01 de Fevereiro de 2007

O ser das coisas

Por   Paulo Brabo

 

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1. Fica evidente a qualquer um que analisa os objetos do conhecimento humano que esses consistem ou em idéias estampadas diretamente sobre os sentidos ou naquelas que são percebidas no atentar das paixões e operações da mente; ou ainda, em último lugar, nas idéias formadas com o auxílio da memória e da imaginação – quer seja combinando, dividindo ou tentando representar as idéias originalmente percebidas das maneiras já mencionadas.

Através da visão tenho idéias de luz e de cores, com seus inúmeros graus e variações. Através do tato percebo duro e macio, calor e frio, movimento e resistência, e todos esses em maior ou menor quantidade ou grau. O olfato fornece-me odores, o paladar sabores, a audição conduz-me sons à mente em toda sua variedade de tom e composição. E como observa-se que vários desses costumam andar acompanhados, ficam marcados por um único nome, e passam a ser reputados como uma única coisa. Assim, por exemplo, tendo sido observado que determinada combinação de cor, gosto, cheiro, aparência e consistência aparecem juntas, esta é considerada uma única coisa distinta, representada pelo nome “maçã”; outros agrupamentos de idéias constituem uma pedra, uma árvore, um livro, e semelhantes coisas concretas – as quais sendo agradáveis ou desagradáveis despertam as paixões do amor, do ódio, da alegria, da tristeza e assim por diante.

2. Porém, ao lado dessa infinita variedade de idéias ou objetos do conhecimento, há de forma correspondente algo que as conhece ou percebe, e exercita uma série de operações, como querê-los, imaginá-los ou lembrar deles. Esta entidade percebedora e ativa é o que chamo mente, espírito, alma ou eu mesmo. Não refiro-me através destas palavras a qualquer uma das minhas idéias, mas a algo inteiramente distinto delas, na qual elas existem ou, o que quer dizer o mesmo, onde são percebidas – pois a existência de uma idéia consiste nela ser percebida.

Existir é ser percebido.

3. Que nem nossos pensamentos, nem nossas paixões, nem as idéias formadas pela imaginação existem sem a mente é coisa com que todos concordarão. E deveria parecer não menos evidente que as diversas sensações ou idéias estampadas sobre os sentidos, mesmo que mescladas ou combinadas entre si (isto é, quaisquer que sejam os obejtos que componham), não podem existir sem uma mente que as perceba.

Creio que pode chegar a um conhecimento intuitivo disso qualquer um que atente para o que quer dizer o termo “existir” quando aplicado a coisas concretas. Sobre a mesa na qual escrevo digo que ela existe, isto é, eu a vejo e sinto; se estivesse fora do meu estúdio eu poderia dizer que a mesa existe – querendo dizer com isso que se estivesse no meu estúdio eu seria capaz de percebê-la, ou que algum outro espírito efetivamente a percebe.

Um cheiro existe, quer dizer, é cheirado; um som existe, quer dizer, é ouvido; uma cor ou um objeto, e foram percebidos pela visão e pelo tato. Isto é tudo que posso entender por essas e por semelhantes expressões. Pois quando se fala na existência absoluta de coisas não pensantes sem qualquer relação com o ato de serem percebidas, isso parece-me inteiramente ininteligível. O ser das coisas é o serem percebidas; tampouco é possível que tenham qualquer existência fora das mentes ou coisas pensantes que as percebem.

4. É de fato opinião estranhamente comum entre os homens que casas, montanhas, rios – numa palavra, todos os objetos concretos – tenham uma existência, natural ou real, distinta do fato de serem percebidos pelo entendimento. Porém, por maior que seja a unanimidade e aquiescência que este princípio tenha recebido no mundo, qualquer um que se proponha a questioná-lo em seu coração será capaz, se não estou errado, de perceber que ele envolve uma manifesta contradição. Pois que são os objetos mencionados se não coisas que percebemos através dos sentidos? E o que somos capazes de perceber que não sejam nossas próprias idéias e sensações? Não é portanto absurdo conceber que qualquer uma dessas coisas, ou qualquer combinação dessas coisas, possam existir sem serem percebidas?

Tratado sobre os príncipios do conhecimento humano (1710)
George Berkeley (1685-1753)

 

Este documento faz parte da série

Tratado sobre os príncipios do conhecimento humano

  1. O ser das coisas
  2. Toda Substância é Espírito


6 Comentários a respeito de "O ser das coisas"

bete

Lindo. A bacia existe, porque neste momento eu estou olhando para a bacia.



bete

…quando meu filho era pequenininho, ele estava no quintal de casa brincando de olhar para a lua. Quando cansou da brincadeira, ele disse: agora eu vou entrar pra dentro, e a lua não existe mais…



Wander Morínigo Teixeira

Como perceber a existência daquilo que não conseguimos perceber com nossos sentidos e entendimento??



Paulo Brabo

É dia: a lua não existe mais.



hernan

Platão e Descartes devem estar revirando-se em seus respectivos túmulos.

Muito interessante. O filósofo David Hume, talvez o mais famoso dos empiristas, nasceu no ano seguinte (1711).



Paulo Brabo

Como pretendo ainda salientar, o pensamento de George Berkeley, que era ministro da Igreja Anglicana, exerceu grande influência sobre Hume, com os mais curiosos resultados.



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