04 de Junho de 2007

O trabalho da Nêmesis

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

O herói é o homem da submissão autoconquistada. Mas submissão a que? Eis precisamente o enigma que hoje temos de colocar diante de nós mesmos. Eis o enigma cuja visão, em toda parte, constitui a virtude primária e a façanha histórica do herói. Como indica o professor Arnold J. Toynbee, em seu estudo de seis volumes a respeito das leis que presidem a ascensão e a desintegração das civilizações, o cisma no espírito, bem como o cisma no organismo social, não serão resolvidos por nós por meio de um esquema de retorno aos bons tempos passados (arcaísmo), por meio de programas que garantam produzir um futuro projetado de natureza ideal (futurismo), ou mesmo por meio do mais realista e bem concebido trabalho de re-união dos elementos que se encontram em processo de deterioração.

A maldição irrompe da casca da nossa própria virtude.

Apenas o nascimento pode conquistar a morte – nascimento não da coisa antiga, mas de algo novo. Dentro do espírito e do organismo social deve haver – se pretendemos obter uma longa sobrevivência – uma contínua “recorrência de nascimento” (palingenesia) destinada a anular as recorrências ininterruptas da morte. Pois o trabalho da Nêmesis – caso não nos regeneremos – se realiza por intermédio das próprias vitórias que obtemos: a maldição irrompe da casca de nossa própria virtude. Portanto a paz, assim como a guerra, a mudança e a permanência, são armadilhas. Quando chega o dia em que seremos vencidos pela morte, ela vem; nada podemos fazer, exceto aceitar a crucificação – e a conseqüente ressurreição –, ou o completo desmembramento – e o conseqüente renascimento.

Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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