Paulo Brabo, 23 de julho de 2007

O livro de Raziel

Estocado em Goiabas Roubadas

ADÃO: O livro de Raziel

Depois de ser expulso do Paraíso Adão orou a Deus com as seguintes palavras:

– Ó Deus, Senhor do mundo! O senhor criou o mundo inteiro para honra e glória do Poderoso, e fez da forma que lhe agradou. Seu reino é por toda a eter­ni­dade, e seu reinado por todas as gerações. Nada lhe está oculto, e nada escondido dos seus olhos. O senhor criou-me como obra das suas mãos, e estabeleceu-me como gover­nante sobre as suas criaturas, para que eu exercesse domínio sobre as suas obras. Porém a ardilosa e execrável serpente seduziu-me com desejo e com lascívias; seduziu, é verdade, a esposa do meu coração. O senhor, no entanto, não revelou-me o que sobrevirá a meus filhos e às gerações depois de mim. Sei muito bem que nenhum ser humano é capaz de ser íntegro aos seus olhos. E que é minha força para que eu me coloque na sua presença com rosto impudente? Não tenho boca com que falar nem olho com o qual ver, pois ver­da­dei­ra­mente pequei e cometi trans­gres­são, e por causa dos meus pecados fui expulso do Paraíso. Devo arar a terra da qual fui tomado, e os demais habi­tan­tes da terra, os animais selvagens, não mais, como antes, demons­tram assombro e temor diante de mim. A partir do instante em que comi da árvore do conhe­ci­mento do bem e do mal a sabedoria me abandonou: sou um tolo que nada sabe, um ignorante que nada com­pre­ende. Agora, mise­ri­cor­di­oso e gracioso Deus, peço que volte novamente a sua compaixão ao cabeça das suas obras, ao espírito que instilou nele e à alma que soprou nele. Venha ao meu encontro com a sua graça, pois o senhor é gracioso, tardio em irar-se e pleno de amor. Que a minha oração alcance o trono da sua glória, e a minha súplica o trono de sua mise­ri­cór­dia; que o senhor se incline na minha direção com amor. Que as palavras da minha boca sejam acei­tá­veis, e o senhor não dê as costas à minha petição. O senhor é desde a eter­ni­dade e será até a eter­ni­dade; era rei, e será rei. Tenha agora mise­ri­cór­dia da obra das suas mãos; conceda-me conhe­ci­mento e com­pre­en­são, para que eu saiba o que sobrevirá a mim, à minha pos­te­ri­dade e a todas as gerações que virão depois de mim, e o que me sobrevirá a cada dia e a cada mês. Não negue a mim o auxílio dos seus servos e dos seus anjos.

No terceiro dia depois que Adão ofereceu essa oração, enquanto sentava às margens do rio que flui do Paraíso, apareceu a ele, na hora mais quente do dia, o anjo Raziel, trazendo nas suas mãos um livro. O anjo dirigiu-se a Adão com as seguintes palavras:

– Adão, porque está tão desa­ni­mado? Porque tão aflito e ansioso? As suas palavras foram ouvidas no momento em que, entre apelos e súplicas, você as proferiu, e recebi a incum­bên­cia de ensinar-lhe palavras puras e com­pre­en­são profunda, de torná-lo sábio através do conteúdo do livro sagrado que trago nas mãos, e de dar-lhe a conhecer o que irá lhe sobrevir até o dia da sua morte. Quanto a todos os seus des­cen­den­tes e todas as gerações pos­te­ri­o­res, se lerem este livro em pureza, com um coração devoto e uma mente humilde, e obe­de­ce­rem aos seus preceitos, tornar-se-ão como você: eles também saberão de antemão o que acon­te­cerá, em qual mês e em qual dia ou qual noite. Tudo estará manifesto para eles: saberão e com­pre­en­de­rão se uma cala­mi­dade está por vir, uma fome ou animais selvagens, inun­da­ções ou seca; se haverá abun­dân­cia de grão ou escassez; se os perversos gover­na­rão o mundo; se gafa­nho­tos devas­ta­rão a terra; se os frutos cairão das árvores ainda verdes; se furún­cu­los afligirão os homens; se guerras pre­do­mi­na­rão, ou doenças ou pragas entre homens e gado; se o bem foi resolvido no céu, ou o mal; se o sangue fluirá, e o rumor de morte dos abatidos será ouvido na cidade. E agora, Adão, venha e dê ouvidos a tudo que lhe direi a respeito da natureza deste livro e da sua santidade.

O anjo Raziel então leu do livro e, quando ouviu as palavras do santo volume pro­fe­ri­das pela boca do anjo, Adão caiu no chão, tomado de pavor. Porém o anjo o encorajou:

– Levante-se, Adão – ele disse. – Coragem, não tenha medo, aceite este livro de mim e guarde-o, pois dele você extrairá conhe­ci­mento e se tornará sábio, e irá também ensinar o conteúdo dele a todos que forem dignos de saberem o que ele contém.

No momento em Adão pegou o livro uma chama de fogo brotou das pro­xi­mi­da­des do rio, e o anjo subiu sobre ela em direção ao céu. Adão então soube que o que havia falado com ele era um anjo de Deus, e que o livro vinha do próprio Rei Santo, e usou-o em santidade e pureza. Esse é o livro do qual podem ser apren­di­das todas as coisas que vale à pena saber, e todos os mistérios; que ensina também como invocar os anjos e fazê-los apa­re­ce­rem diante dos homens, e res­pon­de­rem todas as suas perguntas. Porém não são todos que podem fazer uso do livro, apenas aquele que é sábio e temente a Deus, e recorre a ele em santidade. Esse estará seguro contra todos os conselhos perversos, sua vida será serena, e quando a morte tirá-lo do mundo, encon­trará repouso num lugar onde não há nem demônios nem espíritos do mal, e das mãos dos perversos será veloz­mente resgatado.

* * *

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. Meu livro mais recente, que você deve desejar comprar, é As divinas gerações. Esta é a Bacia das Almas, mas hoje em dia escrevo antes de tudo na Forja Universal.


 

Paulo Brabo Goiabas Roubadas

ADÃO: O livro de Raziel

Depois de ser expulso do Paraíso Adão orou a Deus com as seguintes palavras:

– Ó Deus, Senhor do mundo! O senhor criou o mundo inteiro para honra e glória do Poderoso, e fez da forma que lhe agradou. Seu reino é por toda a eter­ni­dade, e seu reinado por todas as gerações. Nada lhe está oculto, e nada escondido dos seus olhos. O senhor criou-me como obra das suas mãos, e estabeleceu-me como gover­nante sobre as suas criaturas, para que eu exercesse domínio sobre as suas obras. Porém a ardilosa e execrável serpente seduziu-me com desejo e com lascívias; seduziu, é verdade, a esposa do meu coração. O senhor, no entanto, não revelou-me o que sobrevirá a meus filhos e às gerações depois de mim. Sei muito bem que nenhum ser humano é capaz de ser íntegro aos seus olhos. E que é minha força para que eu me coloque na sua presença com rosto impudente? Não tenho boca com que falar nem olho com o qual ver, pois ver­da­dei­ra­mente pequei e cometi trans­gres­são, e por causa dos meus pecados fui expulso do Paraíso. Devo arar a terra da qual fui tomado, e os demais habi­tan­tes da terra, os animais selvagens, não mais, como antes, demons­tram assombro e temor diante de mim. A partir do instante em que comi da árvore do conhe­ci­mento do bem e do mal a sabedoria me abandonou: sou um tolo que nada sabe, um ignorante que nada com­pre­ende. Agora, mise­ri­cor­di­oso e gracioso Deus, peço que volte novamente a sua compaixão ao cabeça das suas obras, ao espírito que instilou nele e à alma que soprou nele. Venha ao meu encontro com a sua graça, pois o senhor é gracioso, tardio em irar-se e pleno de amor. Que a minha oração alcance o trono da sua glória, e a minha súplica o trono de sua mise­ri­cór­dia; que o senhor se incline na minha direção com amor. Que as palavras da minha boca sejam acei­tá­veis, e o senhor não dê as costas à minha petição. O senhor é desde a eter­ni­dade e será até a eter­ni­dade; era rei, e será rei. Tenha agora mise­ri­cór­dia da obra das suas mãos; conceda-me conhe­ci­mento e com­pre­en­são, para que eu saiba o que sobrevirá a mim, à minha pos­te­ri­dade e a todas as gerações que virão depois de mim, e o que me sobrevirá a cada dia e a cada mês. Não negue a mim o auxílio dos seus servos e dos seus anjos.

No terceiro dia depois que Adão ofereceu essa oração, enquanto sentava às margens do rio que flui do Paraíso, apareceu a ele, na hora mais quente do dia, o anjo Raziel, trazendo nas suas mãos um livro. O anjo dirigiu-se a Adão com as seguintes palavras:

– Adão, porque está tão desa­ni­mado? Porque tão aflito e ansioso? As suas palavras foram ouvidas no momento em que, entre apelos e súplicas, você as proferiu, e recebi a incum­bên­cia de ensinar-lhe palavras puras e com­pre­en­são profunda, de torná-lo sábio através do conteúdo do livro sagrado que trago nas mãos, e de dar-lhe a conhecer o que irá lhe sobrevir até o dia da sua morte. Quanto a todos os seus des­cen­den­tes e todas as gerações pos­te­ri­o­res, se lerem este livro em pureza, com um coração devoto e uma mente humilde, e obe­de­ce­rem aos seus preceitos, tornar-se-ão como você: eles também saberão de antemão o que acon­te­cerá, em qual mês e em qual dia ou qual noite. Tudo estará manifesto para eles: saberão e com­pre­en­de­rão se uma cala­mi­dade está por vir, uma fome ou animais selvagens, inun­da­ções ou seca; se haverá abun­dân­cia de grão ou escassez; se os perversos gover­na­rão o mundo; se gafa­nho­tos devas­ta­rão a terra; se os frutos cairão das árvores ainda verdes; se furún­cu­los afligirão os homens; se guerras pre­do­mi­na­rão, ou doenças ou pragas entre homens e gado; se o bem foi resolvido no céu, ou o mal; se o sangue fluirá, e o rumor de morte dos abatidos será ouvido na cidade. E agora, Adão, venha e dê ouvidos a tudo que lhe direi a respeito da natureza deste livro e da sua santidade.

O anjo Raziel então leu do livro e, quando ouviu as palavras do santo volume pro­fe­ri­das pela boca do anjo, Adão caiu no chão, tomado de pavor. Porém o anjo o encorajou:

– Levante-se, Adão – ele disse. – Coragem, não tenha medo, aceite este livro de mim e guarde-o, pois dele você extrairá conhe­ci­mento e se tornará sábio, e irá também ensinar o conteúdo dele a todos que forem dignos de saberem o que ele contém.

No momento em Adão pegou o livro uma chama de fogo brotou das pro­xi­mi­da­des do rio, e o anjo subiu sobre ela em direção ao céu. Adão então soube que o que havia falado com ele era um anjo de Deus, e que o livro vinha do próprio Rei Santo, e usou-o em santidade e pureza. Esse é o livro do qual podem ser apren­di­das todas as coisas que vale à pena saber, e todos os mistérios; que ensina também como invocar os anjos e fazê-los apa­re­ce­rem diante dos homens, e res­pon­de­rem todas as suas perguntas. Porém não são todos que podem fazer uso do livro, apenas aquele que é sábio e temente a Deus, e recorre a ele em santidade. Esse estará seguro contra todos os conselhos perversos, sua vida será serena, e quando a morte tirá-lo do mundo, encon­trará repouso num lugar onde não há nem demônios nem espíritos do mal, e das mãos dos perversos será veloz­mente resgatado.

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Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

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