Paulo Brabo, 08 de dezembro de 2007

Os des­cen­den­tes de Caim

Estocado em Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: Os des­cen­den­tes de Caim

Caim sabia muito bem que sua culpa de sangue seria visitada sobre ele na sétima geração, pois assim Deus havia decretado contra ele. Ele esforçou-se, portanto, para imor­ta­li­zar seu nome através de monu­men­tos, e tornou-se cons­tru­tor de cidades. A primeira chamou-se Enoque, batizada com o nome do seu filho, porque a partir do nas­ci­mento de Enoque Caim passou a expe­ri­men­tar alguma medida de descanso e paz. Além dessa Caim fundou outras seis cidades. Essa edi­fi­ca­ção de cidades era um ato de per­ver­si­dade, porque ele as cercava com uma muralha, forçando sua família a per­ma­ne­cer do lado de dentro. Suas outras ini­ci­a­ti­vas foram todas igual­mente perversas: a punição que Deus lhe ordenara não efetuara nenhum aper­fei­ço­a­mento moral.

Eles dedicavam todo seu amor e atenção às esposas estéreis.

Caim pecava a fim de assegurar o seu próprio prazer, porém seus vizinhos sofriam prejuízo como resultado. Ele aumentava os bens de sua casa através de rapina e violência e incitava seus conhe­ci­dos a buscarem prazeres e pilhagens através de roubo, tornando-se um grande líder de homens de conduta perversa. Ele intro­du­ziu ainda uma mudança na sim­pli­ci­dade de vida na qual os homens vinham vivendo, sendo o inventor dos pesos e das medidas. Dado que os homens viviam de modo inocente e generoso enquanto nada sabiam dessas artes, Caim trans­for­mou o mundo em maliciosa velhacaria.

Como Caim foram todos os seus des­cen­den­tes, perversos e sem piedade, pelo que Deus resolveu destruí-los.

O fim de Caim lhe sobreveio na sétima geração dos homens, e lhe foi infligida pela mão de seu tata­ra­neto Lameque. Lameque era cego, e quando saía para caçar era con­du­zindo pelo seu filho mais novo, que informava o pai quando havia caça à vista, a qual Lameque então abatia com seu arco e flecha. Certa vez ele e o filho saíram numa caçada, e o rapaz discerniu à distância alguma coisa que tinha chifres; ele tomou-a por um animal de alguma espécie, e disse ao cego Lameque que fizesse sua flecha voar. A mira foi boa, e a presa caiu. Quando chegaram perto da vítima o rapaz exclamou:

– Pai, o senhor matou algo que se parece um ser humano em todos os sentidos, exceto que tem um chifre na cabeça.

Lameque soube de imediato o que acon­te­cera – tinha matado seu ancestral Caim, que Deus marcara na testa com um chifre. Em seu desespero ele bateu as mãos uma contra a outra, matando inad­ver­ti­da­mente seu filho entre elas. Infor­tú­nio seguiu-se a infor­tú­nio. A terra abriu a sua boca e engoliu as quatro gerações nascidas de Caim – Enoque, Irade, Meujael e Metusael. Lameque, cego como era, não podia voltar para casa; teve de per­ma­ne­cer ao lado dos cadáveres de Caim e de seu filho. Ao entar­de­cer suas esposas, procurando-o, encontraram-no ali. Quando ouviram o que ele tinha feito quiseram separar-se dele, ainda mais por saberem que qualquer des­cen­dente de Caim estava condenado à ani­qui­la­ção. Porém Lameque argumentou:

– Se Caim, que cometeu assas­si­nato de forma pre­me­di­tada, foi punido apenas na sétima geração, eu, que não tive a intenção de matar ser humano algum, posso esperar que a retri­bui­ção seja adiada por setenta e sete gerações.

Lameque foi com suas esposas até Adão, que ouviu ambas as partes e decidiu o caso em favor de Lameque.

Caim intro­du­ziu uma mudança na sim­pli­ci­dade de vida na qual os homens vinham vivendo.

A corrupção daquela época, e em especial a depra­va­ção da linhagem de Caim, fica evidente no fato de que Lameque, bem como todos os homens na geração do dilúvio, casavam-se com duas mulheres, uma com o propósito de criar filhos, a outra a fim de entregarem-se às indul­gên­cias da carne – pelo que essa segunda era tornada infértil por meios arti­fi­ci­ais. Como os homens daquela época tinham incli­na­ção ao prazer ao invés de desejo de cumprirem seu dever para com a raça humana, eles dedicavam todo seu amor e atenção às esposas estéreis, enquanto as outras esposas passavam seus dias como viúvas, sem alegria e em depressão.

As duas esposas de Lameque, Ada e Zilá, deram à luz dois filhos cada um; Adá dois meninos, Jabal e Jubal, e Zilá um menino, Tubal-Caim e uma menina, Naamá. Jabal foi o primeiro entre os homens a edificar templos aos ídolos, e Jubal inventou a música cantada e tocada dali em diante. O nome de Tubal-Caim foi bem dado, porque ele completou a obra de seu ancestral Caim; Caim cometeu assas­si­nato, e Tubal-Caim, o primeiro a saber afiar o ferro e o cobre, forneceu os ins­tru­men­tos usados em guerras e combates. Naamá, “a adorável”, ganhou seu nome devido aos sons doces que produzia de seus címbalos quando chamava os ado­ra­do­res a prestarem tributo aos ídolos.

* * *

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. Meu livro mais recente, que você deve desejar comprar, é As divinas gerações. Esta é a Bacia das Almas, mas hoje em dia escrevo antes de tudo na Forja Universal.


 

Paulo Brabo Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: Os des­cen­den­tes de Caim

Caim sabia muito bem que sua culpa de sangue seria visitada sobre ele na sétima geração, pois assim Deus havia decretado contra ele. Ele esforçou-se, portanto, para imor­ta­li­zar seu nome através de monu­men­tos, e tornou-se cons­tru­tor de cidades. A primeira chamou-se Enoque, batizada com o nome do seu filho, porque a partir do nas­ci­mento de Enoque Caim passou a expe­ri­men­tar alguma medida de descanso e paz. Além dessa Caim fundou outras seis cidades. Essa edi­fi­ca­ção de cidades era um ato de per­ver­si­dade, porque ele as cercava com uma muralha, forçando sua família a per­ma­ne­cer do lado de dentro. Suas outras ini­ci­a­ti­vas foram todas igual­mente perversas: a punição que Deus lhe ordenara não efetuara nenhum aper­fei­ço­a­mento moral.

Eles dedicavam todo seu amor e atenção às esposas estéreis.

Caim pecava a fim de assegurar o seu próprio prazer, porém seus vizinhos sofriam prejuízo como resultado. Ele aumentava os bens de sua casa através de rapina e violência e incitava seus conhe­ci­dos a buscarem prazeres e pilhagens através de roubo, tornando-se um grande líder de homens de conduta perversa. Ele intro­du­ziu ainda uma mudança na sim­pli­ci­dade de vida na qual os homens vinham vivendo, sendo o inventor dos pesos e das medidas. Dado que os homens viviam de modo inocente e generoso enquanto nada sabiam dessas artes, Caim trans­for­mou o mundo em maliciosa velhacaria.

Como Caim foram todos os seus des­cen­den­tes, perversos e sem piedade, pelo que Deus resolveu destruí-los.

O fim de Caim lhe sobreveio na sétima geração dos homens, e lhe foi infligida pela mão de seu tata­ra­neto Lameque. Lameque era cego, e quando saía para caçar era con­du­zindo pelo seu filho mais novo, que informava o pai quando havia caça à vista, a qual Lameque então abatia com seu arco e flecha. Certa vez ele e o filho saíram numa caçada, e o rapaz discerniu à distância alguma coisa que tinha chifres; ele tomou-a por um animal de alguma espécie, e disse ao cego Lameque que fizesse sua flecha voar. A mira foi boa, e a presa caiu. Quando chegaram perto da vítima o rapaz exclamou:

– Pai, o senhor matou algo que se parece um ser humano em todos os sentidos, exceto que tem um chifre na cabeça.

Lameque soube de imediato o que acon­te­cera – tinha matado seu ancestral Caim, que Deus marcara na testa com um chifre. Em seu desespero ele bateu as mãos uma contra a outra, matando inad­ver­ti­da­mente seu filho entre elas. Infor­tú­nio seguiu-se a infor­tú­nio. A terra abriu a sua boca e engoliu as quatro gerações nascidas de Caim – Enoque, Irade, Meujael e Metusael. Lameque, cego como era, não podia voltar para casa; teve de per­ma­ne­cer ao lado dos cadáveres de Caim e de seu filho. Ao entar­de­cer suas esposas, procurando-o, encontraram-no ali. Quando ouviram o que ele tinha feito quiseram separar-se dele, ainda mais por saberem que qualquer des­cen­dente de Caim estava condenado à ani­qui­la­ção. Porém Lameque argumentou:

– Se Caim, que cometeu assas­si­nato de forma pre­me­di­tada, foi punido apenas na sétima geração, eu, que não tive a intenção de matar ser humano algum, posso esperar que a retri­bui­ção seja adiada por setenta e sete gerações.

Lameque foi com suas esposas até Adão, que ouviu ambas as partes e decidiu o caso em favor de Lameque.

Caim intro­du­ziu uma mudança na sim­pli­ci­dade de vida na qual os homens vinham vivendo.

A corrupção daquela época, e em especial a depra­va­ção da linhagem de Caim, fica evidente no fato de que Lameque, bem como todos os homens na geração do dilúvio, casavam-se com duas mulheres, uma com o propósito de criar filhos, a outra a fim de entregarem-se às indul­gên­cias da carne – pelo que essa segunda era tornada infértil por meios arti­fi­ci­ais. Como os homens daquela época tinham incli­na­ção ao prazer ao invés de desejo de cumprirem seu dever para com a raça humana, eles dedicavam todo seu amor e atenção às esposas estéreis, enquanto as outras esposas passavam seus dias como viúvas, sem alegria e em depressão.

As duas esposas de Lameque, Ada e Zilá, deram à luz dois filhos cada um; Adá dois meninos, Jabal e Jubal, e Zilá um menino, Tubal-Caim e uma menina, Naamá. Jabal foi o primeiro entre os homens a edificar templos aos ídolos, e Jubal inventou a música cantada e tocada dali em diante. O nome de Tubal-Caim foi bem dado, porque ele completou a obra de seu ancestral Caim; Caim cometeu assas­si­nato, e Tubal-Caim, o primeiro a saber afiar o ferro e o cobre, forneceu os ins­tru­men­tos usados em guerras e combates. Naamá, “a adorável”, ganhou seu nome devido aos sons doces que produzia de seus címbalos quando chamava os ado­ra­do­res a prestarem tributo aos ídolos.

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Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

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