16 de Março de 2007

O que pode dar errado

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Pergunte ao Ermitão – provoco.

– Ah, o velho Crepsi – Andu desiste de morder o copo vazio e coloca-o sobre a mesa. – Foi aqui perto, você sabia?

– Não – e minha supresa é genuína.

– Um pouco pra lá da Bucovina. Pois lá está o Ermitão de onde ninguém pode tirar, cozinhando sob o sol do céu, sem nunca chegar ao inferno.

– Não faz sentido pra mim um cara como Crepsi –
– O disfarce dele não tinha como durar muito tempo – o mameluco dá de ombros. – A polícia andava na cola do Ermitão fazia dias.

– Conversa fiada. Metade da polícia trabalhava pra ele. E ser desmascarado não é motivo, você pode dizer melhor do que ninguém.

– Cansou da vida – opina Quirino.

Levo a mão à boca, impaciente.

– Que cara é essa, Cirurgião, suspeitando de jogo sujo? – Andu está sinceramente achando graça. – Você sabe que ninguém pode ser forçado a ir para a estremadura, amigo velho. O Ermitão foi porque quis, e é esse o mistério. No céu não tem armação nem assassinato, infelizmente; está ali no livro que você levou.

– Há armações e armações – observo.

– Você está achando que forçaram o juiz a cometer suicídio? A sua fé é maior que a minha.

– Não estou achando nada. Só me incomoda pensar que o Ermitão sabia de alguma coisa que não sabemos.

– E que ele foi para estremadura por causa desse conhecimento – não é uma pergunta.

Esvazio o rosto de qualquer expressão.

– Você sabe de alguma coisa que não sei, Pjelelani?

– Provavelmente.

– Pra quem ele trabalhava?

– O Ermitão? – o mameluco fica em pé e ergue o gato morto entre as duas mãos. O corpo do animal pende com naturalidade, como se estivesse dormindo. – Não sei, Ciro. Gente graúda, com certeza. Não pode haver muita gente acima do Ermitão.

Ele beija com devoção o focinho do bicho e deposita-o com gentileza numa caixa aberta de papelão, entre flâmulas e calendários antigos. Só depois, sentando-se numa cadeira mais próxima e pousando na mesa uma mão sobre a outra, Pjelelani Andu volta a fitar-me nos olhos.

– Por que a pergunta?

Alço o copo da mesa antes de responder.

– Porque, quem quer que seja essa pessoa, estou trabalhando pra ela.

Quirino não consegue esconder a surpresa, mas Andu disfarça bem.

– Ah – celebra o mameluco, nostalgicamente – as contradições de se dever favores a quem não se conhece.

– De quem não sabemos o nome – corrijo.

– Então é por isso que o velho Andu mereceu uma visita do Cirurgião – o encarnado se coloca vagamente na defensiva, subindo uma perna para junto do corpo, uma mão protegendo o pé vermelho reluzente.

– Você me deve favores – sorrio. – E meu nome pelo menos você sabe.

Ele fecha a cara, esperando que eu fale. Coloco o copo com a boca para baixo sobre a bandeja.

– Preciso levar um contêiner para o inferno.

Andu sorri, entre o alívio velado e o cinismo sincero.

– Só isso? Você não precisa de mim pra isso, Cirurgião. Você tem acesso a melhores canais do que eu.

– É um contêiner de putra, para um convento em Howrah – falo pausadamente. – Meu problema é que a caixa não pode ser aberta entre aqui e o destino.

– Não é putra, então?

– Provavelmente nada tão inofensivo – admito. – Mas não sei o que é.

– Por que não mandar por uma das Rondas Pardas? Com os contatos que você tem –
Afasto a idéia com um gesto impaciente da mão. Eu já havia considerado as Rondas Pardas, que são estradas bem-cuidadas e semi-secretas, controladas não-oficialmente pelo governo. Metade da putra vendida no inferno escoa pelas Pardas, com enormes lucros para ambos os lados.

– Mandar não seria problema – admito. – Mas perco qualquer chance da encomenda chegar inteira, seja lá o que for. Os dois lados da fronteira requerem seus souvenirs, você sabe disso.

– Quanto tempo você tem pra mandar a coisa?

– A encomenda deve estar pronta daqui a oito horas. Depois disso tenho vinte horas para despachar.

O mameluco baixa os olhos, vira um pouco a cabeça e ergue as sobrancelhas, como quem analisa sem muita esperança a enormidade de um problema.

– Posso arranjar um caminhão-prancha – ele cede, – mas com esse prazo a única passagem que lhe resta é Dunedin, e acho que nem você consegue entrar ali impunemente com um contêiner. Sem contar que você vai precisar de um motorista, e nisso nem eu nem meus irmãos podemos ajudar.

– Dunedin não é a resposta que eu estava esperando de você, Andu.

Quirino ergue-se do seu lugar para dizer alguma coisa, mas o mameluco cala-o com um gesto brusco da mão, sem tirar os olhos de mim.

– Que resposta você estava esperando?

Abro o sorriso mais cínico que consigo conjurar.

– As balsas de Dáun-Behri, Andu. Estava esperando que você me propusesse a travessia por Dáun-Behri.

Ele até que agüenta bem, para quem não sabia que eu sabia das balsas.

– Não lhe devo favores desse tamanho – ele argumenta, e está falando a verdade.

Mas já despejei sobre a mesa um punhado de bivalves cor-de-rosa.



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