Eu estava no rodízio de pizza com os amigos quando a mensagem me chegou pelo celular. Não no meu, naturalmente, porque seria óbvio demais e muito fácil de rastrear. A Agência Nacional de Acobertamento, marque isso, nunca entra em contato com você diretamente, a não ser que seja para pedir doações. Menti que meu celular estava sem bateria e pedi o da Simone para usar como calculadora e fazer o rateio da conta. Rabiscando febrilmente no guardanapo, usei o algoritmo secreto para transformar o texto do torpedo que acabara de chegar, “BLZ”, na verdadeira mensagem: NCNTRM N MDLSS GR MSM PT SBR BB PT BJS S. Vogais, como se sabe, são para maricas.
Vinte minutos depois eu puxava o freio de mão no estacionamento do Madalosso em Santa Felicidade, aguardando o contato de “S”, a célebre agente sansei, especialista em disfarces, ninjútsu e comida tailandesa, cujo nome verdadeiro é Maria Aparecida Sumida. Apesar da beleza estonteante (dava pena tirar sua foto do quadro de funcionário do mês, por isso baixamos uma norma tornando o cargo vitalício) Sumida alcançara notoriedade dentro da organização como tradutora do original de Harry Potter para o inglês.
Pouca gente tem como saber, mas a série Harry Potter foi escrita [em português] pelo dentista sergipano Riclédson Pinto, que não conseguiu publicá-la no Brasil porque a obra não passou pelos critérios de mediocridade do DECOE – o Departamento de Contenção de Excelência da ANA. A solução encontrada foi traduzir os livros para o inglês, adaptando a ação para outro país, e publicá-la mundo afora por um pseudônimo (Li, naturalmente, o original de Se a Pedra Filosofar, que se passava na ilha de Marajó em vez de na Inglaterra. Harry Potter era Ari Portinho, Hagrid era Agostinho, Draco Malfoy era Cardo Foimal, Hermione era Hermione, Voldemort era Morto Valdomiro e Hogwarts era a EEPSG Rogério Duarte; para mérito da agente Sumida, considero sua versão inglesa quase superior).
Eu conhecera “S” em 1997, quando trabalhamos juntos numa missão suicida que acabamos abortando. Apaixonei-me perdidamente e tivemos um caso tórrido que durou trinta e cinco minutos, mas depois de me acusar de amar a ANA mais do que ela, Sumida desaparecera por completo da minha vida.
Até esta noite.
A agente “S” entrou no meu Corsa 1.0 sem aviso e sem abrir a porta, passando pela janela aberta do passageiro uma longa perna torneada, depois o corpo, depois a outra perna. Beijamo-nos longamente nos lábios.
– O que houve com o Banco do Brasil desta vez? – perguntei, limpando a boca com as costas do braço.
– Brabo, não se trata do BB. Encontramos a fita perdida do ABBA.
Mordi os lábios, levemente embaraçado por ter entendido mal a mensagem (malditas vogais), mas excitadíssimo com a significância do momento. Há quanto tempo vínhamos procurando a fita perdida do ABBA? Vinte anos?
Do restaurante, de um dos salões onde rolava uma festa de casamento, começou a soar um cover muito desafinado de The Winner Takes It All, e enchi-me imediatamente de nostalgia. Durante uma década inteira a partir de 1972 os integrantes do ABBA, os baianos Anelise, Bento, Bráulio e Areli, haviam se mantido exemplarmente fiéis ao seu contrato e às diretrizes da ANA, escondendo a origem tupiniquim de seu vertiginoso sucesso. Mas em 1982, no ano seguinte ao lançamento de The Visitors, o quarteto decidiu secretamente quebrar o sigilo e revelar a grandeza do Brasil para o mundo, num show milionário em Salvador. Tiveram de ser eliminados silenciosamente e substituídos por sósias que vinham sendo treinados para essa eventualidade, porém não antes de gravarem uma fita de demonstração com músicas brasileiras arranjadas no estilo inconfundível do conjunto. Agentes da ANA conseguiram reaver as cópias da fita antes que viessem a público, mas durante anos circulou a nóticia de que uma única cópia sobrevivera, numa fita cassette regravada (eu, que ouvi uma das fitas antes de ser destruída, lembro ter chorado ao pensar que o mundo jamais ouviria as versões de Pássaro Bacurau, Você Abusou e Feira de Mangaio na voz singular do ABBA). Por todos esses anos vínhamos tentando rastrear a fita perdida, para evitar que caísse em mãos erradas e ameaçasse os objetivos mais elevados da ANA.
– Estava com o Sidclei, não estava?
Sumida confirmou com a cabeça.
Sidclei “Tanho” Machado havia sido Agente Laranja da ANA por mais de dez anos; trabalháramos juntos num caso ou outro antes dele partir para a dissidência. Eu sabia que nossos caminhos voltariam a se cruzar, mas não de forma tão espetacular.
– Onde está o Tanho?
– Aqui mesmo – Sumida indicou o restaurante com a cabeça – É ele quem está animando a festa de casamento.
– Eu deveria saber – disse eu, ajeitando o cabelo no retrovisor. – Princesa, aí no porta-luvas você vai encontrar uma pistola, uma granada de mão, um par de luvas cirúrgicas e uma fita cassette. Traga por favor a fita cassette.
Conversamos com Sidclei num canto do salão atrás de uma samambaia, cada um dos três equilibrando um pedaço de bolo de casamento num guardanapo de papel.
– O que você quer, Sidclei? – perguntei, limpando glacê do bigode.
– Que vocês libertem o Elvis – exigiu o dissidente, muito sério.
– Isso pode ser arranjado – menti. – Onde está a fita?
– Num lugar seguro – sorriu o Tanho. – Eu não seria idiota de trazer comigo.
– E se eu disser que a fita já está em nosso poder? – blefei, apresentando triunfalmente a fita que Sumida trouxera do carro.
– A fita não é essa – zombou Sidclei. – Não é nem a mesma marca.
– Nós não seríamos idiotas de trazer a fita conosco – argumentei confusamente, tentando confundir o Tanho.
– Se vocês tem a fita – quis saber Sidclei, – onde ela estava escondida?
– Removemos cirurgicamente enquanto você dormia – continuei, sem perder a firmeza – Você vai encontrar uma cicatriz na parte inferior da nádega esquerda.
Pela sua expressão de espanto ficou evidente que eu finalmente o atingira. O ex-agente Sidclei levou a mão reveladoramente às costas; achei que estava indo apalpar a nádega, mas ele logo trouxe a mão de volta e apontou-a na nossa direção. Com uma pistola.
Num piscar de olhos, antes que ele pudesse engatilhar, Sumida já tinha enrolado as pernas ao redor do seu pescoço e trazia-o imobilizado no chão, oferecendo-me a pistola numa das mãos e o pente de balas na outra.
– É tarde demais, Brabo – anunciou Sidclei, desafiadoramente, falando por entre as panturrilhas de Sumida – Eu sabia que isso podia acontecer e tomei as devidas providências.
– Que providências?
– A internet, idiota – sorriu o Tanho, e olhei para a agente Sumida, que parecia sinceramente preocupada.
– Como assim? – ela perguntou.
– Converti as músicas em mp3 e subi os arquivos para sáites de compartilhamento: rapidshare, mediafire, filesend, 4shared e uma dezena de outros que não vou dizer. Está tudo lá. Se eu e o Elvis não formos libertos em dez minutos, todos os usuários da internet receberão um email dizendo onde baixar esses arquivos, e o segredo da ANA estará perdido para sempre.
Sumida afrouxou o abraço das pernas e Sidclei afastou-se rastejando para junto da parede, resmungando baixinho e acariciando o pescoço.
– E agora? – disse a nissei, pondo-se de pé. – O que a gente faz?
– Está muito claro o que temos de fazer – disse eu, começando já a digitar uma série de números no celular. – Vamos ter de apagar a internet. De novo.
– Vocês não têm como apagar a internet inteira – implorou Sidclei. – Ou têm?
– Apagamos a intranet da ANA em 1965 – explicou Sumida, distraídamente, – que tinha o dobro de informação do que a internet tem agora.
– Está feito – eu disse, fechando o celular. – Princesa, no porta-luvas do carro…
– Já sei, o par de luvas cirúrgicas. Vamos extrair a fita desse verme.
Dez minutos depois ligava-me o gaúcho William Portão de Richmond, dizendo que estava esperando um email importante e perguntando se a culpa era minha do planeta estar offline.
– William, meu velho – disse eu, – temos backups para vender. Como da outra vez.
– Eu já te disse mil vezes pra me chamares de Bill – ele disse, e desligou.
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