18 de Julho de 2007

O segredo do sucesso

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Livros

Já li mais livros sobre técnicas de administração, gerenciamento de pessoas e sucesso corporativo do que meu estômago pode suportar impunemente; cheguei, perdoem-me os céus, a traduzir alguns. No meio desse lodaçal de mediocridade e redundância a exceção mais brilhante permanece sendo (não julgue o livro pela capa - ou pelo título) Consultoria - O Segredo do Sucesso, de Gerald M. Weinberg (The Secrets of Consulting, publicado no Brasil pela McGraw Hill em 1990, esgotado).

Weinberg é um cara peculiar. Consultor de tecnologia da informação, sua curiosa especialidade (se é que posso atribuir-lhe essa falha; a especialização é sempre uma desvantagem, particularmente num consultor) é a psicologia e a antropologia do desenvolvimento de software. Mais recentemente Weinberg abandonou a estante de não-ficção e começou a escrever histórias de ficção científica, argumentando que a narrativa é a forma mais poderosa de comunicação e de transformação entre seres humanos.

Como descrever o estilo do sujeito? Fluente? Bem-humorado? Xamânico? Tangencial? O subtítulo original de O Segredo do Sucesso explica um pouco melhor a pegada universal do estilo de Weinberg: Um guia para se dar e se receber conselhos de forma bem sucedida.

Consultor é o improvável profissional que recebe dinheiro para dar conselhos a empresas. À primeira vista, pode parecer que o segredo do sucesso do consultor está em ser capaz de [1] diagnosticar com acerto a condição de uma instituição e [2] delinear as recomendações adequadas para reverter ou aprimorar essa situação. Segundo Weiberg, essa é a parte fácil. Difícil mesmo, e particularmente arriscado para a reputação do consultor, é [3] fazer com que a empresa implemente as mudanças que você afirma que são necessárias.

Certifique-se de cobrar o bastante para que coloquem em prática as suas recomendações.

Uma das regras essencias da consultoria segundo Weinberg é, portanto “certifique-se de cobrar o bastante [como consultor] para que [aqueles que estão contratando você] coloquem em prática as suas recomendações”. Caso contrário, se o serviço do consultor não parecer “caro o bastante” para aqueles que o estão contratando, esses poderão sentir-se tentados a não levar a sério as sugestões dele - pelo menos não ao ponto de fazerem o esforço final de colocarem-nas em prática.

Ser barato demais é, portanto, pecado mortal para a reputação e para a eficácia de um consultor. Ele corre o risco de não ver implantadas as soluções que sabe necessárias. Quando estiver vendendo conselhos portando, vale a regra: na dúvida, cobre mais caro.

* * *

Nisso está, naturalmente, o mecanismo segredo do sucesso das religiões que aliam promessas atraentes a regras rígidas, padrões exigentes de comportamento e rituais elaborados e repetitivos. Quanto maior for o preço comportamental exigido pela religião, maior é a probabilidade de que o cultuante sinta-se inclinado a acreditar nas suas sugestões.

Quando for inventar uma religião, portanto, certifique-se de cobrar o bastante para que as pessoas que estão pagando em renúncias pessoais e ofertas monetárias acreditem nos conselhos que você está dando.

Aqui reside, obviamente, a falha fundamental no planejamento de marketing do cristianismo: o fato de estar fundamentado na graça - ou seja, em preço nenhum. Como Jesus não cobra nada, ninguém sente-se nem de perto tentado a levar a sério o que ele diz - quanto mais colocá-lo em prática. O barato sai caro, porque ninguém quer comprar.

Melhor seria para os cristãos, antes que nos vejamos obrigados a fechar a porta da lojinha, contratar um consultor que nos ensine a vender por bom preço o que Jesus está oferecendo de graça. Afinal de contas, será com a melhor das boas intenções: Jesus terá os convertidos que quer, o crente será poupado da liberdade que não quer e nós idealizadores desfrutaremos apenas da recompensa pecuniária pela nobreza dos nossos esforços.

Todo mundo sairá ganhando - se isso não é graça, não sei dizer o que é.

geraldmweinberg.com



8 Comentários a respeito de "O segredo do sucesso"

Tuco

E não é isso que temos feito desde sempre?



Lou Mello

Com grande quantidade de livros dessa área lidos, igualmente, somado ao fato de que estou tentando aconselhar empresas e pessoas há muitos anos, especialmente ongs cristãs, teria muito a comentar, nesse caso. Pelo visto, meu defeito foi nunca cobrar caro.

Mas em respeito ao espaço alheio só quero revelar uma fato que considero curioso. O Apóstolo Português (moçambicano de nascimento) Jorge Tadeu, fundador e presidente da Igreja Manã, espalhada por todos os cantos desse mundo, tem (pelo menos no tempo em que convivi com ele, a trabalho) como livro de cabeceira “Os sete hábitos das Pessoas muito eficazes” (que mudou muito por altamente, salvo engano) do S. Covey.

Particularmente, creio que o Keneth Hagin emprestou muitas de sua idéias do pessoal do Cristianismo Científico, sem citá-los, claro e o pessoal do CC chupava suas idéias do falecido pastor Norman Vincent Peale, que teve suas fontes, todos propondo mecanismos de mudança comportamental.

O método tem sua utilidade, especialmente no tratamento de pessoas deprimidas ou dos desanimados. Confesso que uma boa lida em algum livro do Peale ou do Emmet Fox me coloca de volta à terra nos momentos de crise.

Se abrir uma Igreja, não seguirei seus conselhos porque você os deu de graça.



hernan

Eu, se fosse minha a competência, de início não o perdoaria pelas traduções. Porém, todos sabemos o que Mamom nos obriga a fazer. Imagine o que é trabalhar em um banco. Nem o sangue de mil touros poderia me redimir.

Que tal começar a cobrar os acessos à Bacia?



Tato Egg

Tucón, é a triste realidade.

É Hernan. E eu trabalho em uma emissora de TV aberta…



hernan

Putz!



FChagas

Brabo, nem sei se devo citar nomes de livros, pois acredito que as distribuidoras incluem no livro o custo pela propaganda. Mas não posso deixar de citar “o homem mais rico da babilônia.” Lá (Babilônia) se não me engano foi o berço de uma boa administração financeira e sucesso. Pelo menos não usaram os clichês modernos.



Wander

O duro de cobrar caro, é que no começo quase ninguem compra…

Teria que aliar isso a determinação da espera…



Mariza Musenek

Pois é! Não é tão fácil viver pela graça… Já pensou que a lei era mais conveniente?

A graça é muito mais cara do que se imagina!



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