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Ontem pela manhã fui buscar o Corsa na João Hoffmann e enquanto terminavam o serviço fiquei em pé junto da entrada olhando para o dia friozinho e nublado do Bacacheri, pontuado por cinzas pétreos e verdes pungentes e coroado por uma garoa ralíssima. Eu vestia camiseta de manga comprida por baixo da camisa de flanela e uma grossa japona por cima, mas o vento gelado e fragrante tocou-me sem constrangimento o rosto – e percebi, numa epifania, que aquela brisa generosa tinha precisamente a mesma natureza, a mesma carga espiritual e sensorial, do vento da Curitiba de mais de 20 anos atrás. Aquela brisa antiga tinha dado a volta ao mundo e retornava agora carregada de lembranças de outro tempo.
Lembrei-me da sala de madeira da casa da vó Vergínia, de conversar ali e contar piadas com minha irmã Alice e, pouco mais do que adolescentes, o Igor, o Dario e o Élder. Lembrei-de de ouvir Frank Mills e Zamfir e um LP dos Carpenters que tinha capa preta e Calling Occupants e Don’t Cry For Me e I Fall In Love Again e Bwana Go Home. Lembrei-me de dormir no assoalho de madeira daquela sala, debaixo de acolchoados de pena, com o tique-taque contínuo e o GON GON GON eventual do relógio de parede do vô Arhur. Lembrei-me da Bê gravando fitas no gravador do Caco, das gerações de cachorros que se chamaram Jeco e do perfume da cor-de-rosa e granulada Pasta Jóia com que o vô lavava as mãos depois de consertar em absoluto silêncio o cabo de alguma panela. Lembrei-me do frango de forno da vó, dos eternos bolinhos de carne, da batuta amarela e fininha do Carlos, feita de fibra de vidro, de ver a tia Lili pelando tomates antes de fazer molho (inusitado) e de sentar-me na caixa de lenha junto do fogão. Lá fora no gramado havia a pereira, e na pereira o perene balanço; dali ouvi o Hellington (irmão mais novo do Élder) apregoando, como quem fala de um futuro distante, o alinhamento dos planetas de 1982, que podia representar o fim da civilização. Sentado no mesmo balanço perguntei certa vez ao Caco qual ele achava ser a lição central de Fernão Capelo Gaivota, livro de Richard Bach que virou filme a que nunca assisti mas cuja trilha sonora (Neil Diamond: “Dear Father, We Dream”) gravou-me o Carlos numa fita cassette e sei absolutamente de cor.

