O sujeito de terno claro e chapéu-panamá encostado às colunas da escadaria do Bureau é o próprio Glenn Miller, que trabalha na Administração do Delta dois ou três dias por mês e veio me receber com as últimas notícias. A crise parece estar sobre controle, mas decisões importantes precisam ser tomadas nas próximas horas.
– Tentei encontrá-lo no celular, estava fora de área – Glenn me segue pelo corredor, balançando os óculos redondos sem aro numa das mãos, parcialmente irritado.
– Não sei onde deixei – minto, conferindo sem diminuir o passo o cabelo grisalho no reflexo do vidro de uma porta. – Deve ter largado em algum quarto lá em casa.
– Mas estava fora de área – ele reclama, como se estivesse proferindo um grande mistério, e de certa forma está.
Abro a porta, deixo Glenn entrar primeiro e sento-me com três ou quatro outros executivos numa sala privada do térreo. Em algum lugar deste prédio uma agitada reunião do comitê aduaneiro está deliberando este mesmo assunto, mas (uns poucos não ignoram) a verdadeira decisão sairá desta sala. E pensar que nem foi por esse motivo que vim.
– Quando – exige Martinha, os olhos vermelhos travando nos meus e as duas mãos emoldurando o casaco do tailleur – você o viu pela última vez?
Recuso-me a responder, sabendo que a pergunta e a resposta não têm qualquer relação com o que estamos discutindo aqui.
– Esta crise tem duas dimensões inteiramente distintas – deposito um punho fechado gentilmente sobre a mesa – e precisamos delimitar claramente o que podemos resolver neste momento. Não creio que seja hora de discutirmos porque aconteceu.
– Precisamos saber porque aconteceu – resmunga Martinha, professoralmente – para podermos saber como evitar.
– Ele está certo – Glenn mordisca a haste do óculos. – Algumas fatalidades não podem ser evitadas. E mesmo se puderem, não nos cabe discutir isso agora.
– A questão – aproveito a deixa, e meu tom de voz está calibrado entre o decidido e o desconsolado – é definirmos o que exatamente vamos fazer agora.
E, por antecipação, sei exatamente o que será feito agora; não preciso sequer me esforçar para conduzir a reunião rumo ao resultado desejado. Cada crise é o guia de sua própria solução, e nossas alternativas não são muitas. São, na verdade, nenhuma.
Levanto-me para buscar um pouco de água num copo dobrável de papel e na volta dou as costas à sala, como se estivesse observando pela janela o lento movimento da Catraca na planície lá embaixo. Pergunto-me se Sahid teria pesado todos os efeitos da sua escolha. Teria ele se sentido responsável pela cadeia de conseqüências que não o afetavam pessoalmente? Teria ele antecipado esta reunião, estes diálogos, esta coreografada demora?
– Sahid não podia ter escolhido hora pior para ir para o inferno – confessa Cortiano em nome de todos, desviando os olhos tristes para a parede. Suas mãos gordas e peludas estão espraiadas sobre a mesa de carvalho, como se ele esperasse que a resposta brotasse de sua comunhão com a madeira.
– O problema nunca é quando – puxo uma cadeira, viro-a de frente para mim e sento-me a cavalo, os braços apoiados no encosto. – É sempre quem.
Todos gastam um instante para avaliar a sabedoria do que eu disse.
– A situação só não é pior porque oficialmente não aconteceu – opina Glenn. – Não chega a ser uma crise diplomática porque não temos relações oficiais com o inferno desde… desde quando? Desde antes de eu chegar.
O inferno não me interessa – mente Martinha, e o silêncio dos outros também é criminoso, inclusive (talvez particularmente) o meu.
Céu e inferno não reconhecem há eras relações diplomáticas um com o outro, mas extra-oficialmente desfrutam de uma animada e controversa relação comercial. Como resumiu-me certa vez o próprio Sahid, que nunca soube de mim (e como ele jamais admitiria numa reunião como esta), o céu vende ao inferno esperança, e o inferno nos vende tentação.
O motor de toda a questão está na mais curiosa particularidade do mecanismo do além: como descobrem tanto os que embarcam nas vans quanto os que escolhem a Catraca, a decisão entre céu e inferno não é apenas não forçosa; ela é tampouco definitiva. O habitante do inferno e o habitante do céu podem em qualquer momento mudar de idéia e decidir voluntariamente em favor do outro destino, desde que tenham consciência de que essa sua segunda decisão é irreversível. A relocação não é fácil, não é barata e nunca é efetuada por meios legais, mas esta longe de ser impossível.
É aqui, naturalmente, que eu entro, o que desconhecem todos nesta sala – embora eu ache às vezes que Glenn desconfia, e me admira secretamente por isso.
– De nada adianta adiar a decisão – é ele mesmo que levanta-se do lugar, atirando o chapéu teatralmente sobre a mesa. – Vamos tornar isso público e colocar Gandhi no lugar de Sahid.
Ergo muito alto as sobrancelhas, impressionado que ele tenha dito o nome ao invés de usar o eufemismo usual, Mahatma.
– Você está maluco – sentencia Cortiano.
– Loucos estaríamos se crêssemos que há de fato alguma alternativa viável.
– Você faz idéia do que vai acontecer se Gandhi assumir o Bureau?
E eu, que preciso que a reunião acabe porque tenho negócios a acertar doze andares acima neste mesmo prédio, ouso provocar:
– Há sempre a chance dele não aceitar.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro


hernan
Lido.
Lou Mello
É um texto a la C. S. Lewis. Estamos gostando. Manda mais.
rubens osorio
A esperança é uma grande tentação…
Anderson
Eu acho que Nietzsche disse, não dessa forma, é claro (mas quase), que a esperança é coisa de maricas…
A esperança é a última que morre, mas, às vezes, deveria ser a primeira.
Charleston Fernandes
Texto brabo [i.e., excelente].