Este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são nossos favoritos? Os notáveis, os talentosos, os destacados, os fluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os espirituais, os afinados, os inteligentes, os que lembram-se do nosso nome. Quanto mais admiráveis nos parecerem as qualidades de alguém, mais naturalmente — mais inevitavelmente — essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.
Nossa tendência mais natural é amarmos as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja essa capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que chamo de Lei Crua do Amor: não amamos as pessoas, amamos as suas competências.
Com raras exceções, a Lei Crua do Amor rege todos os nossos relacionamentos e afeições. Sei muito bem aqueles que me sinto tentado a amar: os virtuosos, os compassivos, os articulados, os bonitos, os fluentes, os criativos, os destemidos, os galantes, os que sabem dançar, os indomáveis, os modestos, os heróis que não conhecem o seu próprio valor. São essas as competências que estão no topo da minha lista, mas cada pessoa estabelece o seu próprio critério de seleção. O que temos todos em comum é a tendência de amar aqueles que demonstram ter as competências que admiramos.
A Lei Crua do Amor:
Não amamos as pessoas,
amamos as suas competências.
A Lei Crua do Amor determina ainda o modo como estimamos o nosso próprio papel num relacionamento — nosso valor. É por isso que tememos tanto a doença e a velhice, porque sabemos que estão à espreita, esperando o momento de arrancar de nós as competências que nos são mais caras, aquelas ao redor das quais construímos nossa identidade. Os primeiros sinais bastarão para nos colocar em parafuso: a primeira falha de memória, a primeira barbeiragem no trânsito, a primeira incontinência urinária, a primeira desafinada, a primeira queda de cabelo.
Por que tememos dessa forma a perda das nossas competências? Acontece que sabemos muito bem que as competências dos outros determinam em grande parte nossa afeição por eles. Intuímos, pela natureza inclemente dos nossos próprios critérios, que a perda de uma competência fará com que nos tornemos menos atraentes e menos dignos de amor aos olhos dos outros.
Aqueles que não têm alguma competência para oferecer — os feios, os desajeitados, os que não sabem cantar, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar — intuem, por sua vez, que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não têm competências em grau ou quantidade suficientes para merecerem o nosso amor, e sabem disso.
Jesus viveu, naturalmente, para denunciar a Lei Crua do Amor. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é, incrivelmente, a ausência de qualquer critério.
A mensagem de Jesus deixa claro, em primeiro lugar, que na perspectiva de Deus, na perspectiva do universo, as competências que tanto celebramos e redundantemente admiramos equivalem a precisamente nada — talvez menos. Se Deus fosse premiar a competência não premiaria ninguém. É por isso, por não julgar as pessoas pelas competências que têm para oferecer, que Deus faz chover sobre justos e injustos. É com base no rigoroso critério do critério algum que ele derrama do seu sol sobre heróis e marginais.
Jesus opina que na perspectiva divina a única competência que de fato conta é a competência moral, a capacidade de não fazermos o mal aos outros e a habilidade correspondente de fazermos o bem a eles. Todo o resto é acessório e deve ser descartado do nosso caderninho de admirações. Deus, no entanto, conhece-nos o bastante para não decidir julgar-nos nem mesmo por essa competência essencial. Na verdade, explica Jesus, a mais contundente demonstração de competência moral está precisamente na nossa disposição em amar os outros, e assim o círculo se fecha.
O Filho do Homem desafia-nos a sermos nisso singulares (santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente, como metralhadoras, abandonando definitivamente os critérios usuais de competência. Essa regra divina é a Lei Distributiva do Amor, que pode ser expressa desta forma: ninguém merece, por isso todos podem ter.
A Lei Distributiva do Amor:
Ninguém merece,
por isso todos podem ter.
Quem será capaz de sentir-se atraído pelos que não têm coisa alguma para oferecer? Quem será capaz de aceitar os desprovidos de competências? Talvez aquele que desperte para a consciência de que tem o que não merece; esse ousará, quem sabe, distribuir.
Esse estará alterando a tessitura do mundo.
* * *
Publicado originalmente na versão online da Revista Ultimato



Filipe P.R.
Bem, a verdade é que, ultimamente, tenho tido um serio problema com a semântica, principalmente da atualidade…
A Lei Crua do “Amor”???
Será que não seria mais apropriado:
A Lei Crua da “Paixão”?
Tenho alguma dificuldade em entender o emprego do termo Amor em algumas definições, que ao meu ver, o termo Paixão se encaixaria melhor. Principalmente porque vejo uma diferença significativa, que chega a ser medonha até, entre esses dois termos. Pois:
Algumas pessoas amam segundo o “ter” (materialmente falando);
outras segundo o “fazer” (seria o caso das competências, nessa lei)
Aí me pergunto que tipo de “Amor” é esse?
Porque creio que também existem aqueles que amam segundo o “Ser” apenas. (competência moral? quiçá)
Ainda que sejam as exceções.
Caso contrário, não vejo sentido na definição de Amor apresentada por Paulo no Cap. 13 de I Coríntios.(que, creio eu, é a definição, mais próxima, do Amor que o Mestre nos quis ensinar…)
A Lei Distributiva do Amor! – Aqui sim, Amor, para mim faz sentido, mas, no primeiro caso não…
Será que sou o único?!?
1 abraço…
Vando
Paulo,
Lindo texto.
Nosso amor é secularmente plastificado. E vc identificou isso muito bem. Nosso caminho até a estatura do varão perfeito é aprender a amar em carne. E osso.
Bjão,
Tuco
Descrição precisa, como de costume. Sou desgraçadamente refém da lei crua. E sobre a lei distributiva, tenho sempre a impressão de que eu mereço (e esforço-me pra isso), por isso posso escolher.
Elienai
Não é por acaso que te amo tão cruamente…
Vinicius
É bem por aí mesmo. Que Deus tenha misericórdia de nós, que nos livre de toda barganha diante dele e do próximo!!
Pra aproveitar este texto, coincidiu que estou lendo um livro que aborda as diversas facetas do amor ágape, bíblico, que Jesus ensina no Novo Testamento.
As Obras do Amor- Algumas considerações cristãs em forma de discursos. De Soren Kierkegaard.
É um desafio, tem horas que dá vontade de parar de ler, tira o nosso chão…
Antonio Polo
Vejo a Graça no seu texto. Nessa perspectiva caminhamos como cristãos fora da “forma desse mundo” que é um mundo adorador da perfornamce.
Fomos atraídos não por um Deus Superpoderoso capaz de dar ordens aos anjos a seu respeito para que não tropeçe em nenhuma pedra, mas sim por um Deus que nos diz que no seu pior e mais humilhante momento, ali atraiu todos a ele.
Quando For Levantado da Terra, Atrairei Todos a Mim” (Jo 12,33)
Wander
Eu só amei as qualidades, nunca a pessoa…
Até então…
Bony Chiarelli
All You Need is Love!!!
All You Need is Love!!!
Love is All You Need!!!
Dos apóstolos John e Paul…
rubens osorio
Quem renega a lei crua, mas é incapaz de cumprir com a distributiva, refugia-se na Gruta do Lou, né? Como eu.
Simone Sherman
É… esse texto me fez refletir sobre o amor nos dias atuais, tão corrompido, tão influenciado pelos apelos da mídia. O amor, esse, tão vinculado à beleza. A sociedade nos impõe como padrão (através da tal “mídia”), uma “falsa beleza”, a qual nos é apresentada como “pacote”, a fim de que sejamos ou não aprovados, aceitos, “amados” (?)…
Mas , não creio que esse tão confuso e falado “amor” seja aquele que o Mestre pregou!
Simone Sherman
Marlise Sherman
Refletir sobre a atualidade nos faz sofrer, percebemos que somos seres mal estruturados, inseguros, comumente conhecemos mais os sentimentos de raiva, ciúme, ódio, vaidade. Temos casamentos arrastados por falta de amor e intolerância. Desmanchamo-nos em frente a um espelho esperando nos tornar aparentemente melhores, bonitos, pois somos realmente ameaçados a todo instante pelo corpo perfeito, a vida perfeita que a mídia insiste em exibir…Desde pequenos conhecemos mais o ódio que o amor, a repreensão ao invés da verdadeira intrução. Os homens cada vez mais se defrontam através de guerras descabidas. Parece que não sabemos mais rir e muito menos repartir. Não toleramos cuidar de velhos, não temos mais paciência com crianças e os animais nem pensar…O amor está esfriando e necessitamos urgentemente nos unir em clamor pelo amor de Deus em nossos corações! Somente Deus pode tirar o coração de pedra e nos dar um coração de carne!
Marlise Sherman