ADÃO: O livro de Raziel
Depois de ser expulso do Paraíso Adão orou a Deus com as seguintes palavras:
– Ó Deus, Senhor do mundo! O senhor criou o mundo inteiro para honra e glória do Poderoso, e fez da forma que lhe agradou. Seu reino é por toda a eternidade, e seu reinado por todas as gerações. Nada lhe está oculto, e nada escondido dos seus olhos. O senhor criou-me como obra das suas mãos, e estabeleceu-me como governante sobre as suas criaturas, para que eu exercesse domínio sobre as suas obras. Porém a ardilosa e execrável serpente seduziu-me com desejo e com lascívias; seduziu, é verdade, a esposa do meu coração. O senhor, no entanto, não revelou-me o que sobrevirá a meus filhos e às gerações depois de mim. Sei muito bem que nenhum ser humano é capaz de ser íntegro aos seus olhos. E que é minha força para que eu me coloque na sua presença com rosto impudente? Não tenho boca com que falar nem olho com o qual ver, pois verdadeiramente pequei e cometi transgressão, e por causa dos meus pecados fui expulso do Paraíso. Devo arar a terra da qual fui tomado, e os demais habitantes da terra, os animais selvagens, não mais, como antes, demonstram assombro e temor diante de mim. A partir do instante em que comi da árvore do conhecimento do bem e do mal a sabedoria me abandonou: sou um tolo que nada sabe, um ignorante que nada compreende. Agora, misericordioso e gracioso Deus, peço que volte novamente a sua compaixão ao cabeça das suas obras, ao espírito que instilou nele e à alma que soprou nele. Venha ao meu encontro com a sua graça, pois o senhor é gracioso, tardio em irar-se e pleno de amor. Que a minha oração alcance o trono da sua glória, e a minha súplica o trono de sua misericórdia; que o senhor se incline na minha direção com amor. Que as palavras da minha boca sejam aceitáveis, e o senhor não dê as costas à minha petição. O senhor é desde a eternidade e será até a eternidade; era rei, e será rei. Tenha agora misericórdia da obra das suas mãos; conceda-me conhecimento e compreensão, para que eu saiba o que sobrevirá a mim, à minha posteridade e a todas as gerações que virão depois de mim, e o que me sobrevirá a cada dia e a cada mês. Não negue a mim o auxílio dos seus servos e dos seus anjos.
No terceiro dia depois que Adão ofereceu essa oração, enquanto sentava às margens do rio que flui do Paraíso, apareceu a ele, na hora mais quente do dia, o anjo Raziel, trazendo nas suas mãos um livro. O anjo dirigiu-se a Adão com as seguintes palavras:
– Adão, porque está tão desanimado? Porque tão aflito e ansioso? As suas palavras foram ouvidas no momento em que, entre apelos e súplicas, você as proferiu, e recebi a incumbência de ensinar-lhe palavras puras e compreensão profunda, de torná-lo sábio através do conteúdo do livro sagrado que trago nas mãos, e de dar-lhe a conhecer o que irá lhe sobrevir até o dia da sua morte. Quanto a todos os seus descendentes e todas as gerações posteriores, se lerem este livro em pureza, com um coração devoto e uma mente humilde, e obedecerem aos seus preceitos, tornar-se-ão como você: eles também saberão de antemão o que acontecerá, em qual mês e em qual dia ou qual noite. Tudo estará manifesto para eles: saberão e compreenderão se uma calamidade está por vir, uma fome ou animais selvagens, inundações ou seca; se haverá abundância de grão ou escassez; se os perversos governarão o mundo; se gafanhotos devastarão a terra; se os frutos cairão das árvores ainda verdes; se furúnculos afligirão os homens; se guerras predominarão, ou doenças ou pragas entre homens e gado; se o bem foi resolvido no céu, ou o mal; se o sangue fluirá, e o rumor de morte dos abatidos será ouvido na cidade. E agora, Adão, venha e dê ouvidos a tudo que lhe direi a respeito da natureza deste livro e da sua santidade.
O anjo Raziel então leu do livro e, quando ouviu as palavras do santo volume proferidas pela boca do anjo, Adão caiu no chão, tomado de pavor. Porém o anjo o encorajou:
– Levante-se, Adão – ele disse. – Coragem, não tenha medo, aceite este livro de mim e guarde-o, pois dele você extrairá conhecimento e se tornará sábio, e irá também ensinar o conteúdo dele a todos que forem dignos de saberem o que ele contém.
No momento em Adão pegou o livro uma chama de fogo brotou das proximidades do rio, e o anjo subiu sobre ela em direção ao céu. Adão então soube que o que havia falado com ele era um anjo de Deus, e que o livro vinha do próprio Rei Santo, e usou-o em santidade e pureza. Esse é o livro do qual podem ser aprendidas todas as coisas que vale à pena saber, e todos os mistérios; que ensina também como invocar os anjos e fazê-los aparecerem diante dos homens, e responderem todas as suas perguntas. Porém não são todos que podem fazer uso do livro, apenas aquele que é sábio e temente a Deus, e recorre a ele em santidade. Esse estará seguro contra todos os conselhos perversos, sua vida será serena, e quando a morte tirá-lo do mundo, encontrará repouso num lugar onde não há nem demônios nem espíritos do mal, e das mãos dos perversos será velozmente resgatado.
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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Este documento faz parte da série
Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos
- A geração do dilúvio
- O livro santo
- Os ocupantes da arca



Júnior
O que dizem é que o Serpente era um braço do rio que saia do Éden e regava o jardim, como o Tigre, que podia se metamorfosear em qualquer criação.
Este quinto braço serpenteava por todo jardim de forma que quando era visto mudava o seu curso para um lado esquerdo qualquer de forma que nunca era encontrado. Mas tinha um lugar que ele não tinha acesso…
Veio ter com o homem através da mulher como que querendo possuir a mente humana. Como serpente, alimária astuta do campo, enganou a mulher que o fez ao homem, e se transmudou em um rio anguiforme na imaginação humana que flui do interior para o inferno.
Daí o pensamento do Mestre que do interior fluiriam rios de águas vivas, pois até então estavam mortas. Mas esta história nunca foi comprovada por homem algum e está passiva de recusa por todos como uma Carlice qualquer.
Aguarde em outro dia qualquer a história do Tigre, quer dizer do homem.
Abraço