02 de Março de 2007

Preço

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Sua casa é linda, sua rua é perfeita – opina Cassandre, sem qualquer ênfase ou empolgação, quando saímos de carro. – Nunca vi verdes tão vivos e gramados tão bem-cuidados.

– O céu é inteiro assim – concordo, com uma ponta de amargura. – Com o tempo você se acostuma. Já está pronta para escolher a sua casa?

– Posso escolher a minha casa? – novamente, mais incrédula perplexidade do que entusiasmo.

– No céu você pode ter tudo que quiser. Mas você já sabe disso.

– Posso ter a sua casa?

– Não – sorrio. – Minha casa é minha. Você tem de escolher a sua.

– Eu escolho a sua.

– Não, Cassandre. Você pode ter uma casa melhor do que a minha. Você pode ter —

– Quero a sua casa.

– Sua casa pode ser idêntica à minha. Pode ser perto da minha. Mas não a minha.

– Quero a sua casa.

– A superabundância do céu existe para evitar esse tipo de coisa – argumento, mentindo apenas ao dar a entender que funciona.

– Quero a sua casa.

– Impossível – sentencio, e deixo um minuto correr antes de proferir a contra-proposta. – Você pode morar comigo.

Silêncio.

Ao final de uma curva, na sombra de olmos e eucaliptos, abre-se o vasto gramado que é o estacionamento do Glasmann.

Abro minha porta, tiro as meias e os sapatos, deixo sobre o banco do motorista e saio descalço pela grama em direção aos elevadores panorâmicos.

– Venha – ofereço o braço estendido, – vamos fazer compras.

– Vai deixar a chave no contato?

– Vou, venha. Vamos escolher outro carro. Venha.

Três minutos depois os elevadores despejam-nos os dois e um trio agitado de adolescentes no imenso arco do mezanino central do shopping, debaixo de uma imensa estrutura vazada de placas de vidro com forma humana. A figura, que está sentada em pose de pensador sobre o teto envidraçado do shopping, tem lâmpadas branco-azuladas em cada uma das extremidades – pés, cotovelos, joelhos, queixo, nariz, mãos, – formando como que uma constelação.

– Por que você me trouxe aqui?

– Quero sapatos novos. E um carro.

Digo isso e já estou examinando uma vitrine com gravatas peroladas e sapatos avermelhados e reluzentes de couro alemão. Cassandre avança devagar pelo corredor, admirando as telas iluminadas de uma loja de produtos eletrônicos.

– Escolha o que você quiser.

– Isso poderia ser um shopping da Terra – ela mantém a boca entreaberta, sem prestar atenção no que eu disse. – As marcas são as mesmas. Os modelos, os lançamentos…

– Aqui é a Terra, Cassandre – corrijo, apoiando o braço na vitrine que ela está examinando. – E, sim, os lançamentos chegam até nós com uns poucos dias de atraso. Algumas vezes chegam até antes.

– Incrível – ela olha ao redor de braços cruzados, menos impressionada do que deveria.

– Venha, vamos achar um carro – conduzo-a gentilmente pelo cotovelo.

Mas ela já estacou na frente de uma joalheria.

– Gostou desse? – sorrio.

Ela não responde, mas entro na loja, inclino o corpo sobre o balcão e ergo a gargantilha do pedestal.

– Fique com ele – informo, oferecendo os braços estendidos para ajudá-la a colocar.

– Não, não tenho como aceitar. Eu só —

– Você não precisa aceitar. Ele já é seu. Tudo é seu, Cassandre.

– Você quer dizer que – ela já cedeu, erguendo os cabelos com as duas mãos, e dei a volta para ajudá-la com o fecho. – Quer dizer que tudo nesse shopping é de graça?

– Só pra você – sorrio, e beijo-lhe os lábios fechados por um instante. – Que tal com aquele vestido?

Já atravessei o corredor.

– Não, não preciso de nada. Nem dos seus beijos – ela abaixa minha mão da superfície da vitrine. – Vocês não têm dinheiro.

É mais constatação do que pergunta.

– Dinheiro é coisa do inferno – brinco. – Não, não temos dinheiro.

– Então tudo é de graça?

– É claro que não.

– Não estou entendendo.

– Não usamos dinheiro, mas todo lugar tem a sua moeda. Até aqui no céu.

Ela recusa-se a olhar para mim, mas continua me interrogando.

– E qual é a moeda de vocês?

Hesito, porque essa é sempre a parte mais difícil de explicar.

– Nossa moeda, Cassandre, é o tráfico de favores.

Ela pára um momento e faz menção de tirar o colar. Impeço imprimindo minha mão contra o seu colo.

– Não, não, você não me deve nada – explico. – Coisas materiais não pagam favores. E vice-versa.

– Mas como funciona a troca de favores? Como é cobrada? Quem decide quanto vale um favor?

– É complicado. Todos decidem.

– Então ninguém é pobre? Todos são iguais.

– De forma alguma. Rico é aquele para quem todos devem favores.

– Você é rico?

Mastigo a ponta de um lábio, tentando ponderar a questão.

– Por enquanto – em seguida, tentando resumir: – Digamos que nada é mais valioso no céu do que a reputação. Isso todos fazem tudo para não perder. E para ganhar mais.

Ela silencia, e caminhamos pelo shopping com o espaço de uma pessoa entre nós, como um casal casado há tempo demais. A poucos metros do pavilhão dos automóveis ela pára e passa a olhar furiosamente ao redor. Boa menina: não foi poupada da revelação.

– Estou vendo jovens, velhos e gente como nós…

– A idade no céu é como emagrecer e engordar para os mortais – começo, sentindo-me ao mesmo tempo grato pelo “como nós”.

– …mas não estou vendo crianças. É isso o que têm de errado neste shopping, e eu estava tentando ver o que era. Não têm criança nenhuma aqui.

– Não tem criança no céu inteiro – admito. – E nem no inferno, pelo que sabemos.

– Mas o quê —

– Ninguém sabe para onde vão as crianças.



3 Comentários a respeito de "Preço"

Magno Coimbra Neri

essa história parece legal tem continuação?



Bertoldo

Oh, cara! Que coisa fantástica essa aí. Posso espalhar?



Lou Mello

Dizem por ai que as crianças estariam no Reino de Deus, do qual são proprietárias. Ué, então o céu não é o Reino de Deus?



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