– Pergunte ao Ermitão – provoco.
– Ah, o velho Crepsi – Andu desiste de morder o copo vazio e coloca-o sobre a mesa. – Foi aqui perto, você sabia?
– Não – e minha supresa é genuína.
– Um pouco pra lá da Bucovina. Pois lá está o Ermitão de onde ninguém pode tirar, cozinhando sob o sol do céu, sem nunca chegar ao inferno.
– Não faz sentido pra mim um cara como Crepsi –
– O disfarce dele não tinha como durar muito tempo – o mameluco dá de ombros. – A polícia andava na cola do Ermitão fazia dias.
– Conversa fiada. Metade da polícia trabalhava pra ele. E ser desmascarado não é motivo, você pode dizer melhor do que ninguém.
– Cansou da vida – opina Quirino.
Levo a mão à boca, impaciente.
– Que cara é essa, Cirurgião, suspeitando de jogo sujo? – Andu está sinceramente achando graça. – Você sabe que ninguém pode ser forçado a ir para a estremadura, amigo velho. O Ermitão foi porque quis, e é esse o mistério. No céu não tem armação nem assassinato, infelizmente; está ali no livro que você levou.
– Há armações e armações – observo.
– Você está achando que forçaram o juiz a cometer suicídio? A sua fé é maior que a minha.
– Não estou achando nada. Só me incomoda pensar que o Ermitão sabia de alguma coisa que não sabemos.
– E que ele foi para estremadura por causa desse conhecimento – não é uma pergunta.
Esvazio o rosto de qualquer expressão.
– Você sabe de alguma coisa que não sei, Pjelelani?
– Provavelmente.
– Pra quem ele trabalhava?
– O Ermitão? – o mameluco fica em pé e ergue o gato morto entre as duas mãos. O corpo do animal pende com naturalidade, como se estivesse dormindo. – Não sei, Ciro. Gente graúda, com certeza. Não pode haver muita gente acima do Ermitão.
Ele beija com devoção o focinho do bicho e deposita-o com gentileza numa caixa aberta de papelão, entre flâmulas e calendários antigos. Só depois, sentando-se numa cadeira mais próxima e pousando na mesa uma mão sobre a outra, Pjelelani Andu volta a fitar-me nos olhos.
– Por que a pergunta?
Alço o copo da mesa antes de responder.
– Porque, quem quer que seja essa pessoa, estou trabalhando pra ela.
Quirino não consegue esconder a surpresa, mas Andu disfarça bem.
– Ah – celebra o mameluco, nostalgicamente – as contradições de se dever favores a quem não se conhece.
– De quem não sabemos o nome – corrijo.
– Então é por isso que o velho Andu mereceu uma visita do Cirurgião – o encarnado se coloca vagamente na defensiva, subindo uma perna para junto do corpo, uma mão protegendo o pé vermelho reluzente.
– Você me deve favores – sorrio. – E meu nome pelo menos você sabe.
Ele fecha a cara, esperando que eu fale. Coloco o copo com a boca para baixo sobre a bandeja.
– Preciso levar um contêiner para o inferno.
Andu sorri, entre o alívio velado e o cinismo sincero.
– Só isso? Você não precisa de mim pra isso, Cirurgião. Você tem acesso a melhores canais do que eu.
– É um contêiner de putra, para um convento em Howrah – falo pausadamente. – Meu problema é que a caixa não pode ser aberta entre aqui e o destino.
– Não é putra, então?
– Provavelmente nada tão inofensivo – admito. – Mas não sei o que é.
– Por que não mandar por uma das Rondas Pardas? Com os contatos que você tem –
Afasto a idéia com um gesto impaciente da mão. Eu já havia considerado as Rondas Pardas, que são estradas bem-cuidadas e semi-secretas, controladas não-oficialmente pelo governo. Metade da putra vendida no inferno escoa pelas Pardas, com enormes lucros para ambos os lados.
– Mandar não seria problema – admito. – Mas perco qualquer chance da encomenda chegar inteira, seja lá o que for. Os dois lados da fronteira requerem seus souvenirs, você sabe disso.
– Quanto tempo você tem pra mandar a coisa?
– A encomenda deve estar pronta daqui a oito horas. Depois disso tenho vinte horas para despachar.
O mameluco baixa os olhos, vira um pouco a cabeça e ergue as sobrancelhas, como quem analisa sem muita esperança a enormidade de um problema.
– Posso arranjar um caminhão-prancha – ele cede, – mas com esse prazo a única passagem que lhe resta é Dunedin, e acho que nem você consegue entrar ali impunemente com um contêiner. Sem contar que você vai precisar de um motorista, e nisso nem eu nem meus irmãos podemos ajudar.
– Dunedin não é a resposta que eu estava esperando de você, Andu.
Quirino ergue-se do seu lugar para dizer alguma coisa, mas o mameluco cala-o com um gesto brusco da mão, sem tirar os olhos de mim.
– Que resposta você estava esperando?
Abro o sorriso mais cínico que consigo conjurar.
– As balsas de Dáun-Behri, Andu. Estava esperando que você me propusesse a travessia por Dáun-Behri.
Ele até que agüenta bem, para quem não sabia que eu sabia das balsas.
– Não lhe devo favores desse tamanho – ele argumenta, e está falando a verdade.
Mas já despejei sobre a mesa um punhado de bivalves cor-de-rosa.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro

