lhe nas mãos secas uma flor e uma latinha de nata, o Mano um envelope de amendoins salgados, o prior mete na mochila de lona um exemplar minúsculo, de capa verde, de A Imitação De Cristo, e o reitor oferece a promessa de que, no que depender dele, Adra e o bebê terão sempre tudo de que precisarem.
Na extremidade da cidade ele pára para ver Gottlob, que não está em casa e talvez esteja morro acima com as cabras, ou no vale com os joelhos atolados nos arrozais. Ele deixa no pé da porta, equilibrado no vértice entre quatro losângos, um único ovo, esperando que o amigo que não verá mais entenda a mensagem.
Ele volta para casa subindo o rio, porque quer vê-lo na última luz e porque prefere não atravessar novamente a cidade, não hoje.
Em casa ele derrama-se sobre Adra e despem-se no quarto e ele abre seus presentes. Ela chora diante dos perfumes, porque terão ovos e lingüiça e cogumelos e ameixas e nata e amendoins, e é a última noite deles antes do apito do trem, e amanhã começará o derradeiro racionamento.
– Otero? – ele pergunta, enquanto ela compõe recatadamente os alimentos nas cestinhas da cozinha.
– Hoje farei uma sopa – ela anuncia. – Sobrou ainda um pouco de vagens e batata e mel. Teremos um banquete. Otero está no celeiro.
– Como ele está?
Ela não responde e ele sai para a vermelhidão. As nuvens partiram em regimentos para os contrafortes das montanhas, deixando o sol livre para redimir o último ângulo do vale. No alto do morro, sentado de pernas cruzadas no alto de um saco de grãos, sob o abrigo do celeiro e olhando cegamente para o pôr-do-sol, está o menino de nove anos e meio.
Ele aproxima-se sem dizer uma palavra, puxa uma caixa empoeirada e senta-se ao lado do irmão, que não chora mais mas não tem aparentemente nada a acrescentar. Na parede atrás deles está preso o velho mapa do continente que já pertenceu ao pai deles. Alguns nomes e fronteiras mudaram desde a última guerra, mas Otero vem demarcando o avanço das frontes com os alfinetes coloridos que roubou de Adra, a partir de informações contrabandeadas dos recortes de jornal do mural da sala dos professores.
– Quando papai morreu – ele decide que vale à pena corrigir-se antes de prosseguir. – Quando papai foi para a guerra você tinha três anos e eu dezessete, por isso o que ele não teve oportunidade de fazer cabe agora a mim. Você sabe, todo mundo sabe, que o nosso vilarejo tem um estatuto secreto, que tem garantido nossa paz de espírito durante incontáveis gerações. Você é ainda muito novo, mas posso não ter outra oportunidade. Quero lhe falar agora sobre o Estatuto, e quando for necessário você deve falar ao seu filho da mesma forma.
Sem tirar os olhos da escuridão púrpura que tinge o crepúsculo, ele se alonga com a precisão do homem que não tem tempo. Explica que o Estatuto é tão velho quanto a aldeia; diz-se, ele explica, que precede a chegada dos italianos, precede os alemães, os saxões, os celtas e romanos e talvez até mesmo os homens. O Estatuto é a lei do lugar, e sua paz. Seu conteúdo é simples e sua jurisdição pertence apenas aos cidadãos do sexo masculino; as mulheres podem chegar a ouvir que ele existe, mas o Estatuto não pertence às mulheres e elas jamais saberão o que ele diz.
– Quando há uma guerra ameaçando o horizonte da cidade – ele cita, – isto é, quando não é mais possível ignorar a guerra que se entrevê na distância, todo homem capaz deve apresentar-se voluntariamente para proteger a integridade da província.
– Todo mundo sabe disso – observa Otero, recusando-se a olhar para o irmão mesmo na escuridão. – Isso não tem como ser o Estatuto.
– De fato não é, mas você sabe que a guerra jamais tocou o nosso chão. O racionamento sim, é claro, e o recrutamento e as perdas, mas não o bombardeio e o sítio e o sangue.
Ele pára para ponderar sobre o que acaba de dizer. A noite caiu por completo e lá embaixo só as luzinhas da casa e uma sugestão da fumaça da chaminé.
– O Estatuto é o seguinte – ele morde o lábio inferior. – A participação da aldeia na guerra deve ser evitada enquanto for possível, mas o homem que for para a guerra não deve jamais voltar.
E ele olha para o perfil do irmão, esperando que ele tenha idade para entender.
– Não entendi. Mesmo se ele sobreviver?
– Mesmo se sobreviver – ele desvia os olhos para o chão, coça o pulso com o indicador da outra mão. – Se sobreviver à guerra ele pode tentar a vida em outro lugar, pode, não sei, recomeçar, mas não pode voltar. É esse o estatuto.
– Foi por isso que papai não voltou?
– Papai morreu. Papai morreu na guerra. Foi por isso que ele não voltou.
– Isso quer dizer que você não vai voltar? Nunca mais?
– Não vou voltar, mano, mas é melhor que seja assim. Vocês estarão protegidos, você e meu filho, de quaisquer horrores que eu poderia trazer comigo. Não nos veremos mais, Otero, por isso é importante que você cuide da minha família. Cuide da minha Adra e do meu bebê. Você vai fazer isso?
O menino, ofegante, não ousa responder.
– Antes de partir, meu irmãozinho, quero lhe dar um presente, algo que você sempre quis.
Ele tira o revólver do bolso interno da jaqueta de couro e estende o cabo para o menino. Eles descem o caminho juntos, em silêncio, e ele é grato porque não ocorre ao irmão fazer a única pergunta que ele prefere não responder. A guerra já tocou a vida de Otero o quanto basta. É melhor que ele não precise pensar no que acontece quando um homem viola o estatuto, o que acontece quando um homem volta. Que ele não saiba quando foi usado o revólver.
Naquela noite os três comem em paz, e na manhã seguinte ele acorda beijando a barriga esférica de Adra e partem, ele e seus amigos, ao apito do trem, para a terra onde não há futuro e que é, ele sabe, todo lugar.

A partir de uma idéia original de Ivan Volcov




