Lembranças de uma excursão aos Monastérios de Alcobaça e Batalha,
pelo autor de Vathek (William Beckford)
TERCEIRO DIA
5 de junho de 1794
Os primeiros sons que ouvi ao despertar nesta manhã extremamente bela e radiante não foi “o encanto matinal dos pássaros”, mas o estrepitoso matraquear de uma altercação violenta ou, para dizer a verdade, uma discussão pura e simples que irrompeu, no vestíbulo adjacente ao meu quarto, entre o secretário do Grande Prior e um atendente pessoal de meu bom amigo de São Vicente.
– Você sabe – disse em voz estridente o primeiro importante personagem que mencionei – que meu mestre é preguiçoso demais para sair dos seus aposentos arejados quando o sol brilha tão forte desse jeito.
– Você sabe – respondeu o outro – que temos coisas a resolver com urgência em Alcobaça, e que a ordem do príncipe regente é que levemo-las a cabo com a menor demora possível.
– Você não está pensando – retrucou o secretário – em forçar sua excelência contra a vontade?
– Por quê? É a intenção dele passar o dia inteiro vagueando no seu jardim do Éden? Não é melhor que tenhamos avançado até Cadafaiz na fresca da tarde?
– Não se trata de nós: sua excelência já decidiu colocar o seu repouso em dia, e não serei eu a contradizê-lo.
– Você não passa então de um tolo, tendo esquecido as ordens expressas de sua majestade. Continue bebendo a água do Lethe, se tem coragem.
– Pois vá você beber da poça mais imunda desses pomares – respondeu mordazmente o irritado secretário.
Tim, tim, tim, fez o sino de prata do Grande Prior. Os disputantes saíram em disparada, e saí eu para o vasto e ecoante vestíbulo, que abria, por tantas portas envidraçadas quanto há dias no mês, para os pomares de laranja.
Se é que já se pôde oferecer desculpa decente para o ócio completo, pode-se encontrá-la na atmosfera tépida e debilitante, carregada de perfume, que embebe universalmente esta umbrosa região. Não é de se admirar que meu Senhor de Aviz, o mais consumado mestre do “il dolce far niente” [o doce nada fazer] em todo Portugal e também no Algarve, fosse incapaz de deixá-la sem infinita relutância. Ele mal pôde ser persuadido a cruzar uma pequena avenida que conduzia a um pavilhão de verão nas margens do rio, onde nossa refeição matinal estava preparada. O Prior de São Vicente tinha projetado fazer com que nosso repasto fosse servido romanticamente nas poucas áreas de gramado poupadas pelos raios de sol, e que sentássemos ali ao estilo oriental, mas seu ilustre colega gentilmente intimou sua preferência por mesas e cadeiras.
Isso é o mais difícil de acreditar de tudo que você nos disse.
Acrescentado ao nosso grupo usual encontrei um certo padre, Machado, Azevedo ou outro nome desses, que havia recentemente voltado da China – não apenas da China, mas da própria Pequim. Durante sua residência em Macau ele havia, de um dos padres de nossa sede no Cantão (o capelão, suponho eu), aprendido inglês em medida suficiente para ler a floreada obra de Sir William Chambers sobre jardinagem chinesa. Perguntei-lhe quantas palavras de verdade havia naquela exuberante descrição. Ele não respondeu em inglês puro, mas no mais deleitável dos dialetos, meio cantado chinês, meio lingua franca.
– There be ten-tousand-time-ten-tousand [Há dez-mil-vezes-dez-mil].
– Você não está querendo que eu acredite – disse eu, – que a maravilhosa descrição feita pelo nosso famoso arquiteto do esplendor mágico de Yven-ming-Yven e Tchang-tchung-Yven não é exagerada?
– Não é exagerada – respondeu o padre em sonoro português, tendo abandonado os baixios e recifes de um inglês exíguo pela plena fluência de sua língua vernácula. – Vi maravilhas maiores do que ele; vi no inverno mais rigoroso uma grande extensão de jardim aquecida por um vapor tépido e fragrante, e todas as árvores cobertas de folhas de seda e flores artificiais, e, num tanque d´água, claro e transparente como o céu que refletia, centenas de patos esmaltados, feitos de metal, nadando mecanicamente, e mecanicamente abrindo seus bicos e proferindo seu chamado com a loquacidade usual, e engolindo a comida que os eunucos do palácio jogavam para eles. Verdade, e voltando com toda a aparência de estarem inteiramente satisfeitos, enquanto o imperador permanecia ali perto o tempo todo, rindo da minha surpresa e acreditando ser nada menos, estou inteiramente convencido disso, que uma encarnação do deus Fo!
– Terrível! – exclamou o Grande Prior. – Fico aqui pensando se ele não teve o mesmo fim de Nabucodonozor?
– Pois deveria ter sido mandado para o pasto imediatemante – observou o Prior de São Vicente.
– Teria sido uma pena – retrucou o ex-missionário. – Pois, apesar de seus contra-sensos tartáricos sobre encarnações e coisas tais, e a impossibilidade que experimentei de fazê-lo compreender nossos mistérios inefáveis, sou forçado a declará-lo um monarca sábio e uma excelente pessoa.
– Isso é o mais difícil de acreditar de tudo que você nos disse – observou o Grande Prior, – quando se leva em conta a horrenda impiedade que é acreditar-se a encarnação de Fo.
– Não há mentira na qual as pessoas não acabem crendo – respondeu o missionário, – desde que sejam contadas por aduladores nos quais, pela precisa razão que não deveriam fazê-lo, as pessoas têm prazer em colocar a sua confiança. E quando todos os príncipes de sangue e todos os cortesãos e todos os mandarins dos diferentes tribunais derramam continuamente saudações aos pés do trono, assegurando sua majestade imperial Kien-Long que ele é o filho do céu, um deus na terra, que mais se espera que ele faça?
– Que vá para o diabo a seu próprio modo, se não há remédio – disse nosso hospitaleiro anfitrião com uma risada cordial. – Temos de concluir, sem dúvida, que você fez o que pode para persuadi-lo; você talvez consiga na próxima vez (o padre estava prestes a voltar para sua missão).
– Vamos agora à missa – prosseguiu o Prior, fazendo uma reverência para sua excelência de Aviz, – rezar pela conversão do imperador!
Assim foram à missa, e depois à pesca, e a tarde desse dia foi como a manhã: calor, bate-papo e ociosidade.
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Lembranças de uma excursão aos Monastérios de Alcobaça e Batalha
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