
AS DEZ GERAÇÕES: Os descendentes de Adão e Lilith
Quando as esposas de Lameque ouviram a decisão de Adão, que deveriam continuar a viver com o marido, viraram-se para Adão e disseram:
– Médico, cure a si mesmo!
Elas referiam-se ao fato de que Adão vinha ele mesmo vivendo separado da esposa desde a morte de Abel, pois havia dito: “porque eu deveria gerar filhos, se é para expô-los à morte?”
Embora evitasse o intercurso com Eva, Adão era visitado em seus sonhos por espíritos do sexo feminino, e dessa união com elas foram gerados demônios de várias espécies, que foram dotados de capacidades peculiares.
Seu método consistia em escrever umas poucas palavras num pedaço de papel, que ele fazia então seu aluno engolir.
Certa vez viveu na Palestina um homem muito rico e devoto, que teve um filho chamado Rabi Hanina. Esse homem conhecia a Torá de cor. Quando estava a ponto de morrer ele mandou chamar seu filho, o Rabi Hanina, e disse a ele, como último pedido, que ele estudasse a Torá dia e noite, colocasse em prática os mandamentos da lei e fosse amigo fiel dos pobres. Disse também que ele e sua esposa, mãe do Rabi Hanina, morreriam no mesmo dia, e que os sete dias de luto pelos dois terminariam na véspera da Páscoa. Disse ao filho que não lamentasse em excesso, mas fosse ao mercado naquele dia e comprasse o primeiro artigo que lhe oferecessem, não importando o preço que custasse. Se fosse algo comestível, deveria prepará-lo e servi-lo com grande cerimônia. Seus gastos e seu trabalho seriam recompensados.
Tudo aconteceu conforme o previsto: o homem e a esposa morreram naquele dia, e o final da semana de luto coincidiu com a véspera da Páscoa. O filho por sua vez cumpriu a vontade do pai: foi até o mercado, onde veio ao seu encontro um velho oferecendo-lhe para comprar uma travessa de prata com tampa. Ele a comprou como seu pai havia dito que fizesse, embora o preço fosse exorbitante. A travessa foi colocada sobre a mesa do Sêder, e quando o Rabbi Hanina ergueu a tampa havia dentro uma segunda travessa, e dentro dela um sapo vivo, saltando e pulando alegremente. Ele deu ao sapo comida e bebida, e ao fim da festa ele havia ficado tão grande que o Rabi Hanina fez para ele uma caixa, dentro da qual ele vivia e comia. Com o passar do tempo a caixa ficou pequena, e o rabi construiu um quarto, colocou o sapo dentro e deu-lhe comida e bebida em abundância – tudo isso a fim de não violar o último desejo do pai.
Porém o sapo engordou e cresceu, consumindo tudo que seu dono possuía, até que o Rabi Hanina foi finalmente privado de todas as suas posses. O sapo então abriu a boca e começou a falar:
– Meu caro Rabbi Hanina – disse ele, – não se preocupe. Vendo que você me criou e cuidou de mim, peça-me qualquer coisa que o seu coração desejar, e lhe será concedido.
– Eu nada desejo – respondeu o Rabbi Hanina, – além de que você me ensine toda a Torá.
O sapo concordou e ensinou-lhe de fato toda a Torá, e também os setenta idiomas dos homens. Seu método consistia em escrever umas poucas palavras num pedaço de papel, que ele fazia então seu aluno engolir. Dessa forma o rabi aprendeu não apenas a Torá e os setenta idiomas, mas também as línguas dos animais e dos pássaros.
Depois disso o sapo disse à esposa do Rabi Hanina:
– Você cuidou bem de mim, e eu não lhe dei recompensa alguma. Mas sua compensação será dada a você antes que eu vá embora, basta que vocês dois me acompanhem à floresta. Ali vocês verão o que farei por vocês.
Assim sendo, eles foram à floresta com ele. Chegando lá o sapo começou a gritar, e ao som de sua voz reuniu-se toda sorte de animais selvagens e pássaros. Ele ordenou que esses trouxessem pedras preciosas, tantas quanto pudessem carregar. Deveriam também trazer ervas e raízes para a esposa do Rabi Hanina, que ele ensinou a usar como remédio para todas as espécies de doenças. Tudo isso eles deveriam levar para casa consigo. Quando estavam prestes a voltar para casa, o sapo disse-lhes assim:
– Que o Santo, bendito seja, tenha misericórdia de vocês, e os recompense por todo trabalho que tiveram por minha causa, sem sequer perguntarem quem sou. Devo agora revelar-lhes minha origem: sou filho de Adão, um filho que ele gerou durante os cento e trinta anos em que esteve separado de Eva. Deus concedeu-me o poder de assumir qualquer forma ou disfarce que desejar.
O rabi Hanina e sua esposa deixaram sua casa e ficaram muito ricos, desfrutando do respeito e da confiança do rei.
* * *
Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Este documento faz parte da série
Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos
- A geração do dilúvio
- O livro santo
- Os ocupantes da arca

