
AS DEZ GERAÇÕES: Os descendentes de Caim
Caim sabia muito bem que sua culpa de sangue seria visitada sobre ele na sétima geração, pois assim Deus havia decretado contra ele. Ele esforçou-se, portanto, para imortalizar seu nome através de monumentos, e tornou-se construtor de cidades. A primeira chamou-se Enoque, batizada com o nome do seu filho, porque a partir do nascimento de Enoque Caim passou a experimentar alguma medida de descanso e paz. Além dessa Caim fundou outras seis cidades. Essa edificação de cidades era um ato de perversidade, porque ele as cercava com uma muralha, forçando sua família a permanecer do lado de dentro. Suas outras iniciativas foram todas igualmente perversas: a punição que Deus lhe ordenara não efetuara nenhum aperfeiçoamento moral.
Eles dedicavam todo seu amor e atenção às esposas estéreis.
Caim pecava a fim de assegurar o seu próprio prazer, porém seus vizinhos sofriam prejuízo como resultado. Ele aumentava os bens de sua casa através de rapina e violência e incitava seus conhecidos a buscarem prazeres e pilhagens através de roubo, tornando-se um grande líder de homens de conduta perversa. Ele introduziu ainda uma mudança na simplicidade de vida na qual os homens vinham vivendo, sendo o inventor dos pesos e das medidas. Dado que os homens viviam de modo inocente e generoso enquanto nada sabiam dessas artes, Caim transformou o mundo em maliciosa velhacaria.
Como Caim foram todos os seus descendentes, perversos e sem piedade, pelo que Deus resolveu destruí-los.
O fim de Caim lhe sobreveio na sétima geração dos homens, e lhe foi infligida pela mão de seu tataraneto Lameque. Lameque era cego, e quando saía para caçar era conduzindo pelo seu filho mais novo, que informava o pai quando havia caça à vista, a qual Lameque então abatia com seu arco e flecha. Certa vez ele e o filho saíram numa caçada, e o rapaz discerniu à distância alguma coisa que tinha chifres; ele tomou-a por um animal de alguma espécie, e disse ao cego Lameque que fizesse sua flecha voar. A mira foi boa, e a presa caiu. Quando chegaram perto da vítima o rapaz exclamou:
– Pai, o senhor matou algo que se parece um ser humano em todos os sentidos, exceto que tem um chifre na cabeça.
Lameque soube de imediato o que acontecera – tinha matado seu ancestral Caim, que Deus marcara na testa com um chifre. Em seu desespero ele bateu as mãos uma contra a outra, matando inadvertidamente seu filho entre elas. Infortúnio seguiu-se a infortúnio. A terra abriu a sua boca e engoliu as quatro gerações nascidas de Caim – Enoque, Irade, Meujael e Metusael. Lameque, cego como era, não podia voltar para casa; teve de permanecer ao lado dos cadáveres de Caim e de seu filho. Ao entardecer suas esposas, procurando-o, encontraram-no ali. Quando ouviram o que ele tinha feito quiseram separar-se dele, ainda mais por saberem que qualquer descendente de Caim estava condenado à aniquilação. Porém Lameque argumentou:
– Se Caim, que cometeu assassinato de forma premeditada, foi punido apenas na sétima geração, eu, que não tive a intenção de matar ser humano algum, posso esperar que a retribuição seja adiada por setenta e sete gerações.
Lameque foi com suas esposas até Adão, que ouviu ambas as partes e decidiu o caso em favor de Lameque.
Caim introduziu uma mudança na simplicidade de vida na qual os homens vinham vivendo.
A corrupção daquela época, e em especial a depravação da linhagem de Caim, fica evidente no fato de que Lameque, bem como todos os homens na geração do dilúvio, casavam-se com duas mulheres, uma com o propósito de criar filhos, a outra a fim de entregarem-se às indulgências da carne – pelo que essa segunda era tornada infértil por meios artificiais. Como os homens daquela época tinham inclinação ao prazer ao invés de desejo de cumprirem seu dever para com a raça humana, eles dedicavam todo seu amor e atenção às esposas estéreis, enquanto as outras esposas passavam seus dias como viúvas, sem alegria e em depressão.
As duas esposas de Lameque, Ada e Zilá, deram à luz dois filhos cada um; Adá dois meninos, Jabal e Jubal, e Zilá um menino, Tubal-Caim e uma menina, Naamá. Jabal foi o primeiro entre os homens a edificar templos aos ídolos, e Jubal inventou a música cantada e tocada dali em diante. O nome de Tubal-Caim foi bem dado, porque ele completou a obra de seu ancestral Caim; Caim cometeu assassinato, e Tubal-Caim, o primeiro a saber afiar o ferro e o cobre, forneceu os instrumentos usados em guerras e combates. Naamá, “a adorável”, ganhou seu nome devido aos sons doces que produzia de seus címbalos quando chamava os adoradores a prestarem tributo aos ídolos.
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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
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Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos
- A geração do dilúvio
- O livro santo
- Os ocupantes da arca
- O dilúvio
- Noé sai da arca
- A maldição da embriaguez


