– Sua casa é linda, sua rua é perfeita – opina Cassandre, sem qualquer ênfase ou empolgação, quando saímos de carro. – Nunca vi verdes tão vivos e gramados tão bem-cuidados.
– O céu é inteiro assim – concordo, com uma ponta de amargura. – Com o tempo você se acostuma. Já está pronta para escolher a sua casa?
– Posso escolher a minha casa? – novamente, mais incrédula perplexidade do que entusiasmo.
– No céu você pode ter tudo que quiser. Mas você já sabe disso.
– Posso ter a sua casa?
– Não – sorrio. – Minha casa é minha. Você tem de escolher a sua.
– Eu escolho a sua.
– Não, Cassandre. Você pode ter uma casa melhor do que a minha. Você pode ter —
– Quero a sua casa.
– Sua casa pode ser idêntica à minha. Pode ser perto da minha. Mas não a minha.
– Quero a sua casa.
– A superabundância do céu existe para evitar esse tipo de coisa – argumento, mentindo apenas ao dar a entender que funciona.
– Quero a sua casa.
– Impossível – sentencio, e deixo um minuto correr antes de proferir a contra-proposta. – Você pode morar comigo.
Silêncio.
Ao final de uma curva, na sombra de olmos e eucaliptos, abre-se o vasto gramado que é o estacionamento do Glasmann.
Abro minha porta, tiro as meias e os sapatos, deixo sobre o banco do motorista e saio descalço pela grama em direção aos elevadores panorâmicos.
– Venha – ofereço o braço estendido, – vamos fazer compras.
– Vai deixar a chave no contato?
– Vou, venha. Vamos escolher outro carro. Venha.
Três minutos depois os elevadores despejam-nos os dois e um trio agitado de adolescentes no imenso arco do mezanino central do shopping, debaixo de uma imensa estrutura vazada de placas de vidro com forma humana. A figura, que está sentada em pose de pensador sobre o teto envidraçado do shopping, tem lâmpadas branco-azuladas em cada uma das extremidades – pés, cotovelos, joelhos, queixo, nariz, mãos, – formando como que uma constelação.
– Por que você me trouxe aqui?
– Quero sapatos novos. E um carro.
Digo isso e já estou examinando uma vitrine com gravatas peroladas e sapatos avermelhados e reluzentes de couro alemão. Cassandre avança devagar pelo corredor, admirando as telas iluminadas de uma loja de produtos eletrônicos.
– Escolha o que você quiser.
– Isso poderia ser um shopping da Terra – ela mantém a boca entreaberta, sem prestar atenção no que eu disse. – As marcas são as mesmas. Os modelos, os lançamentos…
– Aqui é a Terra, Cassandre – corrijo, apoiando o braço na vitrine que ela está examinando. – E, sim, os lançamentos chegam até nós com uns poucos dias de atraso. Algumas vezes chegam até antes.
– Incrível – ela olha ao redor de braços cruzados, menos impressionada do que deveria.
– Venha, vamos achar um carro – conduzo-a gentilmente pelo cotovelo.
Mas ela já estacou na frente de uma joalheria.
– Gostou desse? – sorrio.
Ela não responde, mas entro na loja, inclino o corpo sobre o balcão e ergo a gargantilha do pedestal.
– Fique com ele – informo, oferecendo os braços estendidos para ajudá-la a colocar.
– Não, não tenho como aceitar. Eu só —
– Você não precisa aceitar. Ele já é seu. Tudo é seu, Cassandre.
– Você quer dizer que – ela já cedeu, erguendo os cabelos com as duas mãos, e dei a volta para ajudá-la com o fecho. – Quer dizer que tudo nesse shopping é de graça?
– Só pra você – sorrio, e beijo-lhe os lábios fechados por um instante. – Que tal com aquele vestido?
Já atravessei o corredor.
– Não, não preciso de nada. Nem dos seus beijos – ela abaixa minha mão da superfície da vitrine. – Vocês não têm dinheiro.
É mais constatação do que pergunta.
– Dinheiro é coisa do inferno – brinco. – Não, não temos dinheiro.
– Então tudo é de graça?
– É claro que não.
– Não estou entendendo.
– Não usamos dinheiro, mas todo lugar tem a sua moeda. Até aqui no céu.
Ela recusa-se a olhar para mim, mas continua me interrogando.
– E qual é a moeda de vocês?
Hesito, porque essa é sempre a parte mais difícil de explicar.
– Nossa moeda, Cassandre, é o tráfico de favores.
Ela pára um momento e faz menção de tirar o colar. Impeço imprimindo minha mão contra o seu colo.
– Não, não, você não me deve nada – explico. – Coisas materiais não pagam favores. E vice-versa.
– Mas como funciona a troca de favores? Como é cobrada? Quem decide quanto vale um favor?
– É complicado. Todos decidem.
– Então ninguém é pobre? Todos são iguais.
– De forma alguma. Rico é aquele para quem todos devem favores.
– Você é rico?
Mastigo a ponta de um lábio, tentando ponderar a questão.
– Por enquanto – em seguida, tentando resumir: – Digamos que nada é mais valioso no céu do que a reputação. Isso todos fazem tudo para não perder. E para ganhar mais.
Ela silencia, e caminhamos pelo shopping com o espaço de uma pessoa entre nós, como um casal casado há tempo demais. A poucos metros do pavilhão dos automóveis ela pára e passa a olhar furiosamente ao redor. Boa menina: não foi poupada da revelação.
– Estou vendo jovens, velhos e gente como nós…
– A idade no céu é como emagrecer e engordar para os mortais – começo, sentindo-me ao mesmo tempo grato pelo “como nós”.
– …mas não estou vendo crianças. É isso o que têm de errado neste shopping, e eu estava tentando ver o que era. Não têm criança nenhuma aqui.
– Não tem criança no céu inteiro – admito. – E nem no inferno, pelo que sabemos.
– Mas o quê —
– Ninguém sabe para onde vão as crianças.
A cor do encarnado
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