14 de Março de 2007

Quando as mulheres dominavam a Terra

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Homens e Mulheres, Sociedade

O maior emblema da vitória final da ideologia capitalista no século XX não foi a Queda do Muro e a subseqüente derrocada dos socialismos, mas a entrada da mulher no mercado de trabalho.

A transição recebeu diferentes rótulos, todos com conotações positivas para as mulheres – feminismo, liberação da mulher, regime igualitário, – porém minha impressão é que, oculto sob o discurso da valorização da mulher, estava o triunfo definitivo de valores tradicionalmente masculinos.

Cedendo à simplificação e deixando de lado as exceções, pode-se dizer que durante milênios a participação da mulher na sociedade ocidental representou uma alternativa real ao modo masculino de agir e pensar. Ser mulher era epitomar um modo de vida subsersivo, livre (em maior ou menor grau) das obsessões circulares da testosterona: a agressividade, a competividade, a combatividade e a acumulação compulsiva de territórios, bens e parceiros sexuais.

O mundo dos homens sempre foi das conquistas e rivalidades, e portanto dos capitalismos. O domínio da mulher permanecia em grande parte no campo do imponderável, o domínio de coisas antiquadas e gays como o amor, o silêncio, a compaixão, a generosidade, a expressividade, a pausa, o cultivo, o sacrifício, a partilha. O homem cultuava tradicionalmente a performance, a mulher cultuava o afeto. Os homens eram combativos como cristãos, as mulheres desprendidas e zen. O homem priorizava os objetivos, a mulher priorizava os relacionamentos. A postura do homem era sair para o combate, a da mulher abraçar na esperança de que o homem enxergasse a insensatez do combate. O patriarca, mais fraco, saía para trabalhar e caçar; a matriarca, infinitamente mais poderosa e influente, governava de sua cadeira e fazia com que os homens girassem ao seu redor como satélites.

Com a entrada definitiva da mulher no mercado de trabalho, por ocasião do escoamento dos homens no crivo da Segunda Guerra Mundial, esse cenário se alterou. Oficialmente as mulheres estavam a partir de agora “reivindicando seus direitos” e “conquistando o seu espaço”. Mais propriamente, estavam dando o seu aval às obsessões masculinas e confessando que apenas o espaço dos homens era legítimo. Depois de séculos de brava resistência, as mulheres dobravam-se no altar da performance.

Como conseqüência, o ocidente sofreu uma tremenda perda no campo da “biodiversidade” cultural, e o capitalismo voltou para casa com o braço cheio de troféus e trunfos.

As mulheres foram alçadas à condição de homens honorários.

A situação é inusitada. Não sabemos dizer com qualquer grau de certeza o que espreita hoje por trás do conceito de “feminino”, exceto que grande parte das mulheres receberia o qualificativo como insulto.

Como tornou-se politicamente incorreto associar a mulher ao conceito tradicional de feminilidade, a história e a arte vêm sofrendo uma rigorosa e contínua revisão. Os traços do feminino não-combativo são eliminados com diligência bolchevique tanto de lendas quanto de narrativas históricas.

A doce donzela Guinevere, do ciclo das lendas da Távola Redonda, teve de ser redesenhada como guerreira implacável, precisa e sanguinária no filme Rei Arthur, de 2004. Esta decisão é emblema de uma onipresente tendência: a fim de evitar os embaraços causados pela postura tradicionalmente feminina de heroínas como Guinevere, essas são “alçadas” artificialmente à condição de homens honorários – altura de onde lançam flechas, desferem socos, lideram exércitos e cospem no chão. Na verdade apenas os homens e seu mundo é que são honrados, mas a maioria das mulheres parece se aplacar diante dessa insultuosa homenagem.

Mesmo um livro como O Código Da Vinci, cuja trama secreta diz respeito à recuperação do “feminino” na história, faz de Maria Madalena mera competidora na luta tipicamente masculina dos discípulos pelo poder. A Madalena de Dan Brown é mulher sem face e sem alma, inteiramente mergulhada no mundo dos homens e deixando-se moldar eficazmente por ele.

O capitalismo, como eu ia dizendo, celebra nessa capitulação das mulheres à combatividade masculina sua mais retumbante vitória. Assim que a mulher caiu na tentação do mundo dos resultados a oferta de mão de obra dobrou instantaneamente, e o mercado encheu-se de possibilidades e promessas que renderam exponencialmente. Não apenas a mulher tornou-se público consumidor independente, com direito a seus próprios produtos e meios de comunicação, mas sua entrada em cena possibilitou a criação de novos públicos onde ninguém imaginava que poderia haver um. Sentindo-se culpadas por não ficarem em casa “cuidando dos filhos,” e ao mesmo tempo benificiando-se de sua nova independência financeira, as mulheres passaram a encher seus filhos de presentes, transformando o infantil no público de maior poder decisão de todo o mercado – condição inteiramente inconcebível há meros cinqüenta anos atrás.

Se por um lado o mercado saiu ganhando com a glorificação do individualismo, por outro homens e mulheres contabilizam ainda as suas perdas. Os homens foram privados do exemplo de sanidade que lhes restava, e não são mais convidados pelo exemplo das mulheres à salubridade de uma vida menos ambiciosa e de maior significado. Hoje não há quem não acredite que só existe auto-realização e auto-expressão, e portanto valor, no trabalho remunerado. Seduzidas por essa conversa, as mulheres perderam muitos de seus privilégios mais incisivos e essenciais; em especial, a autoridade de zombar do modo de vida dos homens.



10 Comentários a respeito de "Quando as mulheres dominavam a Terra"

Marcelo Pinto

Mais uma vez, tenho que dar a mão à palmatória e reprocessar meus valores e certezas. Você tirou meu chão, e hoje sinto vergonha de algumas colocações que já fiz. Mas viver é isso, reconhecer erros e começar sempre uma nova pintura…

Extraordinário!



bete p.silva

Esse texto ou esse discurso sempre esteve entalado dentro de mim, só que eu nunca tive tempo (leia-se competência) para escrever algo assim. Mas é algo que eu gostaria de ter escrito, porque ele espelha toda a minha angústia de ser uma mulher-homem. Ou um homem-mulher. Ou coisa pior.



Lou Mello

Sua competente (como sempre) exposição lança, ainda mais, luz sobre uma verdade que está bem a nossa frente e teimamos em não ver.

A mulher tornada homem (não conheço um verbo para expressar isso) é uma ameaça à espécie (se não, a pior). Sem dúvida, essa mutação é produto do capitalismo, o único a obter benefícios com o fato. A mulher deve ser livre. O mercado de trabalho é escravizante, para todos.



Tuco

Se elas cometeram o pecado de se ‘homenzar’ (seria esse o verbo, Lou?), não deveríamos nós ter a coragem de assumir a vaga?



Wander Morínigo Teixeira

Aí a inversão deixaria de ser parcial para ser total.

Mulheres trabalhadoras e duronas, homens donas-de-casa e sensíveis. Os gays, para não se igualar aos homens, voltariam a ser durões, como as mulheres.



Farah

Paulo eu espero que a Luciana leia esse texto. Creio que uma revolta contra essa realidade que vc descreve foi o inicio da procura dela por uma outra realidade feminina mais interessante. Bom vc sabe ela está feliz e contente, casada morando em Doha, e trabalhando calmamente sem a necessidade de disputar o espaço capitalista masculino. Já que lá os espaços são bem definidos. Mas a frase ”’alçadas’ artificialmente à condição de homens honorários”, do texto me lembrou que numa determinada ocasião a Rainha Elizabeth ll da Inglaterra foi alçada à condição de Homem Honorário para poder participar de um banquete tradicional na Arabia Saudita do qual só podiam participar homens.



Anderson

Depois desse texto, alimento coragem para dizer a vocês o que já andava deduzindo: o Cristianismo é uma fé muito mais feminina que masculina.



Tato Egg

Eu andei pensando muito nessas inversões de valores nas últimas semanas, principalmente depois de cometer o terrível pecado de admitir, na frente de três colegas de trabalho, que nunca havia presenteado minha filha (de 4 anos de idade) com uma boneca Barbie, por não gostar muito do estereótipo que ela reforça, principalmente com relação ao cada vez mais perseguido “padrão de beleza” loiro, de pernas compridas, cinturinha minúscula e peitões.

Fiquei surpreso ao ouvir o côro que elas imediatamente fizeram em minha homenagem: “machista, machista, machista”.

Onde já se viu achar que as meninas devam se contentar com seus corpinhos naturalmente lindos? Querer ensinar à própria filha que ela não deve ser neurótica em perseguir um padrão de beleza exterior só atingível, para 99,8% das mulheres, às custas de cirurgias, silicones, malhação exagerada, tratamentos especializados, muita maquiagem, tintura, lentes de contato e obediência cega à ditadura da moda? Isso é mesmo de um machismo revoltante…

Fiquei pensando em como é difícil hoje ser mulher. Em como cada vez mais exige-se delas que sejam profissionais de “sucesso” (ou seja: ganhem muito dinheiro e mandem num monte de gente), amantes maravilhosas, ótimas mães, terem bunda lisinha, falarem inglês e espanhol, serem livres (?) e independentes (??)…

P.S. – nada contra as meninas que brincam de Barbie, nem contra os pais que as compram… :o)



Mariza Musenek

Feliz foi minha avó, que se realizava ao ver os netos sentados ao redor da mesa, comendo pão com manteiga e tomando café com leite!!! Acho que todos nós precisamos rever valores, ideiais e concepções… Este artigo foi demais!!!



Hadassa Manna

Oi, tudo bem?

Achei muito interessante este seu texto. Você se importaria se eu reproduzisse uma parte em meu blog (com seu nome, claro)?

Deus abençoe cada vez mais!

Hadassa



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