– Cyril Crepsi foi para a estremadura.
Uma serena vertigem me entrelaça os olhos, e pisco na esperança de que Mia não perceba.
De todas as revelações que me inquietaram os últimos dias, nenhuma se comparará provavelmente a esta. Que o Ermitão tenha sido desmascarado não me impressiona; que ele tenha interceptado o bilhete me intriga; que ele tenha ido para a estremadura é inesperado, praticamente inconcebível.
– Mas vocês têm certeza? Já…
– Eu mesma – Mia confirma com a cabeça, muito séria. – Não tivemos sequer de revistar o corpo. Ele estava sem maquiagem e sem roupa.
Nenhum ser humano tem no céu o privilégio de ferir ou ferir-se mortalmente; somos todos prisioneiros da vida eterna, inteiramente impermeáveis a homicídios e suicídios. Os encarnados – imigrantes ilegais do inferno como Cyril Crepsi – têm desde o momento em que chegam estendida sobre si essa imunidade: são vítimas de exclusão e preconceito, mas não podem ser feridos ou mortos e, tecnicamente, não podem morrer.
Há porém, para os encarnados e apenas para eles, uma alternativa.
Como já devo ter mencionado, o mortal que escolhe o inferno ao invés da Catraca e o Paraíso tem a liberdade de a qualquer momento reverter a sua decisão e imigrar (ilegalmente, mas sem maiores dificuldades) para o céu. Entre nós, na qualidade de ilegal, ele será constantemente denunciado pelo tom de pele que adquiriu no inferno (o vermelho cor de sangue que inspirou o rótulo de encarnado), mas gozará de todos os privilégios espirituais do paraíso. Singular nessa sua segunda escolha é apenas que, ao contrário da primeira, ela é irreversível: o encarnado não poderá jamais escapar de volta para o inferno, mesmo que queira.
E não vale a pena tentar. Os encarnados que ousam aproximar-se o bastante da fronteira vêem-se finalmente apanhados por um circuito vicioso, presos para sempre entre a irresistível atração do inferno e a irreversibilidade da sua condição de imigrantes. Não podem deixar o céu e não podem tampouco chegar ao inferno: ficam eternamente presos entre uma coisa e outra, caindo incessantemente em direção ao inferno, avançando a cada era metade da fração de espaço que já percorreram, cada vez mais perto da fronteira porém sem jamais alcançá-la, tecnicamente vivos porém imóveis como estátuas. É a isso que se dá o nome de “ir para estremadura”; dessa condição o encarnado não tem como escapar e não pode ser resgatado.
Naturalmente que na economia da eternidade nenhum destino final pode ser traçado de outro modo que não voluntário: a imobilidade da estremadura não é exceção a essa regra. Ninguém pode ser forçado a ir para a estremadura, e aqui está a porção essencial do enigma que Mia Dladla acaba de me propor sem querer. Não consigo imaginar o que pode ter levado o Ermitão a esse extremo – literalmente falando – desde a última conversa que tivemos. Não é coisa desconhecida um encarnado sob disfarce ser desmascarado publicamente e cair em desonra, mas são pouquíssimos os que mesmo diante desse terrível aperto recorrem à estremadura.
O que poderia estar por trás do interesse universal por um bilhete deixado para mim por um político que trocou o céu pelo inferno? A impensável decisão suicida do Ermitão estaria de alguma forma ligada ao teor do bilhete? Ou dirá talvez respeito a alguma complicação quanto à remessa do contêiner? Haverá alguma relação que não consigo conceber entre o teor do bilhete e a remessa? Entre Sahid e o Ermitão? Serei ainda procurado a respeito da remessa? Caso afirmativo, por quem?
– Precisamos saber se você tem alguma idéia sobre o que tratava o bilhete – Mia fez a pergunta já há alguns instantes, mas estou ainda medindo as palavras para responder. Uma única curva inesperada da conversa me transformou de repente em interrogado.
– Não, desculpe. Estou tão surpreso quanto vocês – levanto-me do sofá. Irrita-me desconhecer os riscos que estou correndo nesta conversa, e escolho olhar para a praça lá embaixo para tentar ocultar essa irritação.
– Vocês e Sahid eram amigos, certo?
– Não, na verdade não – minha única chance é me ocultar com a verdade, e agarro essa chance. – Creio que pode-se dizer que vivíamos intrigados um ao outro, mas não trocamos palavras mais do que duas ou três vezes, e nunca realmente sozinhos. Creio que nos admirávamos, mas essencialmente à distância.
– O que ele sabia sobre você?
– Não muito. O que todo mundo sabe, acho.
– De fato não é muito – ela sorri, cautelosamente, e aproveito para inverter a investida.
– E vocês, têm alguma indicação do que dizia o bilhete?
Ela dá de ombros.
– O bilhete era pra você.
– Mia, o bilhete esteve nas mãos de vocês, não nas minhas. Eu não sei o que diz o bilhete – chafurdo na verdade, aproveitando para espalhar legitimidade no rosto e nas mãos. – Você sabe muito bem que foi pra tentar descobrir que vim até aqui.
– Nada garante – ela observa. – Você poderia ter vindo justamente porque sabe. Para sondar o quanto nós sabemos.
– Boa – admito. – Mas não é o caso.
– Talvez não. Só para confirmar, você não conhecia também o juiz Cyril Crepsi?
– Só pelos jornais – teria sido mais difícil mentir se ela tivesse perguntado pelo Ermitão. – E de vista numa festa ou outra.
Estou matutando num jeito de escapar desta conversa quando Mia ergue-se sem aviso do sofá e anuncia que tem de voltar ao trabalho.
– Não deixe de me procurar se lhe ocorrer alguma coisa – ela toca-me gentilmente a nuca, e não sei exatamente do que está falando.
– Não tenha dúvidas – beijo sua testa em despedida, demoradamente, tranqüilamente, e vou seguindo pelo corredor.
– Ah, mais uma coisa – ela lembra, e viro-me com toda a naturalidade.
– Pois não?
– Tenho de pedir que você não saia da cidade.
Demoro um instante para responder.
– E para onde eu iria?
Produzo um derradeiro sorriso, e deixo Mia Dladla olhando pela janela para a praça lá embaixo, os dedos acariciando os caracóis peludos dos brotos da samambaia.
Dentro do elevador permito-me finalmente ponderar no único ponto que não podia de forma alguma mencionar na conversa com Mia. A policial não tem como saber, mas o sumiço do Ermitão não é a maior interrogação que me jogou no peito. O que me faz realmente travar a máquina é imaginar os capangas de Crepsi interceptando o bilhete de Sahid na Radial. Isso porque sei, de fontes absolutamente seguras, que o Ermitão tinha mais de um contato dentro da polícia; ou seja, se quisesse apenas conhecer o teor do bilhete ele não precisaria ter-se dado ao trabalho de interceptá-lo. Seus contatos acabariam informando-o a respeito mais cedo ou mais tarde.
A não ser, é claro – e é nisso que tenho de pensar – que o Ermitão estivesse querendo deliberadamente evitar que alguém dentro da polícia ficasse conhecendo o teor do bilhete.
Acabo de trocar a escadaria do 6º Distrito pela rotatória da Avenida Yang quando o grilinho do celular toca duas vezes, anunciando uma mensagem de texto. Estaco ali mesmo, porque a mensagem consiste numa única palavra, o nome escrito no cartão que o Ermitão me entregou naquela derradeira conversa sobre o contêiner. A mensagem não me permite identificar o remetente, mas um irresistível ardor na nuca me faz voltar o corpo e os olhos para o edifício do 6º Distrito.
Ali, nas quina envidraçada do sexto andar, penso ver Mia Dladla, sorriso nos lábios e telefone celular na mão.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro


hernan
O Lou falou em um livro, mas eu vejo isso melhor em um filme.
Anderson
Livro + Filme
À moda Dan Brown.
Com direito a protestos e boicote evangélico.
bete
e pastores dos púlpitos ameaçando a rapaziada: não assistam, é herege. que delícia!! e fico a imaginar a intrigante trilha sonora do filme… músicas essas que seriam, claro, terminantemente proibidas nos meios evangélicos, portanto lindas.